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  • O termo agressão em psicanálise tem se referido a uma gama ampla e variada de fenômenos e conceitos, conforme o período da história da psicanálise, o autor ou a escola que estejam servindo de enquadre para a sua discussão.

    Inicialmente uma pulsão pouco definida na primeira tópica freudiana, um constituinte do inconsciente em contraposição ao pré-consciente e o consciente, a agressão adquiriu uma conceituação mais definida com a introdução do conceito de pulsão de morte em “Mais além do princípio do prazer”.

    Com a idéia de que a matéria viva havia se criado a partir do inorgânico, mais desorganizado, e que esta trajetória teria gerado uma tendência interna e inerente de retorno a este estado inorgânico original, não vivo, a Pulsão de Morte, Freud derivou a agressão da necessidade de defletir esta tendência de retorno ao não-vivo para o exterior para permitir, ainda que transitoriamente, a vida. A agressão então constituiria a tendência à autodestruição defletida para o exterior, para os objetos, a partir da intervenção das pulsões de vida.

    Embora esta concepção a partir da tendência de retorno ao inanimado tenha nascido controversa para o próprio Freud, e as controvérsias não tenham nunca desaparecido das discussões posteriores, com esta concepção da origem da pulsão de morte sendo progressivamente abandonada em favor de uma concepção mais puramente psicológica, a vinculação da agressão à pulsão de morte nunca deixou de ser feita dentro das metapsicologias próprias das escolas posteriores. O grupo Kleiniano, na Inglaterra, fez da agressão destrutiva, derivada diretamente da pulsão de morte, principalmente através de uma inveja primária que buscaria destruir o bom, e de sua influência na constituição do psiquismo, seu principal fator na etiologia das diferentes psicopatologias. Já o grupo independente, principalmente a partir de Winnicott,  enfatizou muito mais a agressão dentro da tendência à vinculação ao objeto e ao desenvolvimento.


    A inevitável relação da agressão com a emoção da raiva também pode ser compreendida dentro destes diferentes enfoques. Numa psicanálise que tentava entender as profundezas do psiquismo partindo da experiência clínica com as patologias, principalmente as mais graves, a raiva que era observada era principalmente aquela que levava a manifestações destrutivas para o indivíduo e seus objetos, a raiva dentro da patologia. Já numa teorização que partia principalmente de uma observação do desenvolvimento normal, e só eventualmente patológico, a raiva era percebida como uma emoção natural e necessária para imprimir mais energia na luta pela vida quando diante da frustração na relação com os objetos.


    Provavelmente as diferentes concepções reflitam não só diferenças teóricas mas também o fato de que, a despeito de nosso desejo pela simplicidade, que muitas vezes leva à simplificação, tenhamos que discriminar diversas situações muito diferentes entre si que tenham sido descritas usando o mesmo termo amplo “agressão”.

     

  • Autor: Maurício Marx e Silva
  • Desde que Freud lançou as bases da psicanálise, há mais de cem anos, a sociedade e a cultura têm passado por profundas modificações. Como o homem se insere em conformidade com a imposição do meio, pode - se dizer que a psicopatologia, sofrendo a mesma influência, passou dos histéricos da época, a dar lugar a quadros tais como, narcisistas, borderlines e aditos. O conhecimento psicanalítico vem se expandindo significativamente, podendo-se falar em uma expansão da mente psicanalítica.

    Durante décadas, foi somente discutida a questão da indicação/contraindicação em função da psicopatologia e dos diagnósticos psiquiátricos, evoluindo com o passar do tempo, ao pensar essencialmente nas diferentes capacidades egóicas.

    B. Joseph (1975) lançou a ideia da acessibilidade, introduzindo um novo viés na reflexão acerca da flexibilidade na aceitação de pacientes para análise, o que possibilitou a muitos, a “chance” de se analisar, em lugar de serem “condenados” à exclusão. A ideia de acessibilidade alerta que existem pacientes mais difíceis de acessar do que outros, e não que existam pacientes inacessíveis.

    A introdução de parâmetros relativos à técnica psicanalítica, bem como o aproveitamento dos avanços da psicofarmacologia, tem possibilitado que se criem condições que permitem que a psicanálise seja mais acessível e eficiente.

    Em função da analisabilidade, está cada vez mais se ampliando a discussão sobre o emprego do método psicanalítico e as questões levantadas por Thomä e Kächele (1985), tais como: “Quais modificações se alcançam, com que paciente, com quais dificuldades, quando o procedimento psicanalítico se aplica, de que maneira e por qual analista? ” Estas questões devem ser atentamente refletidas, visando-se a uma posição minimamente restritiva, tendo em vista a incerteza com relação ao diagnóstico da não analisabilidade.

    Os autores referidos refletem ainda sobre a transferência e seu manejo, questão nuclear na psicanálise, cujas fronteiras tem estado em constante expansão.  Pensam eles na necessidade de se entender operacionalmente a transferência, conforme as variações das condições técnicas, como por exemplo, a instalação da neurose transferencial alimentada por interpretações transferenciais, ou a transferência como reação à situação analítica.

    Neste sentido, podem ser diferenciados os pacientes conforme o desenvolvimento do quadro transferencial e assim, pensar-se numa psicopatologia psicanalítica, onde estudos significativos, citados por eles, com relação a aplicações da técnica em pacientes por exemplo esquizofrênicos, por Rosenfeld, perversos, por Masud Khan,Chasseguet-Smirgel e McDougall, narcisistas, por Kohut e borderlines por Kernberg, estendem largamente o alcance da terapêutica psicanalítica, na medida em que o analista também seja capaz de se adequar às condições necessárias aos diferentes casos.

    Tendo como base desenvolvimentos mais recentes, pode-se entender que é indicada terapia analítica a um paciente sempre que se crê possível, expandir sua capacidade mental de pensar. Isto significa essencialmente, alcançar uma melhor função continente, que permita manejar e vivenciar mais adequadamente suas circunstâncias experimentadas. Em outras palavras, pode-se dizer que a análise deve ser capaz de promover a introjeção de um novo modelo mental que torne a vida possível.

    O trabalho analítico, em sua essência, não se refere mais ao tratamento da doença de um paciente em si, mas sim, em permitir que a dor mental seja pensada, dor esta que tem origem na conflitiva do paciente, e que isto é alcançado através da atualização de tal conflitiva na relação analista/analisando.

     

  • Autor: Gerson Isac Berlim
  • André Green foi um homem que animou o mundo psicanalítico contemporâneo tornando-se um de seus maiores pensadores, oferecendo novas possibilidades de se observar o funcionamento do aparelho psíquico. Para isto, contou com sua inteligência surpreendente, sua curiosidade, sua capacidade de se aproximar de diferentes áreas da ciência e da cultura.

    Nasceu no Cairo, em 12 de março de 1927 e ali viveu até seus 19 anos. Era filho de judeus sefardistas: pai português e mãe espanhola. Desde cedo, a cultura e a língua francesa (a materna) o atraiam. Considerava a morte prematura do seu pai (estava com 14 anos) um dos acontecimentos mais marcantes da sua vida. Ao mesmo tempo, sua mãe, extremamente sensível, também foi a base de suas motivações em relação ao trabalho analítico sobre o afeto e a sua descrição sobre o complexo da mãe morta assim o comprova (ela sofreu de uma depressão quando Green tinha dois anos).

    Em 1946 mudou-se para Paris, ingressando na faculdade de Medicina. No Hospital Saint-Anne investiu com prazer na sua formação: além do aprendizado, era um local em que pesquisadores e personalidades encontravam liberdade e onde também conheceu Henri Ey, o seu grande mestre. Nele, que era a alma do Hospital Saint Anne, encontrou qualidades humanas e simplicidade, aliado à curiosidade intelectual e uma vasta cultura. O considerava um substituto paterno.

    Teve uma sólida base de conhecimentos nas áreas humanas, e encontrou no pensamento clinico de Freud e na psicanálise a base que lhe permitiu acesso ao funcionamento do inconsciente. Mesmo criticado, frequentou os seminários de Lacan, além de aproximar-se de psicanalistas ingleses, como Winnicott e Bion.

    Fez sua formação analítica na Sociedade Psicanalítica de Paris, tornando-se Membro Efetivo e um dos mais destacados analistas, principalmente pela qualidade de sua produção e dedicação à psicanálise. Em 1956 iniciou sua primeira análise com Maurice Bouvet. Depois, um reanálise curta com Jean Mallet. Posteriormente, com Catherine Parat:  “poderia dizer que com ela eu fiz minha verdadeira análise, porque ela mostrou provas de qualidades eminentes…”

    Foi presidente da SPP (1987) e também diretor do Instituto de Psicanálise da mesma; vice-presidente da IPA; professor no University College, em Londres; Professor Honorário da Universidade de Buenos Aires; Membro da Academia de Humanidades e Pesquisa de Moscou; Membro da Academia de Ciências de Nova York; Membro da Sociedade Britânica de Psicanálise. Em 2007 foi agraciado com o prêmio “Relevantes Realizações Científicas” – a maior distinção da IPA.

    Tonou-se um dos maiores pensadores da psicanálise contemporânea e seus trabalhos servem de base para muitos Institutos de Formação Psicanalítica, da mesma forma que são respeitados por vários meios da cultura. Sua obra é traduzida em mais de 10 línguas e foi desenhada não só por sua história pessoal, por sua capacidade de apreender o humano através da sua experiência clinica com seus pacientes, como também pela literatura - Shakespeare, Proust, Conrad, Borges, Henry James, Vassili Grossman entre outros.

    Devemos a Green uma série de conceitos e noções que se tornaram familiares no nosso meio, tais como: o complexo da mãe morta, o narcisismo primário como estrutura,  narcisismo de vida e narcisismo de morte, o trabalho do negativo, as funções objetalizantes e desobjetalizantes, a estrutura enquandrante do eu e sua relação com a alucinação negativa, o duplo limite, a desertificação psíquica, os processos terciários e a terceiridade, o representante-afeto, a relação pulsão-objeto, a linguagem e todo um desenvolvimento para compreensão das pulsões destrutivas, essenciais para a compreensão dos casos limítrofes.

    Acredito que o fato de A. Green entender que nenhum corpo teórico contém uma única verdade, fez dele um psicanalista que via a psicanálise não tendo uma teoria definitiva mas, ao contrário, sempre em movimento, acreditando que conhecimento sobre o que é humano não pode ficar restrito a rígidas definições.

     

  • Autor: Luciane Falcão
  • É um tipo de angústia, portanto, uma emoção dolorosa, que surge como uma reação ao risco de perder ou separar-se de uma figura de ligação importante, geralmente a perda ou afastamento da mãe como objeto, que representa o amparo, a proteção, tanto aos riscos externos como também, fundamentalmente, as inundações internas oriundas de necessidades não atendidas.

    Considera-se uma angústia ligada ao estado de desamparo devido ao nascimento imaturo do ser humano (neotenia), é associada a uma etapa do desenvolvimento normal da criança e tende a se expressar em diversas situações de separação ao longo da vida. Inclusive no processo analítico é um fenômeno que se evidencia nas variadas situações de descontinuidade (final de sessão, férias, interrupções de fim de semana ou imprevisibilidades). É um sentimento universal com um caráter normal no desenvolvimento, mas também pode adquirir uma dimensão patológica configurando um quadro clínico específico: o transtorno de ansiedade de separação (DSM-5) ou síndromes de abandono como referida por alguns analistas. São várias as abordagens e visões teóricas sobre as origens do desenvolvimento desta angústia e a intervenção sobre ela vai variar no setting analítico conforme a origem da angústia e a compreensão teórica do analista.

    Freud foi o primeiro psicanalista a abordar e teorizar a respeito da questão do desamparo e da angústia de separação. A origem do conceito já pode ser percebida em 1905 quando o autor descrevendo a amamentação ressalta a importância do amparo precoce (Freud, 1905). Referindo-se a angústia infantil o autor enfatiza que a ansiedade diante de qualquer estranho bem como o medo da escuridão surge frente à perda da visão em relação à pessoa amada, “e se deixam acalmar quando podem segurar-lhe a mão na obscuridade”. Contudo a primeira referência explícita sobre a importância da separação da mãe na geração da ansiedade ocorreu na conferência XXV em 1916. 

    A elaboração da angústia de separação foi descrita por Freud ao observar a brincadeira de seu neto de um ano e meio de idade durante a ausência materna. Ele forneceu relevante compreensão sobre o conteúdo subjacente do brincar da criança através da clássica brincadeira do carretel (Fort-Da). Com a evolução da compreensão advinda da análise de crianças foi ficando clara a constatação Freudiana de que através da encenação a criança representa e elabora ativamente a separação vivenciada passivamente. Ou seja, seria uma forma de elaboração da angústia de separação uma vez que o evento causador de sofrimento, a ausência da mãe, é transformado ativamente em algo prazeroso na atividade vivenciada no jogo.

    Em inibições, sintomas e ansiedade (1926) a angústia é definida como uma reação frente a um estado de perigo e é reeditada toda vez que um estado desse tipo vem a se repetir. O protótipo desse perigo é oriundo do trauma de nascimento. É um perigo para a vida. Ainda que possamos supor que o bebê não tenha qualquer consciência de que sua vida corra perigo. Contudo podemos pressupor que a inundação de excitações, de estímulos, possa desencadear esse estado de desconforto.

    Muitos psicanalistas desenvolveram trabalhos sobre angústia de separação. Destacamos alguns com vasta produção teórica relevante tais como Klein, Anna Freud, Winnicott, Spitz, Mahler, Bowlby e, mais contemporaneamente, uma importante obra do suíço, Jean-Michel Quinodoz.

  • Autor: Nazur Aragonez de Vasconcellos
  • A ansiedade é um tema muito amplo e ocupou Freud na maioria de seus escritos segundo James Strachey, editor das Obras Completas. O termo “ansiedade” é utilizado nas Obras Completas, porém a partir do alemão Angst é traduzido como “angústia” em outras obras. Ao longo de sua obra vai falar em ansiedade fazendo par com susto, medo, temor, etc. Em suas primeiras idéias (teoria econômica, estruturada nos anos 1895-1900) a ansiedade surgia como uma forma direta de descarga da libido rejeitada; com a concepção de um aparelho psíquico composto de ego, id e superego (teoria estrutural,1924) a ansiedade aparece não necessariamente em ligação direta com a libido sexual, e sua concepção teórica torna-se mais complexa. Então Freud estuda e especifica as ansiedades como sinal (símbolo), automática ou frente a um perigo real. As ansiedades características das neuroses constituem um imenso estudo e tratam de um quantum de ansiedade que vai se fixar constituindo diferentes quadros neuróticos. Nesse sentido, além de Freud pode-se ver J.Laplanche.

    Em Psicanálise, ansiedade é um estado afetivo de expectativa que pode chegar ao desprazer, acompanhado de sensações físicas relacionadas a determinados órgãos do corpo. Vamos considerar o início da vida, quando o bebê com ego em seus primórdios chega a um estado de desamparo em face de uma necessidade não atendida num tempo suficiente. Essa dependência, que no início predomina em termos biológicos, logo se incrementa em termos psicológicos, tendo gerado a famosa frase de Freud: “...há muito mais continuidade entre a vida intra-uterina e a primeira infância do que a impressionante cesura do ato do nascimento nos teria feito acreditar”.  O protótipo da situação geradora de ansiedade, segundo Freud, é o nascimento e as próximas situações sucedem-se ao longo do desenvolvimento que, em si mesmo, é um desafio constante para o indivíduo. Assim, precisará enfrentar as modificações geradas pelo ciclo vital em seu corpo/mente e estas, embora naturais, demandam atendimentos complexos, na maioria das vezes testando os limites do já alcançado e gerando expectativa ansiosa. Como a dependência do meio externo é constante, dele partem ou nele são projetadas expectativas que novamente podem gerar ou reforçar a ansiedade; afinal, muitos são os perigos que ameaçam a vida desde cedo, relativos às possibilidades de perdas do objeto/mãe em si, perda do amor do objeto, ansiedade de castração, medo do superego, etc.

    À medida em que a experiência emocional vai acontecendo, tendo como centro a ansiedade, desenvolvem-se os mecanismos de defesa e a capacidade de gerar significados no psiquismo, destacando-se dois matizes básicos que vão tonalizar a ansiedade: o persecutório e o depressivo. Nesse sentido, ver Melanie Klein. No relacionamento afetivo, quando o amadurecimento alcança a condição de individuação e reconhecimento do outro, a ansiedade gerada pela perda, antes vivida somente como ofensiva ao eu e portanto persecutória, passa a ser sentida também como uma falta dolorosa do outro, agora com tonalidade depressiva, mesclada com tristeza.  Podemos perceber a ansiedade em transformação seja no psiquismo humano seja nos estudos psicanalíticos; ela vai se elaborando na medida em que se desenvolve o psiquismo e na medida em que os estudos avançam com compreensões e descrições mais precisas.

  • Autor: Alda Regina Dorneles de Oliveira
  • Para descrever recomendações técnicas da psicanálise, Freud fez uma comparação emblemática entre a psicanálise e o jogo de xadrez. Em ambos, o que podemos conhecer, sistematicamente, são apenas suas aberturas e seus finais. Impossível determinar, previamente, seus caminhos intermediários. A comparação ressalta que em ambos há regras a serem seguidas – que devem ser conhecidas por seus participantes -, e que se convive, desde o início, com incógnitas sobre como o jogo e a análise se desenvolverão. Propostas de encontro com o desconhecido.

    A psicanálise se baseia na noção de que há conteúdos inconscientes que determinam conflitos, ações e sofrimentos nos indivíduos. Como medidas de defesa, tais conteúdos se esforçam para permanecer no inconsciente, para onde foram destinados. O trabalho da análise é o de investigar a origem patogênica dos complexos inconscientes, visando conhecê-los e tratá-los.

    O paciente deve contar a seu analista tudo o que lhe vier à mente, sem se preocupar com aspectos lógicos e/ou inteligíveis de seu discurso. Deve falar livre e despreocupadamente, despindo-se de sua autocrítica, que funciona como uma barreira para impedir o acesso do inconsciente ao consciente. Essa é a regra fundamental para o paciente no tratamento: perseguir sua associação livre. Todo o fluxo de pensamento deve ser comunicado, a preocupação com conexões lógicas desprezada, para que se revele uma cadeia de associações inconscientes carregada de significado.

    Em contrapartida, para o psicanalista, a regra é que realize uma escuta o mais livre possível de sua crítica ou julgamento, atitudes essas derivadas de seus próprios complexos inconscientes. Para essa escuta livre, é essencial que ele dedique a mesma atenção ao fluxo de informações do paciente, cuidando para não ressaltar um aspecto, em detrimento de outros. A atitude exigida ao analista é a de que mantenha uma atenção livremente flutuante, que permita uma compreensão da mente do paciente com a menor interferência possível da atividade inconsciente do próprio analista. Freud alerta para o perigo inerente ao não cumprimento dessa regra. “Assim que alguém deliberadamente concentra bastante atenção, começa a selecionar o material que lhe é apresentado; um ponto fixar-se-á em sua mente com clareza particular e algum outro será, correspondentemente, negligenciado e, ao fazer essa seleção, estará seguindo suas expectativas ou inclinações” (1912). 

    Bion, psicanalista mais recente, sugere uma atitude de escuta “sem memória e sem desejo”, ou seja, que o analista trabalhe, na sessão, despido de expectativas pessoais e de preocupação com aquilo que já sabe. A semelhança entre as atitudes parece clara.

