Sob esse título, o Dr. Donald W. Winnicott - pediatra, psiquiatra e psicanalista infantil - proferiu três palestras onde demonstra sua sensibilidade no trato com as crianças e seus pais. Inicialmente, mostra-nos um diálogo entre algumas mães, onde estas trocam espontaneamente idéias sobre seus filhos. A partir desse diálogo, que, segundo o autor, "É simplesmente o modo como vocês discutiriam o mesmo assunto", ele discrimina três etapas do DIZER "NÃO" , de acordo com a idade (capacidade) das crianças. Salientando que essas etapas se sobrepõem parcialmente, ele escreveu: "A etapa um tem lugar antes que você diga "não"; o bebê ainda não entende e você tem o controle absoluto, e deve tê-lo. Você assume plena responsabilidade, uma responsabilidade que vai diminuindo mas só termina quando o filho atingiu a idade adulta..." O autor nos diz que essa etapa começa com a mãe, mas o pai logo participa. O "não" é dito pelos pais ao mundo: "não, não se aproxime, fique fora do nosso círculo...", formando uma barreira de proteção. Esse "não" pode ser deliberado, mas ele manifesta-se num comportamento, nos próprios corpos, que refletem uma atitude mental. "O bebê sente-se seguro e absorve a confiança da mãe em si mesma, escreve o Dr. Winnicott, "... como se estivesse ingerindo leite." "Se um dos pais fica assustado, então algo cruzou a barreira e faz mal à criança." Nessa primeira etapa, portanto, os pais são totalmente responsáveis pelos filhos e justamente essa responsabilidade faz a diferença que vai existir pelo resto da vida entre pais e filhos. A segunda etapa inicia-se quando a mãe, ao invés de dizer "não" ao ambiente, diz "não" ao bebê. Os pais vão apresentando gradualmente o bebê à realidade e a realidade ao bebê, através de "SIM" e "NÃO". Segundo o Dr. Winnicott, "não é verdade que a primeira etapa é em seu todo um grande "sim" ? " Isso porque a mãe nunca falta ao bebê, nunca o deixa sofrendo graves necessidades. Isso é um grande e t?cito "sim" e confere uma base sólida para a vida do bebê no mundo. Deixa claro que mesmo essa dedicação está entremeada de frustrações que também são importantes para o bebê. Ele nos alerta de que a coisa é bem mais complexa, porque logo o bebê, por sua própria natureza, torna-se agressivo e desenvolve idéias destrutivas e então essa fácil confiança do bebê em sua mãe modifica-se, e a mãe, por sua vez, também não fica amistosa com seu bebê. Outro aspecto destacado pelo autor nestas palestras, é que o "não" da mãe é também o primeiro sinal de pai. Embora o pai esteja junto e participe nos cuidados tanto quanto a mãe, parece-lhe que o pai aparece pela primeira vez no horizonte do bebê através do aspecto inflexível da mãe que diz "não" e sustenta com firmeza. Nessa segunda etapa, o "não" ainda não se acompanha de explicações. Ele é transmitido de várias formas: através de um "Brhhhh..."; franzindo a testa; torcendo o nariz; dizendo "não"..., enfim, cada pai e mãe tem seu jeito. Ele pensa que se a mãe é uma pessoa feliz encontrará facilmente o seu modo de colocar o "não". Porém, às vezes as mães não estão em condições favoráveis porque tem grandes dificuldades pessoais, ou tem maridos que estão longe, ou que não fornecem um apoio adequado, ou que interferem, são até ciumentos, ou não tem maridos, ou estão em condições de pobreza... enfim, situações que impedem a mãe de ter uma visão ampla de qual deveria ser o seu papel. Essas mães infelizes, nos diz o autor, podem ser propensas a exagerar o lado carinhoso no trato com o bebê e, por vezes, dizem "não" apenas porque estão irritadas. E isso vai repercutir no bebê. A terceira etapa, segundo o Dr. Winnicott, é quando é possível dar explicações. Isso pode aliviar muito os pais, porém " a base de tudo é certamente o que aconteceu antes". Através desse diálogo entre as mães, percebe-se que é na vivência de momento a momento que todo o trabalho importante é feito. Não há lições nem prazo estabelecido para aprender. A lição chega com o modo como as pessoas envolvidas se descobrem reagindo. Porém, ele salienta, "nada absolve a mãe de bebês e crianças pequenas de sua tarefa de eterna vigilância". Finaliza escrevendo que "as crianças pequenas gostam que se lhes diga não. Elas não gostam de lidar sempre com coisas amenas e macias; também gostam de pedras, paus e chão duro, e gostam que se lhes diga quando devem cair fora, tanto quanto de serem mimadas". |