    O físico Albert Einstein comentou sobre sua atitude de investigação: “Eu penso noventa e nove vezes e não descubro a verdade. Paro de pensar, mergulho em profundo silêncio, e eis que a verdade me é revelada”. Através da atenção flutuante, o analista mergulharia no profundo silêncio citado por Einstein, para caminhar, com o seu paciente, rumo à descoberta da verdade. A atenção flutuante (analista), aliada à associação livre (paciente), permitem à dupla analítica aprofundar o conhecimento da mente.

    Para Einstein, que não era um psicanalista, mas um grande pesquisador, “a mente que se abre a uma nova ideia jamais voltará ao seu tamanho original”. A ideia nos permite aludir ao processo analítico.

     

  • Autor: Suzana Iankilevich Golbert
  • Joseph foi uma das destacadas analistas do grupo kleiniano inglês. Nasceu em Birminghan em 7 de março de 1917 e faleceu em 4 de abril de 2013, aos 96 anos.

    Fazendo uma retrospectiva de sua longa e produtiva vida, podemos constatar que poucos analistas levaram tão a sério o preceito técnico de “trabalhar no aqui-e-agora”. Foi a analista do “detalhe”, fazendo uma verdadeira microscopia da sensível intimidade do que se passa em uma sala de análise. Seu olhar voltado para a clínica, observava a relação analítica em toda a sua complexidade e em seus sutis movimentos, gerados pelo “uso que o paciente faz do analista” para se proteger de suas ansiedades, tanto as persecutórias, como as depressivas.

    Vindo da área do serviço social, iniciou sua formação em 1945, analisando-se com Michael Balint. Seguiu sua análise didática com Paula Heimann e um trabalho de supervisão com Hanna Segal, o qual gerou uma amizade e uma rica troca de ideias entre elas que durou cerca de 40 anos. Encontrou em Segal uma interlocutora com quem discutir seus casos clínicos. Betty Joseph foi uma das últimas sobreviventes de um legado direto de Melanie Klein, frequentando seu círculo íntimo.

    Joseph seguiu Klein com o mesmo espirito que Klein seguiu Freud, abrindo um campo de estudos que gerou modificações técnicas importantes. Usou a técnica kleiniana clássica, mas desenvolveu, a partir dos anos 70, um estilo próprio de praticar a psicanálise, com uma escuta acurada dos pacientes, com uma atenção às mudanças psíquicas que ocorrem na mente durante a sessão, com o uso técnico da transferência/contratransferência. Um bom exemplo foi a aplicação técnica do conceito de identificação projetiva, descrito por Klein em 1946, uma área a ser explorada, que gerou importantes avanços para as futuras gerações de psicanalistas.

    O seminário que conduziu durante anos, tornou-se, segundo Hanna Segal, um verdadeiro laboratório, descrevendo em pormenores as trocas entre paciente e analista na sessão, especialmente as mudanças frente às intervenções do analista. O seu interesse e experiência com pacientes de “difícil acesso” e aqueles com “vício pela quase-morte”, com características altamente destrutivas, foi de grande utilidade para que muitos colegas pudessem reverter situações em que havia uma barreira, muitas vezes intransponível, para um processo analítico evoluir favoravelmente.

    Podemos descrevê-la como uma analista com intuição fina e rigor intelectual e técnico. Isso gerou-lhe uma abrangência e admiração, mesmo para analistas afastados do modelo kleiniano.

    Esteve na SPPA em duas oportunidades, em 1997 e em 2002, deixando questões importantes para serem pensadas a partir de suas ricas supervisões e conferências.

  • Autor: Ivan Fetter
  • Transtorno de Personalidade Borderline é um diagnóstico psiquiátrico referente a um quadro de longa duração, em que ocorre, de forma oscilante e repetitiva, marcada instabilidade emocional, impulsividade na conduta, e risco de perda do senso de realidade. Sofrimento, e sentimento de confusão são centrais e profundamente desorganizadores para esses indivíduos. Os sintomas não preenchem os critérios clássicos para uma neurose ou para uma psicose, sendo muitas vezes de difícil diagnóstico. O indivíduo não está predominantemente desconectado da realidade, e delirante, como ocorre na psicose, mas também não tem um funcionamento emocional e racional minimamente estável, o que caracteriza a neurose. São pessoas que conservam capacidades importantes de noção da realidade, e aparentam, muitas vezes, estar bem, relacionar-se bem, ter uma vida produtiva, enquanto que o mundo interno não corresponde a esses indicativos, e é inundado por sentimentos crônicos de vazio, confusão. Ao investigar mais detidamente a vida dessas pessoas, tem-se também que seus vínculos interpessoais costumam estar continuamente ameaçados por um padrão impulsivo, em que são comuns agressões físicas, verbais, e condutas autodestrutivas, como tentativas de suicídio, automutilação, ou exposição a perigos. São comuns explosões de agressividade, raiva ou pânico, que acabam, com frequência, por afastar pessoas significativas, gerando tristeza, solidão e profundo sentimento de culpa. Como indicam os termos, em inglês, border (fronteira), e line (linha), tratam-se de pessoas que transitam nos limites da perda da sanidade mental, e cujo problema central está nas  linhas (imaginárias) de estruturação dos espaços mentais, vitais a qualquer ser humano. O termo “limítrofe” é uma boa tradução para o português. Imagine-se a mente como uma casa de paredes sólidas, dividida em sala, quartos, cozinha, com divisórias firmes: essa é uma mente saudável (estrutura neurótica). Imagine-se a casa sem a porta, e com algumas paredes externas e internas caídas: essa é a mente psicótica, que perde a noção do que é real ou imaginado, do que é seu ou do outro, do que é fantasia ou realidade. O estado mental borderline, ou limítrofe, por sua vez, pode ser comparado a uma  casa com várias paredes externas firmes, mas com divisórias internas frágeis, que se desfazem como que por encanto (quando frustrados ou estressados), e se refazem quando o fator desorganizador passa. Quando, porém, muitas paredes internas sucumbem, também as externas começam a ceder, e o indivíduo borderline pode desenvolver episódios psicóticos, e requerer hospitalização ou cuidados psiquiátricos intensivos. São pessoas particularmente sensíveis ao meio ambiente e as separações, com intenso receio de abandono, e paradoxal ansiedade frente a aproximação e estabelecimento de intimidade, muitas vezes percebida como perigosa intrusão, o que desencadeia uma reação fóbica.

    As teorias psicanalíticas a respeito desses casos indicam uma precoce preponderância de vivências destrutivas, que acabam por obscurecer e misturar-se patologicamente com as capacidades criativas e amorosas dessas pessoas. (6)

    As causas do transtorno são um misto de tendências agressivas, fragilidade pessoal constitucional e um ambiente familiar instável, com vivências desorganizadoras e negativas desde a tenra infância. (4)

    A evolução desses quadros costuma ter efeitos devastadores, dificultando a formação de vínculos afetivos, crescimento profissional e pessoal. A taxa de suicídio é alta (3 a 10%) (3). A sensação de vazio ou de farsa traz sofrimento atroz. Como esses sintomas também ocorrem em outras patologias psiquiátricas, como transtorno de humor, é importante que se proceda uma avaliação clínica com um profissional (psiquiatra, psicólogo, psicanalista). Com o passar das décadas, há uma tendência à remissão sintomática, com amenização dos quadros (5). A prevalência na população geral está estimada em 1,6%, (2). O tratamento indicado é a psicoterapia ou psicanálise. Os tratamentos de base psicanalítica têm desenvolvido abordagens diferenciadas a esses pacientes, o que tem resultado em maior aderência aos tratamentos e melhores resultados. (1). O uso de medicações pode se mostrar útil em alguns casos.

  • Autor: Idete Zimermann Bizzi
  • Termo criado por Madeleine e Willy Baranger (1961) com o qual buscam definir a estrutura da situação de análise como um campo dinâmico onde duas pessoas, analista e analisando, se encontram indefectivelmente ligadas e complementares enquanto dura a situação dentro da qual nenhum membro dessa dupla é inteligível sem o outro.

    A proposição dos Baranger dá início a uma radical mudança paradigmática nos fundamentos teóricos e técnicos da observação psicanalítica.  Freud, ao abandonar sua teoria inicial em que supõe serem os sintomas histéricos decorrentes de uma cena precoce de sedução sexual, descreve a formação do inconsciente como resultante de um conflito entre as demandas incessantes da sexualidade infantil e as defesas contra ela. Em consequência desta concepção propôs um método de tratamento que teria como foco o funcionamento mental do paciente, sobretudo como esse funcionamento se manifestava na relação com o terapeuta, o que passou a ser nomeado, no jargão, de transferência. Esse método supunha a participação de um psicanalista isento, capaz de observar de forma objetiva os processos mentais ocorrendo dentro da mente de seu paciente. No entanto, a própria experiência clínica encarregou-se de questionar essa proposta na medida em que constatava serem a “neutralidade” ou a “receptividade passiva” do terapeuta condições teóricas distantes das ocorrências reais vividas no consultório. A proliferação de trabalhos sobre os fenômenos contratransferenciais dá testemunho desse fato. O mais isento e sagaz dos terapeutas não poderia estar imune à reciprocidade dialética que se estabelece entre o sujeito e o objeto do conhecimento, a qual tem merecido dedicada atenção dos teóricos que se ocupam desse tema (Hessen, 1925). Atualmente há consenso quanto à impossibilidade de uma observação de cunho psicanalítico caucionada pela soberana objetividade do terapeuta observador. Sua inerente subjetividade impõe-se no ato de observação. Com a concepção de um campo relacional, que é certamente estruturado pelo jogo de identificações projetivas recíprocas, não há mais como pensar as ocorrências da vida mental de paciente e analista isoladamente. A idéia de uma tensão oscilatória constante entre as individualidades de cada um e a absorção dessas para dentro da intersubjetividade relaxa a premência analítica de distinguir o que é de um ou do outro (transferência e contratransferência). Amplia-se o ângulo de observação, já que não se mantém o foco no inconsciente com sua delimitação tópica dentro da mente individual conforme a formulação teórica clássica. Trata-se de um inconsciente deslocado, pois não se refere a um ou outro dos participantes, mas a ambos. Ou, como diz Sapisochin (2012), surge uma neoformação criada entre psiquismos de analista e paciente. “O campo é uma estrutura diferente da soma de seus componentes, como uma melodia é diferente da soma das notas” (Baranger, M., 1992).  Esse inconsciente feito a dois, que transcende aos indivíduos, só se configura quando acontecem os diálogos analíticos durante a sessão (Sopena, 2009). Portanto, o encontro analítico deve se constituir num espaço gerador de uma experiência emocional da dupla, privativa e irrepetível.  

    É necessário que se diga que a concepção do campo psicanalítico, como descrita acima, surge no bojo de aportes teóricos que implicaram em mudanças profundas nas abordagens clássicas sobre a constituição do psiquismo. Refiro-me, sobretudo, a D. Winnicott e W. Bion. Seja pela noção de “função continente” ou pela necessidade da ocorrência de “um ambiente suficientemente bom”, esses autores deixam claro que a mente humana não é algo dado por sua própria conta. Para que se processe a transformação das experiências emocionais mais primitivas em representações mentais capazes de promover o pensamento simbólico é necessário o comparecimento de outra mente que concorra para a formação do substrato sobre o qual vai se construir o que entendemos como funcionamento mental do indivíduo. A transposição dessa compreensão para os acontecimentos surgidos dentro da sala de análise levou ao que hoje se conhece como o campo psicanalítico intersubjetivo.

  • Autor: Paulo Henrique Favalli
  • Esta expressão inclui um espectro de emoções que precisam ser discriminadas. Diferenciar uma tristeza causada por um luto é importante.

    Alguém que nunca se entristece pode estar apresentando uma dificuldade de enfrentar a vida, reagindo de uma forma como se estivesse se protegendo, evitando sentir a dor e o sofrimento comum ao ser humano.

    Quando nos referimos à perda, num primeiro tempo, nos lembramos da morte de um ente querido, mas o termo pode abarcar outras perdas, como de um emprego, de um companheiro, de um ideal.

    Os sentimentos são de tristeza, desânimo, falta de interesse pelas atividades corriqueiras, diminuição do apetite, insônia, entre outros.

    Há um clássico texto de Freud, de 1915, “Luto e Melancolia”, que contém o cerne da compreensão psicanalítica da depressão.

    A melancolia se refere a um estado de diminuição da autoestima, de queixas exageradas do outro, de auto recriminações. 

    Ressaltamos, por exemplo, que, quando alguém perde por morte um companheiro e acusa o objeto perdido de estar causando este sofrimento, isso significa que, dentro de si, a figura do ente querido que morreu permanece ainda muito forte, tomando conta das emoções e impedindo que a catexia (energia de ligação) fique disponível para outros relacionamentos.

    No luto comum (ou normal), este período de tristeza é circunscrito temporalmente, e, aos poucos, a pessoa aceita a perda, sofre a dor e gradualmente direciona seu afeto a outras pessoas que fazem parte da sua vida.

    No chamado luto patológico, este processo não se realiza, e então o quadro tem as características da melancolia (ou Depressão mais intensa).

    Um outro psicanalista que desenvolveu o tema foi Abraham, que observou as diferenças de regressão, os aspectos narcisistas, as relações de objeto na infância e o funcionamento do superego e das defesas do ego.

    O papel e a manifestação da agressão, do ódio e da raiva precisam ser levados em conta, pois se entrelaçam com os conflitos de ambivalência que são comuns na depressão. A culpa é um sentimento que emerge pelo ataque fantasiado aos seus objetos internos e resulta num conflito.

    No tratamento de orientação psicanalítica, buscamos alcançar os conflitos envolvidos na dinâmica do quadro. Quando falamos em conflitos, referimo-nos a algo interno que se relaciona às experiências infantis das primeiras relações da criança com os seus pais ou cuidadores. Desde cedo, pela vivência de ser amado, o bebê vai estruturando seu ego, se relacionando progressivamente com a realidade e aprendendo a tolerar as frustrações.

    Na Depressão mais intensa, é possível haver sintomas psicóticos, com perda do contato com a realidade. O quadro clínico se caracteriza por angústia excessiva, sentimentos de vazio, apatia, desânimo, incapacidade de desfrutar da vida, impotência sexual, sentimentos de inferioridade, inibições do pensamento e retardo motor. Algumas vezes, se manifestam sintomas paranóides e hipocondríacos.

     O diagnóstico acurado de uma Depressão é fundamental, levando em conta os fatores constitucionais e hereditários para a indicação de um tratamento. A inclusão de medicamentos e a hospitalização podem ser necessárias.

     

  • Autor: Carmem E. Keidann
  • Psicanalista britânico, Donald Winnicott nasceu em Plymouth,  Inglaterra, em 1896 e faleceu aos 75 anos. Iniciou sua carreira profissional como pediatra no  Paddington Green Childreen’s Hospital de Londres, em 1923, época em que, através de uma recomendação de Ernest Jones, começou a se analisar com James Strachey.  A experiência em pediatria aliada à  prática psicanalítica foram determinantes para a  formação do rico legado de conceitos e idéias  que fazem de Winnicott, segundo as palavras de André Green, a mente mais criativa da Psicanálise depois de Freud.  Foi um teórico do desenvolvimento precoce do ser humano, favorecido e estimulado pela vasta experiência  de observação de conduta das crianças e suas mães no seu trabalho como pediatra, aliada ao privilégio de convívio e  troca científica com importantes  psicanalistas  da Sociedade Britânica como Melanie Klein,  Anna Freud, Ernest Jones, Joan Rivière, entre outros. Sua atitude de luta contra o conformismo e a submissão levou-o a se identificar mais com o grupo de psicanalistas que eram denominados como do Middle Group, onde se incluíam Michael Balint, Ronald Fairbairn , Sylvia Payne, Ella Shappe e Marjorie Brierley.

    Embora interessado pelas relações de objeto precoces, da mesma forma que Klein, mais tarde surgiram grandes diferenças teóricas entre eles relacionadas ao papel do ambiente no desenvolvimento emocional da criança.  Resumidamente poderíamos dizer que, enquanto para Klein este era um fator importante, para Winnicott foi se transformando no elemento fundamental, a ponto de considerar as falhas ambientais como a etiologia principal dos diferentes distúrbios psicopatológicos. Em 1945 expõe sua teoria sobre o Desenvolvimento Emocional Primitivo e propõe que a maturação emocional se dê em três etapas sucessivas: integração, personalização e o que vai chamar de realização, referindo-se a capacidade de adaptação à realidade.  Procurou apoiar nessa teoria seus pontos de vista sobre o Verdadeiro e Falso Self.

    O peso etiológico atribuído ao ambiente por Winnicott deu origem a propostas terapêuticas que buscavam oferecer um entorno emocional favorável para o desenvolvimento  pleno. Daí o conceito de holding, termo cunhado por Winnicott para descrever a capacidade de sustentação emocional da mãe em relação ao seu filho.Sustentava que o enquadramento analítico reunia as condições necessárias  para favorecer a regressão do paciente, o que significava uma segunda oportunidade para o desenvolvimento, através de um retorno à relação diádica.

     Além da contribuição importante sobre o tema da relação mãe/bebê,  podemos acrescentar mais duas grandes vertentes do seu pensamento : a criatividade primária e os fenômenos transicionais.

    Chamou de espaço potencial a área intermediária da experiência humana que repousa entre a fantasia e a realidade . Nesta área incluiu o espaço do brincar, a área dos fenômenos transicionais, a cultura, a arte, a criatividade e o espaço psicanalítico. Importante ressaltar uma característica do pensamento de Winnicott que é a presença do paradoxo. Entre outros, são conceitos seus muito atuais no estudo da psicanálise:  o medo do colapso, a capacidade de estar só, o uso do objeto, o ódio na contratransferência e a agressividade primaria. Foi ainda criador da técnica conhecida como Jogo de rabiscos, onde paciente e analista  criam uma forma de comunicação onde o brincar é o elemento facilitador .

  • Autor: Luisa Maria Rizzo
  • Édipo... O que é isso?

    Denominado assim por Sigmund Freud (1924), o Complexo de Édipo tem este nome por tomar emprestada a tragédia grega de Sófocles (496-406 a. C.) chamada Édipo Rei para explicar o desenvolvimento psicossexual de meninos e meninas e lhes permitir, ao final, ser um indivíduo único.

    A partir do relato de seus próprios sonhos e da observação das crianças pequenas, Freud (1900 e 1950) notara que os meninos nutriam sentimentos amorosos por suas mães e hostis por seus pais, ocorrendo o mesmo com as meninas, que ficavam enamoradas de seus pais e rivalizavam com suas mães quando pequenas. Notou também que este sentimento melhorava mas não sumia na idade adulta, ocorrendo normalmente com todos os seres humanos. Amante das artes, Freud tomou emprestado o mito de Édipo para explicar o fenômeno. Na história da tragédia grega o rapaz Édipo, sem saber, apaixona-se por sua mãe Jocasta e mata seu pai Layo. Ao descobrirem o que ocorrera, Édipo e Jocasta ficam desesperados pela culpa. Édipo se cega e Jocasta se suicida. A exemplo de Édipo, ao perceber que casamento com seus pais/cuidadores não será possível, já que o relacionamento sexual entre pais e filhos é proibido na nossa cultura, as crianças ficam decepcionadas com seus pais e sentem-se excluídas, tristes e culpadas (Freud, 1924). Aos poucos, com ajuda dos próprios pais ou cuidadores elas vão entendendo e aceitando esta Lei da Cultura e buscam outros homens e outras mulheres (substitutos dos pais) para casar. Isto permite que cada criança possa ampliar o seu ciclo de relacionamento criativamente e aceitar regras e limitações (Freud, 1913).

    Que efeitos tem o Complexo de Édipo na prática?

    Do ponto de vista do desenvolvimento observa-se que desde que nasce, o bebê humano está em contato com homens e mulheres, os quais têm hábitos, regras e modos de convivência compartilhados. Embora tenham nascido com um sexo biológico que os identifica como homens ou mulheres, subjetivamente as crianças precisam experenciar papéis, modos de viver e pensar considerados masculinos e femininos na cultura da qual fazem parte. Tal processo é longo e intrincado, permitindo que haja muitos movimentos de aproximação e afastamento da criança tanto com pai quanto com a mãe, de modo que pouco a pouco vão incorporando aspectos da subjetividade tanto femininos quanto masculinos. Chama-se a estes movimentos de aproximação e afastamento de Identificação, ao final do qual a criança já não se sente mais tão triste, excluída ou decepcionada por não ser o centro das atenções dos pais pois já os tem simbolicamente consigo si no modo de agir, pensar e sentir (Freud, 1924 e Aulagnier, 1979).

    Os sentimentos fraternos de rivalidade, ciúme e colaboração também fazem parte do Complexo de Édipo, pois é com os irmãos (ou companheiros de classe, amigos ou primos) que aprendemos a compartilhar o tempo e a atenção dos pais, bem como a não ser os seus únicos amores. Ao mesmo tempo, os irmãos passam pelas mesmas angústias e alegrias, fazendo-os parecidos entre si e diferentes dos pais (Kancyper, 1995).

    A percepção das gerações consolida a diferença entre os mais velhos e os mais jovens, e aliada às diferenças entre homens e mulheres resulta na aquisição da noção de que cada pessoa é diferente da outra e como tal deve ser respeitada na sua individualidade, seja ela homem ou mulher (Moreira, 2004).

  • Autor: Cátia Olivier Mello
  • Os elementos alfa estão diretamente relacionados ao pensamento de Bion , e à Teoria do Pensar, que se constitui no principal pilar teórico de sua obra.

    A teoria do pensar em Bion afasta-se do pensamento determinista e positivista vigente até então na psicanálise, para ele o processo analítico visa não um saber a mais, mas um saber para poder transformar, através do aprender da experiência emocional, o “conhecer” sempre significou algo da ordem de reduzir o não sabido, o desconhecido e essa atitude pode significar um abafamento do novo, algo que ao invés de ser explicado, precisa ser intuído e se desdobrar em associações novas, criativas.

    No modelo mais cartesiano o pensar é produto da maturação do ego levando-nos a uma teoria mais adaptativa, biológica. Para Bion,  o pensar humano é consequência da pressão dos pensamentos, sendo assim é o fato de existir de ter contato com o próprio ser que move o pensar, se pretendo ser sou forçado a pensar, logo altera o cogito: “penso, logo existo” para “existo, logo penso”.

    Neste contexto introduz o conceito de reverie materna – capacidade inicial da mãe em acolher e conter os impulsos e emoções primitivas do bebê, que as comunica através da identificação projetiva, ajudando-o a formar seu mundo interno e ao aprendizado da função do pensar.

    Na psicanálise isso implica em uma expansão epistemológica para uma mente concebida por uma teoria das funções: função alfa, elementos alfa, elementos beta, barreira de contato e tela beta. Essa ideia leva a uma concepção de um inconsciente sem fronteiras, infinito sempre em expansão. (2014)  

    Seguindo esse modelo a identificação projetiva é uma forma de comunicação do ser humano e assim as pessoas se comunicam querendo ou não, gerando uma comunicação inevitável entre as pessoas.

    A função alfa opera sobre as impressões sensoriais e emoções, transformando-as em elementos alfa, que possuem uma característica singular: podem ser armazenados, retidos na memória como experiências e, em geral, são transformados em imagens visuais, que por sua vez, sofrem novas transformações e são utilizados para os sonhos, pensamentos oníricos e recordações.

    Bion propôs o termo barreira de contato para essa formação de elementos alfa e que irá marcar uma separação entre consciente e inconsciente. Pode ser comparada a uma membrana semipermeável em um processo contínuo de formação que por sua vez se alimenta da formação dos elementos alfa, gerando o desenvolvimento no individuo de uma capacidade de estar consciente ou inconsciente e de uma relação realista com o tempo entre passado, presente e futuro ou até saber se está dormindo ou acordado.

     

    Elementos Beta

    Os elementos beta são tal qual os elementos alfa produtos da mente, não se relaciona a patologia mas sim a um predomínio do que Bion chama de parte psicótica da personalidade.

    Os elementos beta enquanto processo de crescimento e amadurecimento do indivíduo são aqueles que não foram passíveis de “continência” da função alfa – predomínio da parte não psicótica da personalidade , não permitindo que aquela atue na mente do outro, possibilitando que haja maior produção de elementos alfa e consequentemente uma maior capacidade de simbolização.

    No modelo da relação inicial do bebe com seio observamos que ele projeta na mãe, seus medos e suas angústias iniciais, relacionados ao temor da morte, ao desamparo, comunicando através da identificação projetiva essas impressões sensoriais e emoções muito primitivas, os elementos beta. A mãe, como continente dessas impressões, dessa carga emocional as recebe e as contém, desintoxica, modificando-a para que ele receba de volta sob uma forma tolerável.

    A capacidade da mãe de tolerar as angústias iniciais da criança, modifica o medo, diminuindo a angústia e ela transmite elementos alfa para a criança e permite que sejam utilizados, na medida em que os elementos beta ficam destituídos de sua força disruptiva que faz com que a criança sempre tente se livrar deles e com isso não desenvolve sua capacidade para pensar. O resultado é uma maior ampliação da parte não psicótica da personalidade, produtora de elementos alfa.

    Os elementos beta para Bion, são objetos compostos de coisas-em-si-mesma, equacionado ao conceito de coisa em si de Kant. Sendo fatos não digeridos, ou não sonhados e se prestam só a evacuação.

    Tanto elementos beta como alfa foram introduzidos por Bion para desenvolver sua Teoria do Pensar.

    Bion(1973) escreve; “ Elementos-beta são uma forma de falar acerca de um material que não é pensamento; elementos-alfa é uma forma de falar acerca de elementos que hipoteticamente supomos ser uma parte do pensamento”.

  • Autor: Gustavo Soares
  • O conceito de Enactment como recurso da Técnica Psicanalítica Contemporânea surge de maneira sistemática e é incluído como fenômeno da dupla analista-analisando a partir dos anos 80. Atualmente representa importante ferramenta/ instrumento para o trabalho analítico com pacientes que padecem de possibilidades de expressarem na linguagem e/ou na fala seus sofrimentos, utilizando a mente/fala/atos do analista para expressá-los durante a sessão.

    As teorizações sobre Campo Analítico como fundamental área de trabalho terapêutico não somente permitem, como se mostram – como o próprio termo diz – o “campo” no qual se formam/se constroem as duas mentes (analista+analisando), gerando uma “terceira” onde se desenvolverão as fantasias inconscientes da história de cada tratamento psicanalítico, ou seja, instalando o clima que permitirá o surgimento dos afetos/emoções vigentes em versão atual e presente, acessando assim as primevas vivências traumáticas ou não originais relações de objeto, primordiais alvos nas mudanças psíquicas que um tratamento psicanalítico pretende alcançar.

    Deste modo, o conceito de enactment ou representação em cena durante a sessão analítica vem reproduzir, na atualidade das sessões, os sofrimentos inconscientes ainda indizíveis e, portanto irrepresentáveis, por carecerem de suficiente expressão simbólica, ou seja, pré-simbólicos e anteriores à aquisição da palavra, passando deste modo a terem representação e expressão verbal através do diálogo analista-analisando.

     

  • Autor: Mauro Gus
  • Dotada de fantástica inteligência e curiosidade incomum pelas profundezas da alma humana e um talento excepcional para observar psicanaliticamente os bebês e as crianças pequenas, Esther Bick deixou um rico legado para a psicanálise. Destaca-se, em especial, pela sua notável invenção – o método psicanalítico de observação de bebês – que consiste na experiência de observar semanalmente bebês no seu ambiente natural, a família, desde o nascimento até os dois anos de idade. Descobriu o potencial desta experiência para a formação analítica, tanto para a expansão interna e ampliação da capacidade receptiva e continente do analista, como para aguçar a curiosidade, interesse e compreensão dos fenômenos psíquicos primitivos.

    Esther Bick nasceu em 04/07/1902, em Przemys’l, na Polônia, e faleceu em 20/07/1983, em Londres. Única filha sobrevivente de uma família judia ortodoxa, que morreu em campo de concentração, era divorciada e não teve filhos. Em 1936, mudou-se para Viena, onde completou seu doutorado sobre o desenvolvimento infantil. A insatisfação com essa experiência de pesquisa com o método experimental para acessar os bebês, levou Bick a idealizar um método enraizado na psicanálise, cujo dispositivo básico é interno, isto é, baseado na experiência do próprio observador com o mundo primitivo do bebê. Mudou-se para a Inglaterra, pouco antes do inicio da Segunda Guerra Mundial, iniciou sua primeira análise com Michael Balint e, posteriormente, analisou-se com Melanie Klein. Trabalhou durante a guerra em creches para crianças evacuadas e, em 1948, convidada por John Bowlby para organizarem o curso de formação de psicoterapeutas de crianças, na Tavistock Clinic, colocou em ação o seu método psicanalítico de observação de bebês, que passou a fazer parte do currículo desde o início. Seu trabalho revolucionou o atendimento de crianças e adolescentes, com a inclusão dos pais e despertou curiosidade e interesse em psicanalistas europeus e latinoamericanos, muitos dos quais difundiram o método standard - e suas aplicações na clínica e na pesquisa-, em seus países de origem. Mostrou-se uma professora e supervisora talentosa e criativa, ali permanecendo até 1960, quando passou a desenvolver essas funções no Instituto da Sociedade Britânica de Psicanálise.

    Embora Esther Bick tenha deixado apenas quatro trabalhos publicados, são clássicos e impressionam pela atualidade, consistência, clareza e precisão teórico-técnica. Foi através da observação de bebês e análise de crianças com patologias graves que criou a sua teoria do desenvolvimento emocional primitivo, e alguns conceitos psicanalíticos como identidade adesiva, segunda pele, bidimensionalidade, que muito tem contribuído para a compreensão de patologias graves como psicose e autismo, bem como para a prevenção e intervenção precoce.

    Poucos analistas tiveram tamanha influência com tão poucas publicações. O método por ela desenvolvido segue se difundindo pelos cinco continentes. Em setembro de 1997, foi criado, pela Tavistock Foundation, o International Journal of Infant Observation and its Applications, que segue até hoje com publicações trimestrais. Em 2012, foi criada a AIDOBB, associação internacional que organiza atividades científicas de observação de bebês. Em 2014, durante o Congresso da FEPAL, foi criada a latinoamericana ALOBB, filiada à internacional.

  • Autor: Nara Amália Caron
  • O termo fobia deriva do grego “phobos”, que significa medo, terror ou pânico. Podemos entender a fobia como um medo altamente intenso, persistente e irracional em relação a objetos ou a situações externas. Em princípio, esses medos deveriam por si só serem considerados perigosos, mas o sujeito fóbico sente perder o domínio de seu ser diante deles.

    O objeto fobígeno eleito o intimida e o ameaça, resultando um mecanismo de defesa chave da fobia, que é a evitação. Constantemente evita enfrentá-los, muitas vezes se antecipa a eles ou os repele; de outra forma, se exporia a uma angústia intensa.

    Freud percebeu que o medo e a angústia se alimentam reciprocamente, e que o objeto externo temido é, na verdade, equivocadamente interpretado como o causador da angústia e que, na verdade, essas decorrem de conflitos sexuais e agressivos inconscientes reprimidos. O objeto fóbico esconde a angústia, servindo, dessa forma, para encobri-la.

    Freud ainda descreve a vantagem de um sintoma fóbico, na medida em que é melhor defender-se evitando um perigo externo do que sentir a angústia procedente de uma fonte interior pulsional.

    Quando conflitos e pensamentos derivados da vida sexual infantil, que são considerados proibidos e que podem levar à punição retaliadora, ameaçam emergir do inconsciente, a ansiedade é ativada. Com isso,  desenvolvem-se os principais mecanismos de defesa da fobia: repressão, deslocamento, projeção e evitação.

    Freud, no início de seus estudos em Psicanálise, já se ocupava das fobias, mas foi através de um de seus casos clínicos mais famosos — “O Pequeno Hans” (1909) — que constatou e descreveu o curso e a formação de sintomas na fobia.

    Hans era um menino de cinco anos que se recusava a sair às ruas com muito medo de ser mordido por cavalos ou de que os cavalos caíssem sobre ele.

    Através dos frequentes relatos do pai de Hans, Freud constatou um conflito entre os desejos do menino e as defesas do seu ego. Desejos eróticos do menino pela mãe e a hostilidade em relação ao pai davam margem a intensos temores de ser castigado, interpretados por Freud como angústia de castração (transformados em sintomas fóbicos). Dessa forma, o cavalo substituía o pai como ameaça, e um perigo proveniente do interior foi trocado por um perigo externo.

    Os desejos de morte em relação ao pai e o temor por esses desejos foram reprimidos, já que eram inaceitáveis e inconcebíveis por conta do grande amor que Hans nutria por seu pai.

    Esse deslocamento utilizado nas fobias trouxe uma dupla vantagem: Hans podia seguir amando o pai enquanto a angústia se transformava em medo de algo que podia ser evitado no mundo externo (cavalo).

    Através desse relato clínico, Freud concluiu que o ponto de fixação das fobias encontra-se na fase fálica e que a fobia é uma tentativa de resolver angústias ligadas à castração e ao complexo edípico, discerniu o lugar do pai e da mãe dentro da criança, os principais mecanismos de defesa, e observou que o fóbico não pode contatar intimamente, mas tampouco pode se afastar do objeto temido, ele necessita manter uma distância calculada, controlando-o com o olhar.

    Segal (1977), baseando seus estudos na teoria das posições de Klein, observou que, para remover os sintomas neuróticos da fobia, é de suma importância analisar medos psicóticos anteriores de natureza esquizoparanoide ligadas à ameaça de desintegração do ego das ansiedades depressivas.

  • Autor: Eleonora Abbud Spinelli
  • Toda a formação cultural do homem ocidental e boa parte da de outros povos coloca em posição privilegiada o papel e a função da mãe, deslocando o papel e a função paterna para posições periféricas e menos importantes na formação do indivíduo.

    Brazelton o Cramer (1992) referem estudo no qual se constatou que em 4% das culturas pesquisadas havia uma relação regular e íntima entre o pai e o bebê. A não valorização do papel do pai é paradoxal, uma vez que, especialmente no ocidente, a figura do homem conquistou um lugar proeminente, a ponto de a mulher e os filhos assumirem seu nome (Howells, 1971).

    No entanto, com as transformações sociais contemporâneas, a começar pelo trabalho feminino e pela independência da mulher, tem-se descoberto que a importância do pai pode ir além de sua função de provedor e protetor da família.

    Nos primórdios da psicanálise, no final do século XIX, o pai teve uma relevância marcante no estudo da etiopatogenia das neuroses, especialmente da histeria. O pai em Freud assume diferentes papéis, mas sem dúvida é com o complexo de Édipo que assume maior preponderância.

    A primeira menção de Freud à influência do pai está numa carta a Breuer, em 1892, em que faz uma explanação de como apresentariam ao público a teoria da Histeria. Referiu-se ao retorno de uma lembrança ou de um “trauma” relacionado com um episódio proibido, caracterizado pela sedução da paciente Anna O., quando menina , por parte do pai ou de seu representante. Ambos consideraram que seus múltiplos sintomas estariam relacionados com essa situação traumática, que ao mesmo tempo evocava desejos e culpa na paciente.

    Os primórdios da função paterna datam dos primeiros homo sapiens. O pai psíquico ou na mente das pessoas, ou a função paterna de proibição do incesto na mente das pessoas, tem suas raízes já nos primeiros aglomerados humanos, antes mesmo da existência da escrita e das religiões. Mendel apud Ody (1985) situa a interiorização progressiva da imagem do pai durante o período paleolítico.

    Em “Totem e Tabu”, Freud (1913) apresenta as raízes arcaicas da proibição do incesto real. Nas sociedades primitivas, através de sua organização social em clãs totêmicas, o homem primitivo impedia o incesto de forma rigorosa. A violação concreta era energicamente castigada.

    A explicação do tabu esclarece a natureza da consciência humana que surgiu numa base de ambivalência emocional. Desta forma, um dos sentidos opostos envolvidos será inconsciente, e mantido recalcado pela dominação do outro. O que acontece no caso do neurótico, é que o desejo original de que a pessoa amada morra, e o ato parricida propriamente dito, é substituído pelo “medo de que ele morra”.

    Ao eliminar e devorar o pai primevo, os filhos adquiriam sua força. Desta forma assumiam as características do pai. Mais tarde Freud (1917, p.281) chamaria o mecanismo mental decorrente desses atos de “identificação com o objeto”.

    “Os primórdios da religião, da moral, da sociedade, da arte, convergem para o complexo de Édipo. Estes achados coincidem com as descobertas psicanalíticas de que o mesmo complexo constitui o núcleo das neuroses. Parece-me ser uma descoberta muito surpreendente que também os problemas da psicologia social se mostrem solúveis com base num único ponto concreto: a relação do homem com seu pai” (Freud,1913,p.185-186).

     

    Freud supunha que a ambivalência fosse um fenômeno fundamental, “que originalmente não fazia parte de nossa vida emocional, mas foi adquirida pela raça humana em conexão com o complexo paternal.” Freud supôs que  sentimento de culpa pelo “assassinato do pai”tenha persistido por milhares de anos e tenha continuado vigente até hoje através do sentimento de culpa do neurótico. (Freud, 1913, p.186).

    Em “Sobre o Narcisismo: uma Introdução” (Freud, 1914)7, ao lançar as bases do conceito de superego e das relações entre o ego e os objetos externos, Freud traça uma nova distinção entre “a libido do ego” e a “libido objetal”. Coloca então em relevo o papel do pai real de maneira decisiva na estruturação do superego. Chamou de “relação anaclítica” ao vínculo com os primeiros objetos sexuais do bebê, que são as pessoas que lhe dispensam os cuidados primários. Essa pessoa seria a mãe ou seus substitutos. Nessa medida, se o pai é o primeiro substituto da mãe, para ele, o pai estaria dispensando “cuidados maternais” ao filho. Winnicott em 1971, também daria a mesma denominação a esses cuidados por parte do pai.

    Em “Luto e melancolia” (Freud,1917, p.271) numa nota do editor inglês, aparece o trecho de um manuscrito endereçado a Fliess, datado de 1897, quando pela primeira vez Freud antecipa o conceito do complexo de Édipo: “ Os impulsos hostis contra os pais (o desejo de que morram) são também um constituinte das neuroses”. Esses sentimentos são reprimidos quando a compaixão pelos pais é ativa, como na doença ou na morte destes. “Em tais ocasiões, é manifestação de luto o recriminar-se pela morte deles (...) ou punir a si mesmo de uma maneira histérica” (op. cit., p.272) Esse trabalho exigiu o exame do conceito de mecanismo de identificação* como fase preliminar da escolha objetal. Seria a primeira forma pela qual o ego escolhe um objeto e deseja incorporá-lo, de acordo coma fase oral ou canibalística do desenvolvimento libidinal. A forma de realizar esse intento seria “devorá-lo”. Na revisão cuidadosa desse conceito em Freud, realizada por Pechansky (1989, p.162) está sintetizada sua evolução, demonstrando que esse mecanismo está implicado na estruturação do aparelho psíquico e que dessa forma “assumiu progressivamente um valor central nas formulações do desenvolvimento do indivíduo.”

  • Autor: Maria Lucrécia Sherer Zavaschi
  • Este termo  provêm do verbo inglês  hold e significa colocar os braços em torno de alguém ou ter algo ou alguém em seus braços. Foi utilizado por Donald Winnicott, no inicio de seus estudos para  descrever os cuidados físicos que a mãe oferece ao bebê. Considera que esta função designa o que ele entende como mãe/ambiente.  Mais adiante, este autor ampliou o significado deste termo  para descrever a atitude materna não apenas de segurar  e cuidar fisicamente do bebê mas também envolvendo a atitude de dar-lhe  uma sustentação empática, amorosa.

    O holding consiste na sustentação que a mãe oferece ao seu bebê na rotina diária de cuidados, quando esta , ao segurar  seu bebê, toca-o, aconchega-o e conversa com ele,  favorecendo a que as noções que este  têm do mundo possam ir se organizando e que seu  psiquismo  em  formação se constitua  de forma  integrada.É esta rotina que provê uma experiência de continuidade, desde o nascimento, que possibilita ao bebê apreensão de uma realidade estável , possível de ser integrada e compreendida. A própria mãe se oferece ao bebê  espelhando  o desejo do mesmo  e assim ele se conhece e se reconhece ao se apropriar das experiências nesta relação.

     Através do holding a mãe também fornece o apoio ao ego, o que é muito importante nos momentos iniciais da vida quando existe uma dependência absoluta dela.  Nesse momento de vida do bebê ainda não existe uma integração do ego e através do holding  este  tem a oportunidade de alcançar certo amadurecimento.

    Ao exercer esta função a mãe se  adapta  de forma máxima ao bebê,  se oferecendo como um “apoio egóico”  capaz de acolher o ego imaturo do bebê favorecendo um caminho para o seu crescimento e amadurecimento emocional e a emergência de um self coeso,  integrado no tempo e espaço,  mas também separado e  capaz de se relacionar com outras pessoas. Esta capacidade gera um sentimento  que Winnicott considera fundamental  que é a sensação de SER.

    Fazendo uma analogia entre o desenvolvimento psíquico e o tratamento psicanalítico, podemos dizer que durante este o analista exerce uma função de holding ao oferecer-se como um ambiente estável e seguro em que o analisando pode confiar no sentido de poder buscar uma  integração e, a partir daí,  desenvolver-se  rumo à  uma condição ser.

  • Autor: Mery Pomerancblum Wolff
  • O termo Id (Das Es, no alemão), cunhado por Groddeck e que o ligava a forças desconhecidas e indomináveis que habitam e agem no ser humano, foi utilizado por Freud ao reformular sua teoria do aparelho psíquico entre os anos 1920-1923. Em algumas traduções mais recentes é apresentado como "o isso" ao invés de id.

    O termo aparece no Ego e o Id, trabalho de 1923 de Freud que marca o estabelecimento da segunda tópica que compreende a teoria estrutural da mente. Esta considera a interação de três diferentes instâncias psíquicas, o id, ego e superego. As três constituem um sistema interdependente, influenciando-se mutuamente. E é dentro desta concepção que o id é situado. O id é inconsciente, mas não constitui o inconsciente como um todo, já que o ego e o superego passam a abranger, a partir de então, uma parte dele. O id entra em conflito com o ego e o superego, os quais, na sua origem, são diferenciações dele.

    O id é constituído pelas pulsões, que para Freud representavam algo no limite entre o somático e o psíquico (1905). Em parte, considerava tais pulsões como hereditárias e inatas, e em parte recalcadas e adquiridas.

  • Autor: Gisha Brodacz
  • Segundo Laplanche e Pontalis:  identificação é um processo psicológico pelo qual um individuo assimila um aspecto, uma propriedade, um atributo do outro e se transforma, total ou parcialmente, segundo o modelo dessa pessoa. A personalidade constitui-se e diferencia-se por uma série de identificações.

    Não é o objetivo deste verbete esgotar a riqueza e complexidade do termo. A identificação é central na teoria freudiana do desenvolvimento psicossexual do indivíduo. Não possui uma definição sistemática, assim  selecionamos alguns pontos para ilustrar a sua elaboração.

    Freud, na Interpretação dos Sonhos, mostra como através da identificação podemos  “sofrer por toda uma multidão e desempenhar sozinho todos os papeis de uma peça teatral”.  Neste mesmo texto  define: “Assim, a identificação não constitui uma mera imitação, mas uma assimilação à base  de uma pretensão ideológica semelhante; ela exprime um “tudo como se” e tem sua origem em algo comum que persiste no inconsciente”. 

    Em Totem e Tabu, associou a identificação à fase oral ou canibalística do desenvolvimento da espécie  ao se referir à  relação dos filhos com o pai morto da horda primitiva, que “no ato de devorá-lo realizam sua identificação com ele”.  Em nota de 1915 acrescida aos Três Ensaios, Freud descreve o precursor do mecanismo psíquico da identificação como “incorporação oral”.

    A  identificação, em Luto e Melancolia,  mostra a historia dos vínculos libidinais que são estabelecidos  entre o Eu e o Outro.  A perda de um objeto narcisisticamente investido ocasiona “uma identificação do Eu com o objeto abandonado”.   Essa identificação, denominada “ narcísica”,  é total, a libido colocada no objeto perdido retorna ao Eu. Ela  difere do modelo  descrito na Interpretação dos Sonhos, denominado identificação histérica,  que é parcial.

    O capitulo VII de Psicologia de Grupo e a Análise do Eu descreve três modalidades de identificação. Primeiro,  constituindo  uma forma de vínculo emocional com o objeto pré-edípico (identificação primária).  Segundo, ligada ao complexo de Édipo,   substituindo um vinculo libidinal através  da introjeção do objeto no Eu. Terceiro, uma  percepção de qualidade comum com outra pessoa que não é objeto das pulsões sexuais. Essa ultima acompanha a noção de Ideal do Eu.

    Em O Eu e o Id , o Supra-Eu aparece como resultado da transformação em identificação das primeiras ligações da criança com os pais.   O  processo pelo qual um investimento objetal é substituído por uma identificação é central na constituição do psiquismo, constituindo a base do que Freud descreve como “caráter” de uma pessoa. O desinvestimento dos primeiros objetos amorosos  derivadas do complexo de Édipo  formam o núcleo do Supra-Eu. O  Eu se forma a partir de identificações que possuem investimentos amorosos abandonados pelo Id.

    Na XXXI das Novas conferencias introdutórias, Freud abre o campo para pesquisa Transgeracional.  “Via de regra, os pais e as autoridades análogas a eles seguem os preceitos de seu próprio Supra-Eu ao educar as crianças. Assim,  o Supra-Eu das crianças é construído segundo o modelo não de seus pais, mas do Supra-Eu de seus pais. (....) A humanidade nunca vive inteiramente o presente. O passado, a tradição da raça e do povo, vive nas ideologias do Supra-Eu e só lentamente cede às influencias do presente, no sentido de novas modificações.” Conclui: “Eu próprio não estou satisfeito, em absoluto, com esses desenvolvimentos a respeito da identificação”.

  • Autor: Angela Fleck Wirth
  • A identificação projetiva é um mecanismo de defesa, que foi introduzido no pensamento psicanalítico em 1946 por Melanie Klein. Trata-se de um mecanismo que esta muito vinculado as fases do desenvolvimento psicossexual do bebê. Fases estas as quais Melanie Klein deu o nome de posições (depressiva e esquizo-paranóide). O mecanismo de defesa identificação projetiva estaria intimamente vinculado à posição esquizo-paranóide. Este mecanismo caracteriza-se pelo indivíduo expulsar de si e localizar no outro, pessoa ou coisa, qualidades, sentimentos e desejos que recusa. Na identificação projetiva o indivíduo dissocia partes do ego e dos objetos internos que são projetados no objeto externo, o qual então se torna possuído e controlado pelas partes projetadas, identificando-se com elas. A identificação projetiva teria múltiplos objetivos tais como: excindir e se livrar de partes indesejáveis do self que causam ansiedade ou dor; o de projetar o self ou partes do self para dentro do objeto (sujeito), para dominá-lo e controlá-lo, evitando qualquer sentimento de separação; o de penetrar num objeto para apoderar-se e apropriar-se de suas capacidades; o de invadir, a fim de danificar ou destruir o objeto. Através da utilização de tal mecanismo de defesa a criança ou o adulto estaria evitando qualquer percepção de separação, dependência, admiração ou suas concomitantes sensações de perda, raiva e inveja. Por outro lado sofre com ansiedades do tipo persecutório.

  • Autor: Jair Rodrigues Escobar
  • A ideia de um funcionamento mental inconsciente é central em todas as teorias psicanalíticas, tanto dos processos normais quanto dos patológicos.  A hipótese básica foi formulada  por Freud, na virada para o século XX,  a partir de sua educação científica e filosófica e inclui a visão de que uma grande parte do aparelho mental (organização relativamente estável no indivíduo) funciona fora da área da experiência consciente.

    Comparando inicialmente o funcionamento do aparelho mental com o conhecido arco reflexo da neuro-fisiologia, Freud lançou as bases sobre a relação entre três sistemas que comporiam a mente – o Inconsciente, o Pré-Consciente e o Consciente, que ficou conhecido como a teoria topográfica. 

    O Inconsciente e o Pré-Consciente são considerados sistemas que ocupam regiões mais amplas na mente, sendo que a consciência representa um sistema especial e que compreende todos os pensamentos acessíveis num dado momento. Segue-se o Pré-consciente, que seria uma espécie de ante-câmara da consciência, sendo que, seja sob circunstâncias apropriadas ou por esforço da vontade em evocar, ingressam na mesma. 

    O Inconsciente é formado pelo conjunto de fenômenos que ficam  impedidos de ingressar na consciência.  É constutuidio de uma energia – uma quantidade de impulsos  primordiais e instintivos – que se manifesta constantemente e exerce pressão para dar vazão e encontrar certo alívio ou satisfação.  Para que essa energia permaneça inconsciente, ela deve passar por um ato de censura ou recalque. Para saber contra quais tendências a censura é dirigida, Freud respondeu que se tratam das tendências consideradas repreensíveis e indecentes de um ponto de vista moral, social e estético, obedecendo apenas às exigências das pulsões sexuais e agressivas.

    Representações indesejáveis na entrada entre os dois sistemas Inconsciente-Pré-consciente sofrem o recalque, ou seja, um contra-investimento, pelo qual, o sistema Pré-Consciente se protege dos impulsos da representação inconsciente.

    Já podemos vislumbrar aqui um novo ponto de vista – o econômico - para além do topográfico, no qual o recalque  explica-se também por meio de uma combinação sutil de desinvestimentos, reinvestimentos e contra-investimentos referentes às representações (imagens, ideias) do impulso .Finalmente, o ponto de vista dinâmico, palco privilegiado do processo analítico, nos remeterá a buscar os motivos do recalque.

    O sistema inconsciente possui uma coesão que lhe é própria. Nele, só existem conteúdos fortemente investidos e para os quais não há nem negação, nem  dúvida, nem temporalidade, sendo sua   marca específica,  o que Freud chamou de processo primário, isto é, uma extrema mobilidade de intensidades de investimento, ou o que se chama de energia livre. Suas principais características são: deslocamento e condensação.

    No trabalho do sonho, por exemplo, temos que um elemento altamente investido é substituído (deslocado) por outro, mais fracamente investido, de modo que o sonho receba outro centro e pareça estranho. A condensação, por sua vez, faz de uma só representação, o representante de numerosas séries de associações entrecruzadas.

    Nos desenvolvimentos psicanalíticos posteriores a Freud, importantes autores foram complementando, ampliando e até construindo novas visões sobre o Inconsciente, tais como, Klein, Bion, Winnicott, Lacan, Laplanche, Green, Matte-Blanco, dentre outros, mostrando o vigor de se seguir pensando neste conceito que é lapidar para a psicanálise.

  • Autor: Regina Orgler sordi
  • Os primeiros estudos sobre a questão da intersubjetividade foram realizados por Willy e Madeleine Baranger, na década de 1960. Para chegar à formulação do conceito de campo analítico, estes autores buscaram inspiração na psicologia da Gestalt, na obra de Merleau-Ponty e, principalmente, no conceito de identificação projetiva criado por Melanie Klein. A identificação projetiva é um meio primitivo de comunicação inconsciente, não verbal, que também funciona como um  recurso para tentar 'livrar' o indivíduo do contato com seus conflitos internos. Através deste expediente, é possível mobilizar na mente de outra pessoa um determinado estado mental conflitivo com o qual temos dificuldade de lidar, e do qual desejamos nos livrar por gerar sofrimento psíquico.

    O casal Baranger ampliou a concepção de Klein, ressaltando que a identificação projetiva não é apenas um fenômeno intrapsíquico, de caráter individual, mas um  acontecimento interpessoal. Em uma sessão de análise, haveria um interjogo de identificações projetivas que geraria um campo dinâmico, onde as experiências emocionais compartilhadas pela dupla dariam origem a uma fantasia inconsciente própria daquela díade. Assim, competiria ao analista não só observar o que se passa na mente de seu analisando, visando compreendê-lo, mas também auto-observar-se, procurando entender a fantasia inconsciente criada pela díade. O olhar do analista intersubjetivista não se dirige apenas à subjetividade do mundo interno do analisando, mas ao construto intersubjetivo surgido no campo bipessoal da sessão analítica. A postura dos intersubjetivistas é a de se deixarem capturar, em parte, pelas vivências infantis que o analisando reedita no campo analítico e, a partir da elaboração desta vivência, transformá-la em uma interpretação capaz de dar um significado à fantasia do campo.

    A título de ilustração, os Baranger apresentam, em um de seus trabalhos, o caso de um analisando que, na sua primeira sessão, apresenta-se confuso. Ele começa a sessão contando que sua noiva havia rompido com ele e que, logo em seguida, ele 'entrara em surto psicótico'. Na saída da sessão, ao tentar pegar um cigarro, o paciente deixa cair no consultório vários objetos que tinha no bolso. Terminado o trabalho daquele dia, o analista recebe um chamado telefônico de um amigo do analisando, alertando-o que o paciente estaria muito mal, desnorteado, confuso. A partir daí, o analista pôde perceber que este também era o seu estado mental frente aquele analisando: ficara desorientado, paralisado diante do ocorrido, sem saber o que dizer ao paciente.

    Na sessão seguinte, o analista, agora compreendendo o amigo como porta voz  do próprio analisando, pôde interpretar este conteúdo para ele. A partir desta intervenção, seguiu-se uma sessão mais coerente: o paciente pôde ter um insight sobre o que estava se passando, mostrando-se mais integrado.

    Segundo os Baranger, na primeira sessão relatada, o analista sentiu-se invadido pelo estado confusional do analisando, como se este tivesse esparramado no campo –  via identificação projetiva – objetos soltos e vivências desconexas do seu mundo interno; ele 'inundara' o consultório com suas primitivas ansiedades. Esta vivência é que teria paralisado o analista. Criara-se, assim, uma fantasia inconsciente psicótica no campo bipessoal daquela sessão. Na sessão seguinte, ao compreender a chamada telefônica do amigo, o analista resgatou a capacidade de pensar – através de uma 'segunda mirada' sobre o campo – devolvendo ao analisando a parte sadia que ele havia projetado em um lugar seguro (o amigo).

  • Autor: Antonio Carlos J. Pires
  • Intuição, conforme o dicionário Houaiss (2007), é a faculdade de perceber, discernir ou pressentir coisas, independente de raciocínio ou de análise. Essa função básica, que influi diretamente na qualidade das relações sociais e afetivas, também está presente na prática analítica, pois toda a análise é um processo de natureza vincular e íntima entre duas pessoas. A intuição é um recurso que permite ao psicanalista captar algo que está além das impressões sensitivas.

    O uso cada vez mais difundido da intuição – como elemento técnico – para o psicanalista acessar o inconsciente de seu paciente, nos remete para o vínculo inicial mãe-bebê, e este pode nos fornecer uma dimensão mais profunda sobre a importância do seu uso. As mães, de uma maneira geral, possuem uma capacidade inata de intuir e discernir o que se passa com o estado mental de seus bebês antes mesmo que eles tenham consciência disso.

    Por exemplo, o bebê, ao ser alimentado, só se dará conta da qualidade psíquica que este ato envolve se puder transformar a sua ação em uma experiência emocional. Para que esta passagem – do ato à sua representação – possa efetuar-se, torna-se necessário a presença de uma mãe disponível, com uma função de continência. Uma mãe empática permite reconhecer, ou “adivinhar”, a natureza dos sentimentos e das emoções que estão sendo vivenciadas na relação com seu filho e, por consequência, “intuir” o que se passa na sua mente. Essa capacidade intuitiva vai atenuar ou intensificar certas ações que darão um adequado bem-estar ao próprio bebê, bem como ao ambiente em que se encontra esta dupla. Assim sendo, ao responder de modo adequado, usando a sua intuição, a mãe auxilia o bebê a descobrir o que está acontecendo consigo e quais são suas necessidades.

    Uma mente primitiva, como a de um bebê, que já tem, desde o início, um ambiente favorável, vai poder vivenciar a silenciosa satisfação de ser contido e entendido. Estas vivências lhe darão qualidades psíquicas que servirão de modelo e permitirão a possibilidade de ampliá-las ao longo de outras relações, sociais e afetivas, favorecendo vínculos profundos e sustentáveis.

    É nesta direção que encaminhamos o entendimento do que se passa na relação entre o psicanalista e seu analisando. Há uma ligação protegida por um enquadre técnico e conhecimentos teórico/práticos, mas o que permite uma experiência emocional profunda tem a ver com a capacidade intuitiva do analista. O uso dessa função natural possibilita o aprofundamento da relação, deixando a mente livre para o simbólico e a criatividade. O vir-a-ser  do conhecimento e da expansão da mente, então, poderá acontecer naturalmente.

     

  • Autor: Heloisa cunha Tonetto
  • E Lacan...quem foi Jacques Lacan?

    Badiou define Jacques Lacan como um pensador, considerado uma  figura maior da cena intelectual de seu tempo, além de psicanalista.

    Imagine-se agora, circulando em um ambiente intelectual em que Michel Foucault publicava As palavras e as coisas... em meio à revolução estruturalista iniciada por Lévi-Strauss e seguida por Althusser, que  atingia em cheio a Linguística, possibilitando o surgimento da linguística estrutural, criada por Saussure, seguido por Jakobson... Ao mesmo tempo em que a pedagogia desenvolvia estudos revolucionários com Piaget, Vigotsky e Wallon; este último realizando observações importantes sobre a descoberta feita pelas crianças de sua imagem no espelho. Agregue a tudo isso o movimento surrealista, com nomes como Breton e Maiakovski, na literatura; Salvador Dali, na pintura... uma verdadeira revolução! O movimento surrealista foi uma forma de descentrar o sujeito cartesiano. Aparece assim um outro sujeito: o da linguagem. A própria linguagem fica objetivada como uma forma de ser, a exemplo da escrita automática utilizada pelo movimento de Breton. Pois Lacan era muito próximo a tudo isso. Aproximou a Psicanálise e o Surrealismo, ao contrário do que fizeram os psicanalistas da primeira geração.  Participava de um grupo de estudos coordenado por Kojève, do qual fazia parte Breton, entre outros pensadores da época. Estudavam Hegel, que marcou sobremaneira a elaboração teórica de Lacan, principalmente no que se refere à questão da dialética do senhor e do escravo, porque deu fundamento ao estadio do espelho, criado por ele, como o primeiro tempo do complexo de Édipo. Tal descoberta propicia a necessária abertura para seu conceito do registro imaginário, que junto aos dois outros registros, o simbólico e o real, definem uma nova configuração metapsicológica para a psicanálise. Este homem, o homem Lacan, assim como Freud,  buscou na cultura as bases de seus inventos psicanalíticos. Publicou Os escrito em 1966, na França do apogeu intelectual. .

    Foi igualmente reconhecido na Psicanálise como um pensador. Apesar de todas as controvérsias que envolveram seu nome, provocou transformações em sua geração de analistas, assim como em gerações que se seguiram. Firmou-se, indiscutivelmente, como um teórico consistente de idéias inovadoras, que revisita Freud e a partir daí, cria sua própria obra, a qual na verdade leva até às últimas consequências os aportes freudianos. Talvez possa ser considerado como um dos mais fiéis seguidores de Freud, porém,  sem abrir mão de seu pensamento próprio.

    A importância da Psicanálise francesa antes e depois de Lacan marca o valor de sua contribuição. Mesmo psicanalistas que relutam em reconhecer o significado de Lacan para a Psicanálise, utilizam em suas teorias contribuições aportadas por ele, como o conceito de significante, oriundo da linguística, além de outros.

    E Lacan, psicanalista, como se coloca? Embora sendo um teórico notável, em momento algum, abriu mão do psicanalista. Exercia a função Psicanalítica levando a linguagem como o seu divisor de águas entre o saber e a verdade. A verdade do inconsciente para ele está ali onde a linguagem comete o equívoco, onde ocorre o tropeço e onde o furo do saber aparece. Ali está o sujeito do inconsciente. Para ele, portanto, o sujeito está no coração da experiência analítica e, uma vez, submetido à cadeia significante, sempre será dividido e exposto a uma radical alteridade, encontrada no discurso do Outro.

    Sua propriedade clínica neste ponto de vista é indiscutível. Entretanto, esta ética para com a verdade do inconsciente não  assegurou a Lacan o aplauso da comunidade psi, pelos rompimentos que propôs na técnica, através da utilização do tempo lógico. Foram muitos os protestos e rechaços que sofreu em função de sua técnica. Mesmo assim, os depoimentos de seus pacientes colhidos a posteriori são unânimes ao falar de sua delicadeza e cuidado para com eles, ao lado de um profundo rigor com a verdade, verdade no sentido psicanalítico, verdade do inconsciente.

    Este foi Jacques Lacan: um pensador que, conseguiu aproveitar idéias dos movimentos  mais revolucionários de seu tempo, para recriar a Psicanálise

  • Autor: Maria Elisabeth Cimenti
  • O luto é uma reação de afeto à perda de um ente querido, de alguém que se ama ou de algo que nos é considerado muito valioso. A perda implica em um processo de sofrimento e dor. Ao nos envolvermos afetivamente investimos energia, vitalidade, fazemos planos, projetos e acabamos nos ligando de modo a não imaginarmos nossa vida sem a presença real do que passa a ser tão importante para nós. Quando a morte nos pega de surpresa, nos deparamos de repente com um vazio enorme. Um espaço imposto sem que tenhamos tempo para nos prepararmos para tal perda. Onde antes havia algo ou alguém querido com que compartilhávamos nossa vida, de uma hora para outra, já nada existe.

    A tristeza que é sentida faz parte do processo de luto. O mundo se torna desinteressante, pobre, vazio, parece que nada mais importa, pois o sofrimento se impõe e a falta se faz presente. Apesar desses sentimentos, no luto normal a autoestima de quem perdeu alguém ou algo importante encontra-se preservada. Essa dor  pode ser superada pela pessoa usando seus próprios recursos emocionais, mas o auxilio e presença de familiares e amigos é muito importante na superação da falta do objeto perdido.

    Considerado dessa forma, imagina-se que após um período de tempo, o luto como um processo normal frente as perdas reais da vida é superado.

    No processo de luto normal aos poucos a realidade se impõe e a pessoa vai retomando a sua vida, investindo seu afeto em novos objetos, em novas perspectivas, buscando melhores qualidades de vida.

    A medida que o tempo vai passando, vai aprendendo a viver com a ausência do objeto perdido, irreversibilidade da morte, o lamento da perda, a dor e seu enfrentamento, a necessidade de romper os laços, reorganizar e prosseguir a vida. As perdas trazem consigo vivências de sofrimento mas também oportunidade de amadurecimento e mudança.

    Mas, quando a tristeza é excessiva e a pessoa não consegue se desapegar,  se mantendo em estado de eterno sofrimento com queixas recorrentes, sejam elas psicossomáticas, choros, isolamentos, medos, uso abusivo de substâncias, álcool, estados melancólicos ou eufóricos, é momento de buscar ajuda especializada.

    A possibilidade de falar a respeito do sofrimento e dos sentimentos experimentados frente à morte auxilia no alívio das angústias. Muitas vezes são vivências muito perturbadoras que trazem em sua origem lembranças de pesar de outros momentos da vida da pessoa. Nesse momento de dor podem ser reeditadas situações não compreendidas e não resolvidas que agora se fazem presentes. O importante é estar atento a evolução do processo de luto e reconhecer quando for necessário buscar ajuda para que essa dor não se transforme em um quadro com complicações mais graves.

    Em Psicanálise encontramos um trabalho muito interessante escrito por Freud intitulado “Luto e Melancolia” (1917[1915]) que procura justamente diferenciar o processo do luto normal do estado de melancolia, onde não há necessariamente a perda real de um objeto.

  • Autor: Maria Regina Limeira Ortiz
  • Freud e Abraham, assim como outros autores psicanalíticos, discorreram extensamente sobre o tema da melancolia.

    A ênfase deste texto recairá, predominantemente, sobre o vértice metapsicológico abordado pelos dois autores citados.

    Ambos referem-se à ligação entre melancolia e as fases mais primitivas do desenvolvimento emocional. Freud pontua ainda a importância do narcisismo e da instância psíquica que veio a denominar de superego para compreensão desta patologia.

    Partem da correlação entre luto e melancolia para melhor entendermos o que se passa nesta última. Enquanto que no luto observa-se uma reação a alguma perda real que, espera-se, seja superada após certo período de tempo, na melancolia, geralmente, o que se encontra é uma reação a uma perda de natureza mais relacionada a um ideal e não a uma perda real. O objeto não necessariamente morreu, mas foi perdido, enquanto objeto de amor, por um desapontamento, ou por algo sentido fortemente como desconsideração, desferido por este objeto de amor.

    Enquanto no luto o mundo externo se torna pobre e vazio, na melancolia é o próprio ego que se empobrece: o sujeito é acometido por um estado de ânimo profundamente doloroso, por uma suspensão do interesse pelo mundo externo, inibição geral e, sobretudo, por uma significativa diminuição da autoestima, revelada, na maioria das vezes, por insultos desferidos contra si mesmo, rebaixando-se perante outros, parecendo ter alguma satisfação em expor-se deste modo.

    O desapontamento sofrido com o objeto de amor causa um importante "abalo" psíquico no sujeito. A consequência não é, como se esperaria em um processo rumo à resolução, a retirada de libido deste objeto e o deslocamento da mesma para outro objeto. Na melancolia a libido é deslocada para o próprio ego. Esta libido passa a ser usada para produzir uma identificação do ego com o objeto perdido; "a sombra do objeto recai sobre o ego". A partir de então, o ego passa a ser tomado e julgado pelo superego como se fosse um objeto: o objeto que fora perdido.

    Deste modo, o conflito que fora entre o ego e a pessoa amada - que desapontou - transforma-se em um conflito entre o superego e o ego, agora modificado pela identificação, onde o primeiro ressalta seu desagrado moral com o ego.

    A identificação narcísica com o objeto torna-se um substituto do investimento libidinal anteriormente depositado no objeto. E por que teria sido este o destino da libido?

    Freud e Abraham atribuem, em grande parte, à forte ambivalência previamente existente, bem como a uma fraca aderência do investimento libidinal no objeto.

    Deste modo, pode-se entender melhor que as auto recriminações do melancólico são, na verdade, recriminações dirigidas ao objeto amado perdido; as quais foram retiradas do objeto e desviadas para o próprio ego.

  • Autor: Katia Wagner Radke
  • Em um mito de tradição grega, Narciso, filho de um deus rio e de uma ninfa, apaixona-se pela própria imagem, morrendo em função disto. A repercussão deste tema no imaginário ocidental faz pensar que assinale um aspecto essencial da vida humana, o “amor a si mesmo”.

    O termo derivado, ‘narcisismo’, foi utilizado por outros profissionais da saúde mental antes de Freud, em geral em relação à psicopatolgia da sexualidade humana. Foi utilizado por este autor pela primeira vez em 1910, para descrever um tipo de escolha objetal feita por homossexuais, que denominava “invertidos”, orientada pela busca de características próprias no parceiro. Freud considerou esta como uma maneira de “escolher a si mesmo como objeto sexual”. Seu trabalho sobre Leonardo da Vinci (1910) ilustra esta concepção.

    A obra do fundador da psicanálise caracteriza-se por um constante questionar e fazer evoluir os conceitos teóricos a partir da prática clínica, o que torna ao mesmo tempo fascinante e difícil seu estudo. Um dos conceitos em que isto mais se evidencia é no de narcisismo, como o próprio Freud teria afirmado em uma carta a Abraham, segundo Jones (1979): “o narcisismo teve um parto difícil e traz todas as marcas da deformação correspondente”. Assim, a princípio aparecendo como um tipo de escolha de objeto, pouco depois é descrito como um estágio do desenvolvimento psicosexual normal da criança, intermediário entre o do auto-erotismo e aquele mais evoluído, do amor ao objeto reconhecido como um ‘outro’, separado do self.

    É no artigo especifico sobre o tema, “Sobre o narcisismo: uma introdução”, de 1914, que passa a considerar narcisismo um conceito essencial no desenvolvimento sexual do ser humano, como fenômeno libidinal. Neste artigo, inspirado no estudo das psicoses, Freud descreve narcisismo primário e secundário. No primário, possível pela crença na onipotência do pensamento, o objeto de amor “escolhido” seria a própria pessoa e o mundo percebido como girando em torno de si mesmo. O narcisismo secundário seria a atitude resultante do retorno ao eu de investimento feito nos objetos do mundo externo. Seria secundário pela necessidade de ter acontecido um investimento da libido do eu em objetos do mundo externo e só então um retorno desta ao eu. Seriam momentos do desenvolvimento normal com risco de tornar-se patológicos, especialmente frente a situações traumáticas, podendo vir a constituir patologias estabelecidas.

    Vários autores estudam e discutem esta complexa concepção. Melanie Klein e seus seguidores, por exemplo, não admitem a existência de um estado “anobjetal”, que seria uma das características do narcisismo primário. Falam, então, em “estados narcísicos”, opondo-se à noção freudiana de uma “fase” sem relações de objeto.

    Outros autores, à luz dessas evoluções, e reconhecendo o narcisismo como aspecto inerente do desenvolvimento, estudam o fenômeno desde outros pontos de vista (“narcisismo libidinal e destrutivo”, para Rosenfeld, “narcisismo de vida e de morte”, em Green, para citar alguns).

    Freud concebia as “patologias narcisistas”  como inabordáveis ao método analítico. Pela impossibilidade de investimento objetal, tais pacientes seriam incapazes de estabelecer uma relação transferencial, ficando impedido o tratamento psicanalítico. A evolução da teoria e da técnica têm modificado esta noção, e ampliado o alcance do método com resultados já reconhecidos.

    O conceito de narcisismo, alvo de divergências teóricas importantes, tornou-se mais abrangente, estudado de vértices diferentes, mas segue aspecto essencial na busca de entendimento da constituição da psique humana.

     

     

     

     

  • Autor: Eneida Iankilevich
  • O conceito de neurose aponta para algum tipo de sofrimento mental ou emocional, de leve a moderado, que pode ter diferentes expressões sintomáticas, tais como ansiedade, depressão, inquietude, irritabilidade, insegurança, medo, etc. Em adição, neurótico designa um tipo de pensamento, comportamento ou percepção, cuja apreensão da realidade se dá com uma leve deformação.
    Estas são as características essenciais da neurose, que também ajudam para distinguir a neurose da psicose (loucura), já que nesta última o transtorno é grave e a deformação grosseira, maciça da realidade.
    A palavra neurose resulta do grego neuron (nervo) + osis (doença), isto é, doença nervosa ou doença dos nervos.
    O termo neurose foi cunhado pelo médico escocês William Cullen, ao descrever afecções nervosas, porém foi Freud quem lhe deu nova e revolucionária explicação e tratamento, por meio da sua recém-criada Psicanálise.
    Com base na observação clínica, ao tratar pacientes neuróticos, Freud foi descobrindo distintos fatores que causavam as neuroses, revolucionando a comunidade científica da época, dado o ineditismo de suas teorias e a natureza essencialmente psíquica das mesmas.
    Para ele, as neuroses são constituídas por três fatores intervenientes, formadores de séries complementares, que dispõem esses fatores, segundo a sua maior ou menor participação no resultado final da doença. Por exemplo: quanto maior for o trauma, menor será a pré-disposição e vice-versa:

    1) Pré-condição ou Disposição: Corresponde a constituição do indivíduo, na qual a hereditariedade joga papel fundamental;
    2) Causas Concorrentes ou Auxiliares: São todos os agentes banais ou circunstanciais, que funcionam como verdadeiros agentes desencadeadores de uma neurose, que permanecia oculta. São exemplos dessas causas: perturbações emocionais ocasionais, esgotamento físico, intoxicações, acidentes traumáticos, sobrecarga intelectual, etc.
    3) Causas Específicas: Cada neurose tem uma causa especial, sendo a causa comum a vida pulsional do sujeito, quer por um distúrbio sexual e/ou agressivo contemporâneo, quer por fatos de sua vida passada.

    Freud percebeu que esses fatos sexuais (e/ ou agressivos) referiam-se tanto a abusos sutis quanto grosseiros, assim como a seduções menos rápidas ou repulsivas ou mesmo a meras fantasias sexuais (e/ou agressivas), os quais – uma vez despertadas na tenra infância – tinham que ser reprimidas por serem consideradas completamente inadequadas.
    Com a chegada da puberdade, qualquer fato novo – daí em diante - poderia ter o poder de despertar a lembrança reprimida, ocasião em que o efeito desta última supera o do próprio evento atual, causando a neurose.  
    O tratamento analítico tem por objetivo rastrear a personalidade do paciente na busca dos conflitos inconscientes (reprimidos) que, uma vez não resolvidos, causaram os sintomas do paciente. Seu método inclui a análise da relação analista-paciente, dos sonhos e demais atos e fantasias inconscientes surgidas nas sessões.
    Esse conjunto de medidas, aliadas a continuidade das sessões, é o que permite o profundo conhecimento da personalidade e sua resolução.

     

  • Autor: Luiz Carlos Mabilde
  • A neurose obsessiva foi um dos primeiros quadros clínicos descritos por Freud, logo após a histeria e, a partir da observação dos sintomas obsessivos  pode estudar vários aspectos do funcionamento psíquico. Um de seus conhecidos casos clínicos, O Homem dos ratos, trata justamente deste tema.

    A neurose obsessiva é  definida a partir da presença de determinados sintomas: distúrbios do pensamento, com ideias obsessivas, repetitivas, sentidas como corpos estranhos, que provocam sofrimento; e atos compulsivos (rituais como lavar as mãos repetidamente), sobre os quais a pessoa não tem controle e que procuram combater as ideias obsessivas. Estas ideias  corresponderiam a desejos/sentimentos inconscientes, não admitidos pela consciência mas que conseguem vencer a barreira da censura.

    Estes sintomas são resultados de determinados mecanismos de defesa que o ego do indivíduo utiliza para fazer frente às ansiedades despertadas pelo conflito entre os desejos e o que a realidade impõe de restrições à sua satisfação. Os principais mecanismos defensivos utilizados são: isolamento (manter o afeto separado da ideia correspondente), racionalização (outra forma de manter os afetos afastados, procurando explicações intelectualizadas para tudo), anulação (crença mágica de que um determinado pensamento ou ato pode desfazer outro pensamento: p. ex. se lavo as mãos, “limpo pensamentos sujos”), formação reativa (transformar um sentimento no seu oposto, de forma exagerada: p. ex. pedir desculpas a todo  momento). Para Freud, corresponderiam a uma fixação na etapa anal do desenvolvimento da sexualidade infantil, onde as questões em torno do controle esfincteriano (como limpeza, autonomia, controle) estão num plano de destaque.

    Como o próprio Freud se deu conta, estes mecanismos não eram  utilizados exclusivamente por pacientes com um quadro sintomático de neurose obsessiva, mas faziam parte do repertório de defesas de todos indivíduos, responsável, inclusive, por características importantes no funcionamento psíquico. Ordem, meticulosidade, persistência, estão entre estas características que, desde que não presentes de forma excessiva, são responsáveis pela capacidade de manter alguma disciplina, respeito e padrões éticos.

    Os desenvolvimentos do pensamento psicanalítico cada vez mais levaram ao estudo da estrutura obsessiva, mais do que focar somente nos sintomas, estudando os traços de caráter obsessivos , que determinam uma forma geral de funcionamento destes indivíduos.

    Assim, a ideia é reservar o termo neurose obsessiva para aqueles quadros onde os sintomas obsessivo-compulsivos estão presentes de forma marcante, trazendo sofrimento e limitações importantes.

  • Autor: Viviane Sprinz Mondrzak
  • O termo objeto é utilizado em psicanálise enquanto conceito ligado a uma relação de um sujeito com um outro, sendo que este outro recebe a designação de objeto.

    Freud, ao pensar o indivíduo, o vê como alguém dotado de um corpo biológico que possui necessidades, sendo que estas, principalmente no início da vida, apenas podem ser atendidas através de uma ajuda alheia. Devido ao desamparo inicial, a presença de um outro, semelhante, é absolutamente necessária.

    Na medida em que este semelhante, objeto externo, atende aos estímulos internos (pulsões), marcas mnêmicas vão se inscrevendo. Assim, o conceito de objeto está diretamente ligado ao de pulsões porque somente ele, no início da vida, é capaz de satisfazer as necessidades pulsionais, de ordem conservativa e sexual.

    Gradualmente, a partir dos ritmos e das repetições de experiências nos intercâmbios com o objeto externo, este vai sendo construído dentro do sujeito. Falamos então em objeto interno, outro conceito caro à psicanálise. Representações de objeto criam-se dentro do indivíduo a partir do enlace das pulsões com o objeto.

    Tanto a presença do objeto quanto a ausência são importantes na constituição do indivíduo. A presença se faz necessária para que marcas mnêmicas da relação com o mesmo se inscrevam. No entanto, a ausência também é fundamental para que se constitua um espaço de ausência, no qual se criam representações do objeto. Porém, esta ausência será estruturante na medida em que não ultrapassar certo limiar. Desta maneira as funções do objeto são interiorizadas e a capacidade de pensar se desenvolve.

    Sendo assim, é num movimento dialético de presença/ausência do objeto que o indivíduo vai se constituindo. Sempre presente o objeto não possibilita o espaço de ausência necessário para a construção da estrutura psíquica. Num bom ritmo, se a mãe atende as necessidades de seu filho, gradualmente este poderá constituir-se enquanto sujeito separado, diferenciado do outro. A separação é tolerada na medida em que foi possível identificar-se com o investimento libidinal materno. Presença amorosa, cuidados, estímulo, segurança e proteção proporcionam à criança a sensação de ser amada, fundamental para sua auto-estima.

    No entanto, a presença de um objeto apenas não basta na vida de uma criança para um desenvolvimento saudável. A entrada de um terceiro objeto entre uma mãe e seu filho é fundamental. Também por isso o espaço de ausência tem valor estruturante, pois é ele que possibilita a entrada do objeto paterno. Mesmo antes deste ser percebido como um terceiro, ele exerce seus efeitos através da mediação do psiquismo materno, na medida em que esta pode articular um laço indireto entre a criança e o pai, através de seu desejo pelo mesmo.

    Portanto, é da interiorização da relação da criança com os seus objetos que estruturas psíquicas (Ego e Superego) vão se formando para compor o psiquismo do sujeito.

     

  • Autor: Marli Bergel
  • O aparecimento do Objeto Transicional, conceito criado e desenvolvido pelo psicanalista Donald Winnicott, está relacionado aos ritmos e tempos do vínculo mãe-bebê e representa um momento evolutivo estruturante. Para Winnicott, um bebê não é uma entidade autônoma e só poderá ser compreendido/amparado pela mãe e o ambiente que o rodeia.

    Quando o ambiente numa comunicação profunda e sutil com o bebê, fornece plenamente o atendimento às necessidades deste, condição de Dependência Absoluta, o bebê vive a experiência ilusória de que criou um objeto adequado às suas necessidades. Para o bebê, os objetos advêm diretamente de suas necessidades, como se delas fossem criados e para os observadores há uma divergência entre o que foi criado e o que foi oferecido, mas a mãe-ambiente, por sua adaptação extremamente devotada às necessidades do bebê (mãe suficientemente boa), permite que ele tenha uma breve experiência de onipotência e ilusão - aquilo que ele cria existe realmente. A criança cria o seio, ele deve estar lá onde foi criado e onipotentemente a criança- é -o -seio. Por conseguinte, ainda não é capaz de reconhecer os limites do eu e não-eu, mundo interno e externo, subjetivo e objetivo, dentro e fora, percebido e criado.

    Mais adiante, a mãe vai gradativamente retirando os cuidados quase que perfeitos, desiludindo seu bebê, condição de Dependência Relativa, a onipotência vai sendo dissolvida, a ilusão ainda não destruída e os objetos são vividos paradoxalmente como percebidos e criados ao mesmo tempo.

    A criança inicia a transicionalidade, ou seja, ingressa no espaço transicional/potencial, assim chamado, por fazer parte do processo maturacional ligado à transição da dependência absoluta para a dependência relativa. Trata-se de uma área intermediária entre o subjetivo e o que é percebido objetivamente, onde a criança elege um objeto ao qual parece estar particularmente aderida: o Objeto Transicional.

    A experiência de ilusão-desilusão levará à constituição do Objeto Transicional, cuja importância maior está no uso que a criança faz dele. O objeto transicional permite que o processo de transição/ separação seja tolerado, possibilitando ao bebê lidar com o vazio e suportar a presença de uma ausência.

    Habitualmente é algo que a mãe coloca à disposição do bebê; travesseirinho, ponta do edredom, chupeta, ursinho de pelúcia, etc. É a primeira posse não-eu, o primeiro modo de relação com algo não-eu, achado e criado simultaneamente, cujo paradoxo não deve ser resolvido, muito menos perguntado à criança, se criou ou achou; deve ser tolerado. É de posse exclusiva da criança, é amado, conservado por um longo período de tempo e sobrevive aos ataques mutilatórios da própria criança. Adquire importância vital, os pais reconhecem e aceitam o valor do objeto.

    O Objeto transicional ocupa o lugar da mãe, porém de modo algum a substitui totalmente. Existe um registro na criança, de que esse objeto a acompanha na ausência da mãe, mas não é a mãe. Sobre esta base se constrói o pensamento simbólico.

    O objeto transicional vai perdendo gradativamente significação, não é objeto de luto e nem é reprimido. Simplesmente, se torna desnecessário, esquecido e substituído por espaços de criações humanas, desde as mais simples, até as culturais.

  • Autor: Joyce Goldstein
  • Examinemos mais detidamente algumas proposições de Freud (O Eu e o Id, 1923b p.48), para delas retirarmos sugestões para pensarmos o assunto proposto.

    Afirma Freud sobre as experiências vitais, se estas seriam vivenciadas pelo Eu ou pelo Id: isso se mostra sem sentido, pois o Id não tem como experienciar ou sofrer nenhuma vicissitude externa (ou interna) por sua própria conta, mas sempre mediado pelo Eu, que é o representante do mundo externo para o Id.

    Ora, então tais princípios, através dos seus juízos prevalentes são propriedades exclusivas do Eu. Assim os juízos de desestimação ou atribuição seriam mais sujeitos ao princípio do prazer-desprazer, e os juízos de existência e realidade mais sujeitos ao princípio de realidade. Não podemos deixar de apontar que tomamos o conceito de princípio não como um começo e sim como uma forma epistêmica de apreciar a realidade tanto externa como interna.

    O Eu oscila permanentemente entre os juízos de atribuição e realidade. Quanto mais próximo o sistema representacional do Eu estiver do Id inconsciente, mais sujeito estará aos juízos regidos pelo princípio de prazer-desprazer. Tornam-se assim evidentes que os juízos de realidade e existência dizem mais respeito ao Eu preconsciente e consciente, não desconhecendo o fato de que o próprio Eu origina-se do Id.

    Por que preciso de cautela nestas afirmações? Vejamos como suponho que uma vivência de dor é operada pelo Eu. Certamente o juízo de realidade e existência estará operando. Mas como o princípio de prazer-desprazer reina de uma forma relativamente absoluta, tal realidade é expulsa, tornada o não-Eu. Isto é uma operação que indica a radicalidade do juízo de desestimação ou atribuição. Se algo possui o atributo “mau” nossa tendência é expulsá-lo. Se os referidos juízos insistirem na sua radicalidade surge o descrito como forclusão, preclusão, repúdio da realidade (a Verwerfung freudiana).  O destino da representação existente será a inexistência ou mesmo algo que jamais existiu. Veja-se assim o movimento da progressiva radicalidade destes juízos sob a jurisdição do princípio do prazer-desprazer.

    Na medida em que a representação da realidade é progressivamente refeita, isto é, o movimento dos juízos de atribuição até os juízos de realidade, divisa-se uma verdadeira gama de juízos transitórios surgidos desta mescla constante dos princípios de prazer-desprazer e de realidade. É provável que os sonhos abriguem-se neste espaço. Podemos até afirmar que não é possível a existência dos juízos de desestimação e atribuição sem os juízos de realidade e vice-versa. Assim se os juízos de realidade forem conduzidos ao seu máximo, atingiremos o princípio da não contradição de Parmênides e Aristóteles o que levaria a uma paralisia lógica e mental. Estaríamos impedidos de sonhar e devanear. Isto se aproxima muito do referido como “pensamento operatório” de certos pacientes.

    Concluímos, portanto, que quando desenvolvemos o juízo objetivo da realidade, não podemos executá-lo sem seu correlato que é o juízo subjetivo de Eu. Eis, portanto, a prevalência do princípio da realidade. Quando tais juízos ficam mais confusionais, perdendo-se o limite do Eu e do outro, não distinguimos de uma forma mais realística o objetivo do subjetivo. Estamos, portanto, mais sujeitos ao princípio do prazer-desprazer e aos juízos mais primitivos que os representam.

    Veja-se para isto a surpreendente afirmação de Freud ( 1923b p.42): em um primeiro momento essa identificação (primária) não parece ser a conseqüência nem o resultado de um investimento objetal ( o outro), pelo contrário ela é uma identificação direta e imediata, anterior a qualquer investimento de objeto ( reconhecimento do Eu e do outro). No entanto, as escolhas objetais do primeiro período sexual que se dirigem ao pai e à mãe, parecem desembocar ao longo do desenvolvimento normal nessas identificações inicias, reforçando dessa forma a identificação primária.

    Se compreendo adequadamente o sugerido por Freud, não existem identificações secundárias sem as primárias e vice-versa. Na medida em que nos deslocamos das identificações primárias para as secundárias se fará notar a jurisdição do princípio da realidade, através dos seus respectivos juízos de realidade e existência em detrimento do princípio de prazer-desprazer e seus respectivos juízos de atribuição, desestimação até a inexistência da representação. Insisto, não é possível a existência do princípio de realidade sem a existência do seu correlato, o princípio de prazer-desprazer.

  • Autor: Roaldo Naumann Machado
  • Freud escreveu, a propósito de A interpretação dos sonhos (1900) e de um outro livro, Os chistes e sua relação com o inconsciente (1905), que essas duas obras mostraram desde logo que os ensinamentos da psicanálise não podem restringir-se ao campo médico, mas são suscetíveis de se aplicar a outras diferentes ciências do espírito. Era realmente este o objetivo essencial: libertar-se da tutela médica, escapar ao simples registro do procedimento terapêutico, para não ficar reduzido a servir à psiquiatria.

     Em mais de uma ocasião, Freud fez questão de dar a esse objetivo legitimidade teórica, lembrando, sobretudo na trigésima quarta das Novas Conferências Introdutórias Sobre Psicanálise (1933), que, depois de compreender o alcance da psicanálise como“psicologia das profundezas”, ele fora levado a admitir que, na medida em que nada daquilo em que os homens crêem ou que executam é compreensível sem o concurso da psicologia, daí deviam “resultar espontaneamente aplicações da psicanálise a numerosos campos do saber, em particular aos das ciências do espírito, aplicações estas que se impunham e exigiam serem elaboradas. A ambivalência freudiana a respeito da psicanálise aplicada refletiu-se tanto nas contribuições do próprio Freud, quanto nas reações contrastantes que esse campo tem despertado na comunidade psicanalítica. Em todos os seus trabalhos considerados da esfera da psicanálise aplicada, com efeito, podemos constatar a existência de um segundo objetivo, este puramente teórico, que na maioria das vezes vem substituir a aplicação pura e simples. Hoje em dia, a psicanálise aplicada é objeto de julgamentos particularmente contrastantes.

    Correntemente utilizada no mundo anglófono— autores tão diferentes quanto Ernest Jones e Peter Gay classificam, ambos, uma parcela importante das obras de Freud com o rótulo de psicanálise aplicada, sem que isso provoque o menor debate.

    Por outro lado, a expressão “psicanálise aplicada” é alvo, na comunidade psicanalítica francesa, de uma rejeição particularmente violenta. (Roudinesco, 1998, p. 605 a 608).

    Analistas pós–freudianos como Renato Mezan (1985), Fabio Herrmann (2001) e Jean Laplanche (1987) concordam que o termo “aplicação” da psicanálise criaria uma compreensão equivocada no sentido de que a Psicanálise seria um conhecimento pronto e acabado, podendo assim ser meramente “aplicado” a outras áreas do conhecimento (apud Kobori, 2013).

    A utilização do termo psicanálise aplicada poderia gerar uma conotação de transposição de um saber/teoria acabado, oriundo da clínica, para fenômenos além do escopo da clínica, como cultura e sociedade.

    Esta condição do já sabido nega os pressupostos metodológicos da psicanálise como ciência, quais sejam: sua proposta de construção de conhecimento no seu aspecto de privilegiar o não saber, a descoberta, o velado de onde surgirá algo novo.

    Em função deste argumento, Fabio Herrmann propôs a expressão clínica extendida e Jean Laplanche psicanálise extramuros. No Congresso da FEPAL de 2016, em Cartagena, foi cunhada uma expressão que consideramos que pode nos auxiliar a diferenciar o método analítico vinculado à clínica daquele vinculado ao trabalho em outras áreas do conhecimento: psicanálise a céu aberto.

    Neste sentido estaríamos ampliando os espaços onde o método poderia ser usado dando uma conotação de maior liberdade quanto ao alcance de suas possibilidades.

    Outro termo que tem sido utilizado pela vertente Lacaniana da psicanálise é o de psicanálise implicada.

    A articulação entre sujeito e enlaçamento social e político discute a relação entre psicanálise dita em extensão ou psicanálise aplicada fora da clínica, dado que se beneficia também das contribuições dos autores da sociologia e da política.

    Assim, essa prática não é entendida tanto como psicanálise aplicada, mas como psicanálise implicada, ou seja, aquela constituída pela escuta dos sujeitos situados precariamente no campo social (Rosa,2012).

     

  • Autor: Alice Becker Lewkowicz
  • Freud fundou a psicanálise trabalhando com adultos, mas descobriu que as primeiras causas do transtorno mental brotavam de fatores atuantes nas primeiras fases do desenvolvimento. Suas descobertas e conclusões sobre a sexualidade infantil - negada até então – estariam implicadas na causação da neurose do adulto. Esta observação provocou grande reação da sociedade vienense da época e precisava ser provada. Assim, Freud estimulou membros de seu grupo a falar das observações sobre seus próprios filhos, quando surgiu a oportunidade de analisar um menino de cinco anos com sintomas de fobia. Nessa análise, o pai de Herbert, o "pequeno Hans", observava e registrava fatos e comentários do filho, cabendo a Freud revelar o sentido que seria transmitido ao menino. Freud seguiu os princípios da técnica analítica da época, interpretando à criança seus desejos edípicos e sua angústia de castração. Este caso rendeu, em 1909, a publicação do trabalho clínico "Análise da fobia de um menino de cinco anos", assim confirmando sua teoria da sexualidade e a aplicabilidade da análise às crianças.

    No artigo de 1909, Freud afirmou sua crença de que a análise de Hans só fora possível devido à confluência pai-analista, propondo modificações na técnica utilizada com o adulto por considerar, dentre outros aspectos, que a associação livre não tinha razão de ser pelo fato de a criança não possuir superego.

    Hermine Von Hug-Hellmuth, primeira analista depois de Freud a aplicar a análise infantil, divergia da ideia da necessidade da criança explicitar os impulsos inconscientes, mas de expressá-los em atos simbólicos, introduzindo o uso de jogos e brinquedos como modalidade de acesso ao mundo infantil.

    Após sua morte, em 1924, levantaram-se as duas correntes da psicanálise de criança, representadas por Anna Freud e Melanie Klein, persistindo um debate entre elas em torno do que é a “verdadeira psicanálise”, sendo que um dos fatores de discordância era a descrença de Anna Freud quanto à possibilidade de a criança estabelecer uma transferência, aspecto este defendido por Klein e que permanece até hoje.

    A medida que o conhecimento foi se ampliando, os teóricos privilegiaram aspectos que estavam em acordo com o modo como concebiam a psicanálise e a respectiva influência em sua prática: a interpretação transferencial da fantasia inconsciente, atribuindo ao brincar a equivalência da associação livre (Melanie Klein); a influência dos aspectos educativos oriundos do conhecimento psicanalítico (Anna Freud); a importância fundamental do vínculo com a mãe na formação da mente na criança (John Bowlby); a importância da participação do ambiente na constituição do indivíduo e a proposição do brincar compartilhado como atividade autônoma de produção de sentido (Donald Winnicott).

    É senso comum que a compreensão do significado do desenho, jogos e, principalmente, do brincar é um poderoso método de acesso ao mundo interno infantil.

    Em relação à psicanálise de adolescentes, até algumas décadas atrás, era considerada tarefa árdua atender psicanaliticamente o adolescente, pois se lhe aplicava um modelo adulto. A busca do conhecimento de cada etapa da adolescência, com suas características próprias, permitiu uma abordagem correspondente.

     

  • Autor: Rui de Mesquita Annes
  • Em 1845 o psiquiatra austríaco Ernest von Feuchtersleben criou o termo psicose para substituir loucura e definir os doentes da alma numa perspectiva psiquiátrica. Em 1894 Freud o retomou para designar um distúrbio entre o eu e o mundo externo com reconstrução inconsciente de uma realidade delirante ou alucinatória na qual o sujeito fica unicamente voltado para si mesmo, narcísico, sem capacidade para perceber a realidade e alteridade (eu e não eu). Psicose é um conceito de ampla abrangência nas doenças mentais. Possui três grandes formas de apresentação: esquizofrenia; psicose maníaca depressiva e paranoia, sendo esta adotada por Freud como modelo para psicose, patologia com determinismo orgânico que produz alterações profundas e irreversíveis no eu.  Os sintomas variam em grau e gravidade. Principais manifestações: perturbação na capacidade para pensar, se comunicar e relacionar, alienação, diminuição ou ausência de juízo crítico, perda da razão e do contato com a realidade a qual é cindida (ruptura) e ou projetada ocasionando séria instabilidade no eu e no senso de identidade. Os delírios e alucinações são defesas para tentar restaurar o vínculo perdido na cisão e projeção. Predomina o princípio do prazer versus princípio da realidade. Diminui a curiosidade e capacidade para aprender, provocando falhas na cognição e formação de símbolos. Os principais afetos projetados, ódio, inveja, impotência e violência, atacam o vínculo com o outro, transformam amor em sadismo. Predominam sentimentos persecutórios e destrutivos que provocam extrema angústia e constante temor de aniquilamento.

  • Autor: Tula Bisol Brum
  • Sexualidade é um termo abrangente que contempla vários fatores e dificilmente pode ser definido de uma forma absoluta.

    Freud em suas investigações descobriu que a causa das doenças mentais na sua grande maioria estavam ligadas a conflitos de ordem sexual, gerados por pensamentos e desejos reprimidos pelo indivíduo durante a sua infância. Portanto, era durante a vida infantil que experiências traumáticas reprimidas causavam sintomas deixando profundas marcas na estruturação da personalidade. Assim sendo, Freud coloca a sexualidade como centro da vida psíquica e desenvolve o segundo conceito mais importante da teoria da psicanálise: a sexualidade infantil.

    Esta descoberta de Freud provoca intensa reação na sociedade vigente, considerada quase um escândalo as crianças inocentes possuírem sexualidade.

    Os principais aspectos dessa descoberta são:

    1º) A função sexual existe desde o principio da vida logo após o nascimento;

    2º) O período da sexualidade é longo e complexo até chegar à sexualidade adulta.

    3º) A libido é a energia dos instintos sexuais e só deles.

    Foi somente em 1905 que Freud escreveu os Três Ensaios da Sexualidade que postulando o processo de desenvolvimento sexual. O indivíduo inicialmente encontra prazer no seu próprio corpo e nesse período a função sexual esta ligada à sobrevivência. Aos poucos vai havendo modificações nas formas de gratificação e na relação com o outro.

    Freud acreditava que a personalidade era desenvolvida através de uma série de estágios da infância em que a energia era a busca do prazer do ID, tornam-se focados através das zonas erógenas.

    A teoria psicanalítica acredita que as fases iniciais são fundamentais para o bom desenvolvimento psicossexual do individuo, mas continua a desempenhar um importante papel no desenvolvimento da personalidade até o fim da vida.

    Podemos resumidamente descrever as etapas descritas por Freud no desenvolvimento psicossexual:

    Fase Oral – até 1 ano

    Toda relação da criança com o mundo é através da boca. Está é vital para comer, entrar em contato com a mãe, obtendo um prazer oral que se realiza através de atividades de gratificantes como mamar, chupar, degustar e etc. Se essa fase não é satisfeita pode-se desenvolver uma formação oral mais tarde, cujos sintomas são tabagismo, voracidade, roer unhas.

    Fase anal – 1 a 3 anos

    Nesta fase para Freud o foco da libido estava no controle da bexiga e evacuação, uso do banheiro, disciplina.

    Fase fálica – 3 a 6 anos

    Para Freud a ênfase se ativa sobre os genitais. Nessa idade começam a descobrir as diferenças entre sexos. Surge o complexo de Édipo ou de Electra.

    Latência

    Os interesses da libido são direcionados para outras áreas. Na realidade a libido não é suprimida é redirecionada para atividades intelectuais, interações, desenvolvimento de habilidades sociais, comunicação e criatividade.

    Estágio genital

    Puberdade, adolescência e vida adulta. O indivíduo desenvolve forte interesse social no sexo oposto. O objetivo é conseguir um equilíbrio entre as diversas áreas da vida.

  • Autor: Marlene Silveira Araujo
  • Reverie – [fr. rêverie; ing. daydream; port. devaneio] Conceito introduzido na psicanálise por Wilfred Bion, designa um “estado de sonho” da mente (do francês rêve = sonho), presente tanto no sono como na vigília.

    Refere-se especificamente a um estado mental da mãe, estreitamente relacionado à função α, capaz de receber e acolher as impressões sensoriais e emocionais de seu bebê. Em outras palavras, é a capacidade da mãe de fazer identificações introjetivas com as identificações projetivas do bebê, processá-las mentalmente (com sua função α), dando-lhes algum significado, o qual pode, então, ser transmitido ao bebê permitindo a reintrojeção dos conteúdos agora modificados (“desintoxicados”), numa forma que seu aparelho mental ainda imaturo pode assimilar.

    O protótipo das emoções que o bebê não é capaz de processar mentalmente seriam as inevitáveis frustrações na relação inicial com o seio, que desencadeariam vivências aterrorizantes de morte iminente, as quais ele não pode compreender. A capacidade de reverie permite que a mãe compreenda (em um registro muito mais emocional do que sensorial) e acolha tais angústias, transformando assim uma angústia intolerável em um medo tolerável.

    O conceito de reverie é parte fundamental da teoria do pensamento desenvolvida por Bion. Para ele, qualquer experiência emocional ou sensorial não é passível de ser pensada, consciente ou inconscientemente, se não for primeiramente transformada em representações (elementos α) pelo trabalho da função alfa. Através da reverie, a mãe coloca sua própria função alfa a serviço da função alfa ainda incipiente do bebê, permitindo desta forma, que a experiência emocional deste se torne pensável. A repetição destas situações promove a introjeção de um objeto (mãe) receptivo, capaz de acolher, tolerar e significar, objeto com o qual o bebê se identifica e, à medida que sua própria experiência emocional se torne pensável, pode começar a desenvolver sua própria capacidade de pensar sobre seus estados mentais.

    No contexto do tratamento psicanalítico, Bion designa o estado de sonho, de reverie, como o estado mental desejável do analista quando trabalhando com seu paciente (ampliando assim o conceito de atenção flutuante proposto por Freud), introduzindo a conhecida expressão: trabalhar sem memória e sem desejo.

    Bion propõe que o analista, à imagem da dupla mãe-bebê, ao manter a mente operando em um registro mais emocional do que sensorial, permeável às suas próprias fantasias, emoções, devaneios e pensamentos durante a sessão, possa estar receptivo às identificações projetivas de seu paciente, permitindo que sua função α produza representações mentais que levem a novas compreensões e/ou significados para o material trazido pelo paciente, promovendo a expansão da mente e o crescimento mental. Tais representações mentais podem se expressar no analista como registros sensoriais (imagens visuais, sons, cheiros, etc.) com diferentes graus de organização: desde de simples flashes indistintos até sequências imaginativas mais longas e organizadas. A validade destas representações mentais produzidas no analista, como sendo originadas em identificações projetivas do analisando, no entanto, deve ser constatada pela observação da sequência da interação comunicativa do par analítico.

  • Autor: Paulo Oscar Teitelbaum
  • Sándor Ferenczi, psicanalista húngaro e um dos importantes colaboradores pioneiros de Freud, viveu entre 1873 e 1933. Descrito por biógrafos como homem de personalidade calorosa e afetiva, era aberto a novos pensamentos. Formou-se em medicina e inicialmente, se estabeleceu em Budapeste como clínico geral e neuropsiquiatria.

    Seu pai tinha uma pequena livraria e Sándor, o quinto filho entre onze, foi ávido leitor. Na Hungria ainda não havia psicanálise, mas Ferenczi lia todas as publicações de Freud às quais tinha acesso. “A Interpretação dos Sonhos” o entusiasmou muito e então, escreveu a Freud e marcou uma visita em Viena. Também Freud ficou impressionado com o jovem médico e o convidou para participar do Primeiro Congresso de Psicanálise que ocorreria em Salzburg. Ferenczi aceita o convite; em 1908 já leva sua primeira comunicação psicanalítica: Psicanálise e Pedagogia. Nos anos seguintes, destacam-se seus trabalhos Transferência e introjeção e O conceito de introjeção.

    Entre Freud e Ferenczi nasceu uma amizade com muita cooperação e troca de ideias recíprocas. Segundo Elisabeth Roudinesco, “um verdadeiro tesouro de invenção teórica e clínica”. Mais de mil e duzentas cartas compõe a correspondência entre ambos.

    Em 1910 Ferenczi cria a IPAInternational Psychoanalytic Association contribuindo muito na criação de referências universais da formação e do método psicanalítico.  Três anos mais tarde, em 1913, Ferenczi funda a Sociedade Psicanalítica Húngara que vai presidir até sua morte em 1933. Mais tarde, naquela Sociedade Psicanalítica filiaram-se Melanie Klein, Balint e Spitz, entre muitos. Dentro deste pioneirismo, Ferenczi igualmente inaugura a primeira análise didática ao seguir sua autoanálise com análise com  Freud entre 1914 a 1916. Viajava regularmente por três semanas de Budapeste a Viena. Trabalhos de destaque são O desenvolvimento do sentido de realidade e seus estágios e A técnica psicanalítica.

    Concomitantemente experiências próprias vivenciadas em análise pessoal e as com seus pacientes, o levaram a crescentes técnicas ativas em sua clínica. Defendia ideias e opiniões próprias sobre a elasticidade técnica com intervenções ao incentivo às manifestações daquele material que compreendia como traumático e reprimido no paciente. Escreve, Dificuldades técnicas de uma análise de histeria (1919),  Prolongamentos da ‘técnica ativa’ em psicanálise (1921),  e As fantasias provocadas (1924), entre muitos. As divergências técnicas com Freud e grupo de pioneiros surgem com importância crescente. Em 1924 Ferenczi escreve um verdadeiro tratado sobre o desenvolvimento da genitalidade.  Thalassa  é referido como “poesia” por alguns e “ficção” por outros, contém amplas observações e reflexões onto- e filogenéticas sobre a genitalidade.      

     As diferenças na abordagem técnica levaram a francas desavenças entre Ferenczi e Freud em 1932.

    Ferenczi então seguiu seu próprio trabalho mais isolado. Revisou parcialmente sua posição extrema. Em 1933, ano de sua morte escreve Confusão de língua entre adultos e criança. Este pequeno artigo de uma atualidade impressionante, vem sendo lido e estudado. Dá a seu autor o devido espaço teórico prejudicado, parcialmente, pelos desentendimentos com Freud e demais pioneiros.

     Freud em suas notas necrológicas lhe presta uma grande homenagem e afirma sobre Ferenczi que alguns de seus artigos “fizeram com que todos os analistas fossem seus alunos”.

  • Autor: Ingeborg Magda Bornholdt
  • Si mesmo (inglês). Tipo de pessoa, especialmente a maneira que se mostra, age e sente. A pessoa total de um indivíduo, incluindo seu corpo, suas experiências, seu psiquismo;

    "Si mesmo", como o conhecimento que o indivíduo tem sobre si próprio;

    A "própria pessoa" de alguém em contraste com "outras pessoas";

    Além do conceito de si mesmo (autoconceito), o termo abrange aspectos mais técnicos como imagem do self (imagem de si mesmo), esquemas do self (estruturas cognitivas duradouras), e identidade;

    Avaliações atuais do self estão relacionadas a conceitos de ideais do self e auto estima de si mesmo (auto estima);

    Termo inicialmente utilizado pela Psicologia do Ego para diferenciar o eu, como uma instância psíquica do eu como a própria pessoa.

    Esse conhecimento que o "eu" tem sobre "si mesmo" tem dois aspectos distintos: por um lado, um aspecto descritivo chamado auto-imagem e por outro, um aspecto valorativo, a auto-estima.

  • Autor: Kátia Ferreira Jung
  • O setting constitui o conjunto de fatores constantes necessários para que o tratamento analítico possa transcorrer da melhor maneira possível.  Embora exista tradução para o termo setting em português, como enquadre, marco ou moldura, o uso da expressão em inglês ficou consagrada tanto no Brasil, como internacionalmente.

    O setting configura a combinação de regras necessárias para que se estabeleça um processo de tratamento, o processo analítico que terá um efeito terapêutico. O setting seria equivalente aos trilhos que sustentam a passagem do trem do processo analítico (Bleger, 1967).

    Esses fatores constantes foram propostos por Freud em seus artigos sobre técnica de 1912 e 1913 e desenvolvidos pelos analistas posteriores. Freud buscava através de sua experiência pessoal transmitir aos analistas as características que poderiam ser mais favoráveis para o desenvolvimento do tratamento analítico (Freud, 1912).

    Nesse sentido, o setting além de proporcionar uma posição técnica também proporciona uma posição ética aos analistas.
    A maioria das regras do setting é formulada durante o contrato que é feito logo no início do tratamento analítico.

    Existem normas fixas que são baseadas na teoria psicanalítica e que devem ser utilizadas por todos os analistas para favorecer o processo analítico, tais como a duração das sessões, o uso do divã, o horário fixado, os honorários do analista, as férias e demais combinações importantes ao tratamento. São normas que visam estimular o desenvolvimento de um campo transferencial/contratransferencial, uma característica essencial da relação entre paciente e analista para o tratamento analítico.

    No entanto, essas normas fixas serão influenciadas pelas peculiaridades de cada cultura onde está inserida aquela dupla paciente/analista. Como também pelas características pessoais de cada analista, tais como seu consultório, sua formação pessoal, seus valores e preconceitos, etc.

    Meltzer (1986) ainda considera como fundamental no setting o que denomina de “uma atitude mental do analista” que vai se manifestar através da neutralidade, abstinência e anonimato do analista, como salientado por Pechansky (2015).

    Bleger (1967) talvez o autor latino-americano que mais tenha se dedicado ao tema do setting, nos alerta para a situação de estabilidade e silêncio do enquadre. No entanto, as rupturas ao setting são inevitáveis, o paciente ou o analista adoecem por exemplo. Às vezes surgem atrasos ou imprevistos. São momentos que são muito úteis para o tratamento, pois favorecem o surgimento de material novo e rico. Bleger se preocupa quando isso não ocorre, com longos tratamentos em que o setting não se modifica nunca e acredita que isso ocorre em situações bem graves, de natureza psicótica.

    Melanie Klein (1932) também apresentou uma contribuição de extrema importância ao tema do enquadre, quando adaptou o setting para a análise de crianças, utilizando o brinquedo no tratamento psicanalítico usado na infância.

    Finalmente cabe mencionar que vários autores descrevem um “setting interno” do analista equivalente à atitude analítica descrita por Meltzer, o que permitiria a prática da psicanálise em situações de realidade externa distinta do consultório como em pacientes hospitalizados por exemplo.

  • Autor: Sergio Lewkowicz
  • Freud nasceu na pequena cidade de Freiberg, Moravia. Situada a 240km de Viena, tinha aproximadamente 5000 habitantes dos quais 95% eram tchecos e 2% eram judeus que falavam iídiche e alemão.

    Seu pai, Jacob Freud, era de uma família judia de comerciantes de lã e havia casado pela terceira vez, aos 40 anos, com Amalia Nathansohn, de 20 anos, uma mulher bonita, elegante e de espírito vivo, filha de um representante comercial radicado em Viena. Eles tiveram oito filhos num período de dez anos, três meninos e cinco meninas. Em 1860 a família de Freud mudou-se para um subúrbio pobre de Viena chamado Leopoldstadt.

    Freud era o mais velho e o mais amado pela mãe que o chamava de  ‘meu Sigi de ouro‘. Foi o primeiro a renegar a profissão de comerciante para cursar medicina, aos 17 anos,  com apoio financeiro de seu professor de hebraico Samuel Hammerschlag.

    Após a graduação na Universidade de Viena, Freud trabalhou em pesquisas do cérebro no Instituto de Fisiologia do professor Ernst Brücke. Entretanto, pressionado pela situação financeira e pelo desejo de casar com sua noiva Martha Bernays, tornou-se assistente do professor Josef Breuer.  Assim, começou sua atividade profissional como um neurologista dedicado a trazer alívio para seus pacientes neuróticos.

    Dessa fase, até tornar-se uma das 100 personalidades mais influentes do século XX  e ter sua obra consagrada - a ponto de dois livros seus  A Interpretação dos SonhosTrês Ensaios Sobre a Teoria da Sexualidade  serem incluídos nas listas dos 100 livros mais importantes da história, Freud descobriu fatos novos e importantes sobre a vida psíquica.

    Em 1938, aos 82 anos, Freud refere-se à psicanálise como uma ciência da mente para o tratamento dos pacientes neuróticos e cita como suas principais descobertas o inconsciente e as forças instintivas humanas em permanente conflito. Ele afirma que a resistência às suas idéias foi forte e implacável: "As pessoas achavam minhas teorias indecentes ou não acreditavam nelas. Apesar disso, Freud recebeu várias indicações ao Nobel de Medicina.

    Ao final, Freud reconhece que teve sucesso em conquistar pupilos e criar uma associação internacional de psicanálise. E conclui: "Mas a luta ainda não acabou”.

    Essa síntese de Freud coincide com sua saída de Viena em direção a Londres para viver seus últimos anos em liberdade. A Nação Germânica havia se tornado tão sufocante que o espirito da liberdade não seria capaz de respirar nela.

    Suas palavras permanecem de uma atualidade medonha. A psicanálise cruzou o portal do segundo milênio enfrentando fortes críticas e sobreviveu a um século com mais de 100.000.000 de mortos em guerras e revoluções que, como consequência, produziram um grande avanço da ciência na área de produção de medicamentos para o alívio da dor física e psíquica. Contudo, a psicanálise manteve-se na contramão da história ao se reafirmar como um tratamento sem anestesia. Em Viena dizia-se que “se Strauss ensinava os vienenses a esquecer, Freud os forçou a lembrar.

    Se essa perseverança da psicanálise põe em relevo a forma mais humana e insuperável de tratar o sofrimento do ser humano, isso decorre do desenvolvimento e novas descobertas dos seguidores de Freud, permanecendo no entanto como pedra fundamental a vasta obra de seu fundador e o nobre exemplo de seu caráter. Freud sempre teve a coragem e as qualidades necessárias para defender suas posições pessoais, mesmo nas adversidades, e para viver de forma verdadeiramente livre.

  • Autor: Roberto Gomes
  • O termo símbolo origina-se da definição grega de symbolon, que consistia num objeto cortado em duas partes portado por duas pessoas pertencentes a uma mesma seita que se separavam e que constituía-se num signo de reconhecimento no momento em que seus portadores se reencontravam e podiam reunir os pedaços. O symbolon denotava a ligação entre aqueles dois sujeitos. De modo mais geral podemos dizer que um símbolo é aquilo que liga dois elementos. Por exemplo, a representação simbólica de uma cadeira em um papel liga, vincula, a cadeira, objeto real, e a imagem mental que temos de uma cadeira. Assim como a palavra "cadeira" é a representação simbólica que une a cadeira, objeto real, e a imagem perceptiva que temos de uma cadeira. 

    Inicialmente, a psicanálise através de Sigmund Freud, seu criador, reservava o termo símbolo apenas para aqueles elementos que possuíam um significado universal, não individual, compartilhados em uma determinada cultura ou em várias, fazendo com que seu aparecimento em um sonho, por exemplo, já poderia conduzir a uma interpretação direta. Como a psicanálise interessava-se em estudar as representações simbólicas pessoais, únicas a um determinado indivíduo, Freud preferiu designa-las representações e conceituou várias delas.

    Posteriormente, a psicanálise passou a utilizar novamente o termo símbolo para referir-se às representações simbólicas criadas pelo próprio sujeito em função de suas experiências de vida e não apenas reserva-lo para os símbolos universais. E mais do que isso, a psicanálise passou a interessar-se pelo processo de criação dos símbolos, como ele ocorre e o que se passa no funcionamento mental quando há falhas no mesmo. Podemos ampliar mais e dizer que a psicanálise contemporânea tem se interessado pela maneira como produzimos os pensamentos (que são constituídos de símbolos) e como os utilizamos, ou seja, interssa-se mais em como pensamos do que apenas com o que pensamos.

    Assim, podemos dizer que o ser humano se caracteriza pela capacidade de criar uma rede de símbolos que retratam suas experiências ao longo de sua vida e que constituem o que chamamos de psiquismo. O psiquismo é constituído de símbolos, se não os produzíssemos, não existiria o psiquismo humano, a subjetividade humana. Este processo de criação de símbolos que são idiossincráticos, individuais e únicos de cada ser humano é o que chamamos de simbolização. Esta trama simbólica criada pelo indivíduo constitui seus pensamentos conscientes e inconscientes e é o que costumamos chamar de psiquismo humano. Os símbolos, chamados de representações em algumas correntes psicanalíticas, retratam as experiências do sujeito com o mundo externo e também os estímulos sensoriais e sensações provenientes de seu interior.

    O processo de formação de símbolos constituintes do psiquismo é tão essencial e característico do Homem que o famoso filósofo Ernest Cassirer (1944) dizia que não deveríamos chamá-lo de animale rationale, mas sim de animale symbolicum.

  • Autor: Ruggero Levy
  • Do ponto de vista psicanalítico, o sonho (no alemão Traum) é um fenômeno psíquico que ocorre durante o sono, constituindo-se de imagens e representações cujo aparecimento e ordenação fogem ao controle do sonhador. O afrouxamento das censuras ordinárias da vida de vigília durante o sono torna viável a emergência de conteúdos reprimidos do inconsciente que aparecem ocultados na trama onírica. Segundo Freud, os sonhos se constituem na realização alucinatória de desejos reprimidos, mesmo que isso não seja tão óbvio à primeira vista. Foi no livro “A Interpretação do Sonhos” de 1900 que Freud nos apresenta um modelo onde, pela primeira vez, o trabalho com os sonhos não é visto como referência a fenômenos externos ao sonhador (como previsões, visões, influências metafísicas ou mitológicas) mas como método de interpretação onde, através de associações, o sonhador poderia alcançar conteúdos inconscientes normalmente inacessíveis. O sonho se eleva assim à “via régia ao inconsciente” e uma operação psíquica própria do sonhador. Primariamente, o sonho se forma através de uma elaboração movida por excitações psíquicas que buscam expressão e conexões associativas principalmente através de pictogramas (imagens mentais). Para Freud, o sonho também é o guardião do sono, pois protege o indivíduo que sonha da irrupção das pulsões do id. Os sonhos lembrados e relatados afastam-se de seu conteúdo original (latente) através de uma elaboração secundária. Esta se encontra na transição entre o sonho original sonhado (estado bruto) e sua remodelação em uma narrativa coerente e com sentido, onde os restos diurnos (experiências cotidianas) participam emprestando elementos “cênicos”. Assim, cria-se uma distância entre os significados inconscientes do sonho e aquele que é lembrado e relatado (conteúdo manifesto do sonho). As distorções promovidas pela censura, que busca afastar os pensamentos proibidos à consciência através da elaboração secundária, se dão principalmente por meio dos mecanismos de condensação (um elemento contém vários sentidos, superposição), deslocamento (um cão representando o pai, p.ex.) e simbolização (metáfora e metonímia). A obra “A Interpretação dos Sonhos” vai muito além do exame dos sonhos, nos apresentando uma nova teoria do aparelho psíquico que inaugura a própria psicanálise. Adiante dos conceitos básicos de Freud sobre os sonhos, o tema evoluiu de modo complexo nos últimos 100 anos. Para citar dois autores clássicos, Klein, para além da teoria pulsional, colocou a ênfase na expressão das fantasias inconscientes relacionadas com objetos internos. Bion, por sua vez, soma às concepções anteriores seu acento no sonho como forma de pensamento simbólico, abrindo a importante discussão sobre os pensamentos não simbólicos, sonhos evacuatórios, debates contemporâneos sobre o irrepresentável e novas formas de abordagem terapêutica dos sonhos. Seguindo-se nesta linha, numa visão mais contemporânea, acrescenta-se às ideias clássicas sobre o sonho a noção do sonhar como uma função de trabalho mental que transforma afetos e memórias em estrutura mental. Ou seja, sonhar compreende um processo de transformação e construção mental baseado em imagens pictóricas onde desenvolvem-se novos símbolos, ampliando a capacidade de pensar e significar novas experiências emocionais. Uma falha na capacidade onírica acarreta falha na formação de novas conexões e crescimento mental (saúde). Na prática psicanalítica contemporânea, fortemente influenciada pelos aspectos intersubjetivos, mente de analista e paciente promovem em conjunto uma interpretação de sonhos mais voltada ao desenvolvimento das capacidades simbólicas e de manejo dos afetos e pensamentos. Além do clássico modelo do “o quê” está sob a repressão a psicanálise se ocupa hoje em “como” a mente funciona e como a relação psicanalítica pode promover esta transformação da base simbólica através do trabalho com os sonhos.

     

  • Autor: Flávio de Oliveira e Souza
  • Desde a primeira menção na carta dirigida a Fliess (1896), até os trabalhos mais tardios de 1938, no “Esboço de Psicanálise”, encontramos ao largo de toda a obra de Freud referências, comparações com outros conceitos, descrições e definições sobre a sublimação.

    Porque ocorre a sublimação, que tipo de energia carrega, qual sua origem, qual seu alcance? São questões que a obra de Freud nos leva a refletir e tentar organizar, uma vez que abrangem importantes e fundamentais conceitos psicanalíticos aos quais a sublimação se acha ligada.

    Esse processo, na obra de Freud, relaciona-se com: o destino das pulsões; o desenvolvimento normal; com a identificação; a formação do caráter; um mecanismo de defesa; a repressão; a cultura e a criação; o tratamento analítico; o instinto de morte e a agressividade; o incesto e o complexo de Édipo; com perversão; e com outras questões ainda interrogadas.

    Os processos sublimatórios integram normalmente o processo evolutivo do desenvolvimento, e as formações psíquicas, tais como o caráter e estruturas (ego, superego), devem sua origem a este mecanismo. A cultura encontra também sua gênese nesse destino pulsional. As pulsões sexuais que se sublimam são impulsos perversos, parciais, infantis, incestuosos ou componentes instintivos; há uma aparente contradição entre repressão e sublimação; ao ser usado defensivamente, tem certas vantagens sobre outros mecanismos de defesa; varia em cada indivíduo a capacidade sublimatória; no tratamento analítico a sublimação colabora com o seu êxito; é possível se imaginar a possibilidade de que o instinto de morte se sublime; além de outros aspectos.

    Isso demonstra a complexidade e a importância desse conceito para a teoria psicanalítica, para a compreensão da obra de Freud, tornando imprescindível que alguns referenciais sejam apontados.

    A relação com a energia libidinal, ponto de partida para Freud aprofundar-se sobre esse mecanismo, a partir dos “Três Ensaios” (1905), é um dos pontos mais fortes e consistentes sobre esse fenômeno e continua bastante atual. O reconhecimento da existência da pulsão de morte (1920) não parece ter modificado muito o sentido original do conceito ligado a energia primariamente sexual, e não destrutiva, contudo reforça a ideia de que as pulsões agressivas também podem ser sublimadas.

    Se há uma condição pulsional favorável, com a correta transformação e predisposição de seus componentes libidinais, a pulsão sexual presta-se a ser deslocada para outras atividades, substituindo “seu objetivo imediato por outros desprovidos de caráter sexual e que possam ser mais altamente valorizados” (Freud,1910). A iniciação sexual que abandona seu fim de obter um prazer parcial ou reprodutivo, adota um outro. (Freud, 1916-1917).

    Sendo assim, os impulsos sublimados se descarregam, drenados por uma trilha artificial, na medida que cessa o impulso original, uma vez que a respectiva energia é retirada e deslocada para um substituto, sem haver necessidade de contenção por uma contracatexia. As forças do ego incidem angularmente, não se opondo frontalmente aos impulsos originais, diferentemente da repressão (Fenichel, 1957).

    Para Freud, a ideia central sobre a sublimação parece resumir-se a afirmação contida em “Sobre a Psicanálise” (1913ª), onde sustenta que: “O instinto sexual possui em alto grau a capacidade de ser desviado dos objetivos sexuais diretos e ser dirigido a metas, mais elevadas, que não são mais sexuais” (p. 268). 

    O conceito de sublimação de Freud é continuamente repensado por alguns autores no intuito de delimitar, traduzir e entender esse conceito aparentemente simples e, no entanto, altamente complexo. Complexidade demonstrada pela amplitude de conceitos encerrados num só e que se relaciona com a maioria dos fenômenos descritos por ele em sua obra.

    A sublimação é, antes de tudo, um mecanismo estruturador da psique do ser humano. Antes de funcionar como um mecanismo de defesa (o que por um lado não afasta a ideia de ser estruturante, tal como o é a repressão, “defesa” necessária para a possibilidade da existência), a sublimação age como uma das quatro vicissitudes a que devem passar as pulsões. Somos o que somos, também porque existe uma capacidade inata de retirar das pulsões a energia necessária para a construção social e individual. Cumpre-se assim um genial mecanismo onde o prazer é obtido através das atividades culturais, artísticas e outras, possibilitando com isto a harmonia do sistema.

    Faz-se necessário ressaltar a importância do pensamento evolutivo de Freud, ao longo de mais de quarenta e três anos, desde o projeto até as últimas publicações, onde consagra uma linha de raciocínio que, embora aberta a novas ideias, manteve-se fiel ao seu pensamento original. Demonstrado-nos um dos mais belos exemplos do processo sublimatório ao longo de uma vida, disse “não duvidar de que sublimara seus instintos e fazia um trabalho cultural da mais alta categoria” (Gay, 1989).

     

     

  • Autor: Paulo Berél Sukiennik
  • jame la lámpara un poco más /Déjame que duerma, nodriza, en paz

    Y si llama él no le digas que estoy/ Dile que Alfonsina no vuelve

    Y si llama él no le digas nunca que estoy/ Di que me he ido

                                                                                 (Alfonsina y el mar)

                                                  

    Alfonsina Storni, poetisa suíço-argentina, matou-se aos 46 anos, afogando-se na praia de Mar del Plata, depois de lutar contra um câncer de mama e uma desilusão amorosa.

    Albert Camus, escritor e filósofo, disse que

     “só existe um problema filosófico realmente sério: é o suicídio. Julgar se a vida vale ou não vale a pena ser vivida é responder à questão fundamental da filosofia. O resto vem depois”.

    Camus debruça-se sobre o tema do suicídio a partir da filosofia. É fundamental, claro, saber se viver vale ou não a pena, mas não é apenas essa constatação que nos leva a agir no sentido de acabar com a vida ou preservá-la. O que nos leva a um questionamento desse tipo não é a lucidez: é a loucura.

    Segundo algumas estatísticas, há um suicídio a cada 40 segundos no mundo (OMS) e possivelmente 30 suicídios por dia no Brasil; é a mais frequente causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos, sendo as doenças afetivas as principais responsáveis por isso, embora fatores sociais (como desemprego, fome, pobreza) sejam coadjuvantes frequentes.

    A Psicanálise, como uma teoria psicológica por um lado e técnica terapêutica por outro, entende o suicídio como decorrência de doença psíquica. Na época de Freud a medicina já sabia que doenças mentais - principalmente a melancolia (denominação que descrevia boa parte do que hoje chamamos transtornos afetivos) - eram uma das causas mais comuns de suicídio. Freud, baseando-se em sua teoria da pulsão (no caso, na pulsão libidinal), buscou identificar as possíveis causas psíquicas de alguns tipos de melancolia. Observando a evidente semelhança entre o processo de luto (tristeza normal) e a melancolia (tristeza patológica), Freud apontou haver em ambas a reação a uma perda afetiva (perda de objeto). A perda no luto era consciente, a perda na melancolia, inconsciente. No luto, a realidade externa empobrecia, na melancolia o ego do indivíduo empobrecia. Auto-acusações graves ocorriam na melancolia, o que poderia levar ao suicídio, mas tal não acontecia no luto. Freud entendeu que as auto-acusações da melancolia eram, no fundo, dirigidas ao objeto que fora perdido. O ego do sujeito se identificara com o objeto ao invés de substituí-lo pós-perda (identificar-se é tornar-se como). Daí que as auto-críticas do ego eram, no fundo, dirigidas ao objeto dentro do ego. Portanto, o suicídio seria um ataque ao objeto, não ao ego. O sujeito mata-se tentando atingir o outro dentro dele.

    Depois de Freud, Melanie Klein, partindo do estudo da ação da pulsão destrutiva nas relações objetais, concordou com Freud quanto ao fato de que o suicida busca atacar o objeto introjetado dentro do ego. Mas esse ataque seria feito contra o mau objeto apenas - Freud não distinguia bom e mau objetos - e tinha por objetivo proteger o objeto bom e a parte boa do ego, identificada com esse objeto bom. Então, tanto Klein (no modelo das relações de objeto) quanto  Freud (no modelo pulsional libidinal) entenderam o suicídio como uma tentativa de salvação do ego e não de seu aniquilamento, embora o resultado final seja sua morte.

     

  • Autor: Manuel José Pires dos Santos
  • Ternura: A palavra em alemão Zärtlichkeit traduzida, a partir da segunda edição, de 1989, foi atualizada. O que antes era traduzido por afeição passou a ser traduzido por ternura. Antes de definir a palavra ternura, no vocabulário de Laplanche e Pontalis (1976), os autores fazem referências à palavra ternura em outras línguas. No francês, utilizam tendresse; em inglês, tenderness; nas demais línguas, a tradução para o português é ternura.

    Laplanche e Pontalis (1976) explicam a ternura para Freud, segundo a primeira teoria das pulsões: Em oposição à sensualidade, ternura indica uma atitude para com outrem que reproduz o primeiro modelo de relação amorosa da criança, em que o prazer sexual não é encontrado independentemente, porém sempre apoiado na satisfação das pulsões de autoconservação. Laplanche (2015) revela que a ternura seria o agarramento, a necessidade de contato, o aninhamento, além da busca por calor que estão incluídos nas relações iniciais entre mãe e bebê.

    Freud (1905, 1940) destaca o valor da amamentação no seio materno e na mamadeira, servindo como modelo para todos os relacionamentos amorosos. Relaciona a importância para a capacidade de ternura da mãe ao alimentar seu bebê, com os sentimentos de ternura. Indica este vínculo como uma condição importante para a preparação da escolha de objeto. “O encontro com o objeto é, na verdade, um reencontro” (p. 209).   

    Entendo que a mãe com condições de libidinizar seu bebê, com cuidado materno terno, estará oferecendo-se como modelo de ternura e, assim, propiciando condições para ele introjetar tais sentimentos. Essa dinâmica aponta para a importância da mãe reconhecer a alteridade do filho, no decorrer do processo de seu desenvolvimento. Quando a mãe ensina seu filho a amar, está somente cumprindo sua tarefa.

    Freud (1921) pensa que há uma completa fusão de sentimentos ternos e ciumentos e de intenções sexuais, mostrando-nos de que maneira a criança faz da pessoa que ama o objeto de todas as suas tendências sexuais, ainda não centradas.  A pessoa amada é objeto das aspirações sexuais e, quando as duas correntes se unem, há uma confluência de afetos. Há a renúncia da configuração amorosa edípica do sujeito, e as aspirações sexuais ficam recalcadas restando, em relação aos primeiros objetos, laços de ternura. Quando a resolução do complexo de Édipo está a contento, a ternura passa a ser o sentimento que o filho tem pelos pais, e esse sentimento apoia a escolha de objeto, que começa a se dar nesse período. A pulsão sexual não é despertada apenas pela excitação da zona genital; aquilo a que chamamos ternura um dia exercerá seus efeitos, infalivelmente, também sobre as zonas genitais.

    Green (1988), também explica a ternura. A partir da resolução edípica, a ternura e a hostilidade se confrontam. Porém, há uma relativa independência entre as relações de ternura e de hostilidade e a organização fálica, sob a égide na qual o Édipo se coloca.  Ao concluir, de forma satisfatória, a etapa edípica, a relação de ternura pelo progenitor surgirá ligada à relação de sensualidade, censurada pela ameaça de castração.

  • Autor: Regina Pereira Klarmann
  • VIOLÊNCIA origina-se do termo violar, do latim violare: fazer ou tratar com violência; devastar, danificar um território; profanar; ultrajar. Sec. XVI e XVII: violência, do lat. Violentia: caráter violento, feroz, indomável; força violenta. Violência é o uso excessivo de força que ameace a integridade física ou emocional.

    A abordagem da violência pela neurobiologia com base em estudos interdisciplinares evidencia forte vínculo entre causas sociais e biológicas, como por exemplo, o papel da genética molecular na criminalidade e violência. Assim, um fator importante são  as relações de natureza epigenética, como   a falta de amor materno e o aparecimento de violência. A sequência de nucleotídeos do DNA permanece relativamente estável ao longo da sucessão geracional, mas as proteínas de cromatina, que envolvem o DNA, podem ser alteradas pelos aminoácidos em contato com o ambiente. As relações com o ambiente mudando a expressão genética do indivíduo, geram efeitos que se transmitem às gerações seguintes. Pesquisas recentes revelam a detecção de efeitos cerebrais em consequência de fenômenos traumáticos, tais como privação social, emocional e nutricional, de natureza precoce, em seres humanos, sofrimentos que geram redução no funcionamento do córtex orbito frontal, do córtex pré-frontal infra límbico, do hipocampo, da amigdala e do córtex temporal lateral. Estudos também demonstram que tais fatores estão associados à diminuição da conectividade na substância branca, assim como o fator “maternidade interrompida ou deficiente” gera mecanismos que levam à degeneração cerebral. Abuso sexual precoce, entre 3 a 5 anos, está relacionado com a diminuição do volume do hipocampo e na adolescência, entre 13 e 16 anos, relacionado com a diminuição do volume do córtex pré-frontal.

    Um olhar psicanalítico sobre esse conjunto de fenômenos implica lembrar das diversas violências possíveis tanto nas relações de objeto primitivas como naquelas ao longo da infância e adolescência.  Considera-se aqui as possibilidades do traumático no espaço vincular, primeiro na situação do excesso – o invasivo objeto perverso violador do self, e, segundo, nos casos de perda, ou da falta, quando o que dói é a dor do desinvestimento forçado, após a retirada de objeto libidinalmente investido, até então, disponível. Se após o traumático a vida cronologicamente continua, ainda assim é necessário, em termos do self, lidar com zonas de experiências não elaboradas, e, muitas vezes, não elaboráveis. Aqui, a tendência é a busca, através da compulsão à repetição, de relações de objeto que tendem a cristalizar, inclusive no transgeracional, saídas passivo-agressivas para aquele interjogo sado-masoquista sofrido passivamente. Por fim, é importante citar aquela maldade, ou violência, que começa nos indivíduos, vai para os grupos e pode, depois de imantar ou cooptar zonas na cultura – organizações, partidos políticos e até mesmo toda uma sociedade - estabelecer um tempo propício à toda sorte de violências. Pode-se especular que repetir-se-ia no cultural, tal qual espelho multifacetado, a fenomenologia da desumanização, descrita anteriormente na dimensão das relações de objeto.

     

  • Autor: Carlos Augusto Ferrari Filho
  • Filho de um funcionário da coroa britânica, Bion nasceu na Índia e lá viveu até seus oito anos, quando foi enviado à Inglaterra para estudar. Aos dezoito, desligou-se do colégio para lutar na Primeira Guerra Mundial. Terminada essa conflagração, Bion retomou seus estudos na Universidade de Oxford e foi durante o curso de História que entrou em contato com a obra de Sigmund Freud. Influenciado por essa leitura, resolveu aprofundar-se na compreensão do psiquismo humano, tendo cursado a faculdade de medicina de 1924 a 1930, já pensando em tornar-se psiquiatra. Em 1938, iniciou sua análise com John Rickman. Pouco depois, serviu, durante a Segunda Guerra Mundial, como psiquiatra do Exército. Durante esse período, criou uma nova abordagem dos pequenos grupos, definindo as constelações inconscientes de suposto básico e de trabalho no funcionamento grupal. Encerrada a guerra, analisou-se com Melanie Klein, de 1945 até 1953. Em 1950, foi admitido como membro associado da Sociedade Psicanalítica Britânica, onde ocupou o cargo de Presidente, de 1962 até 1965. Em 1968, mudou-se para a Califórnia, tendo lá trabalhado e lecionado por onze anos. Durante esse período, realizou várias visitas ao Brasil, onde deixou um grande número de seguidores. Em 1979, poucos meses antes de sua morte, retornou para a Grã-Bretanha.

    Dentre as várias contribuições importantes de Bion para a teoria e a técnica psicanalíticas, destaca-se a conceituação de reverie (devaneio). Em sua primeira referência a este conceito, em Uma teoria do pensamento, de 1962, diz ele: “A capacidade materna para o devaneio é o órgão receptor para a colheita das sensações de si mesmo que o bebê obtém por meio de sua consciência”.

    Bion também ampliou o conceito de identificação projetiva, de Melanie Klein, ao dizer que esse fenômeno se constitui na função mental primordial de comunicação da mãe com seu bebê. Para ele, a mente materna funciona como um continente capaz de acolher os conteúdos de aflição, hostilidade e amor do bebê e devolvê-los, sob a forma de carinhos e palavras, de modo que o bebê possa nomear, e aceitar, como suas, aquelas partes que lhe causavam sofrimento. De modo semelhante, o analista tenta qualificar-se para receber, em estado de devaneio, a angústia, a raiva e o amor de seu paciente ― em suas expressões verbais e não verbais. Após elaborar esses conteúdos, o analista fica apto a devolvê-los ao analisando, sob a forma de interpretação e outras intervenções, de modo que este possa, de maneira gradual, discriminar, aceitar e reconhecer como seus aqueles aspectos de sua personalidade que considerava perigosos e ameaçadores e com os quais manobrara cindindo-os, expulsando-os e identificando-os no objeto.

    Derivam daí, várias outras contribuições importantes: o conceito de função continente da mente, a descrição do estado mental ideal do analista durante a sessão ― sintetizada na impactante e, muitas vezes, pouco compreendida fórmula “sem memória, sem desejo, sem compreensão” ― e a ideia do conhecimento e da verdade como ‘alimentos para a mente’.   

  • Autor: Juarez Guedes Cruz