Freud, há um século, escreveu um texto básico denominado "Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade" que segue sendo um documento fundamental sobre o tema da sexualidade infantil. Expandido em vários aspectos e por muitos autores, no entanto, mantém-se, conceitualmente, inalterado. Vem de Freud o entendimento básico da distinção entre sexual e genital. Se rastrearmos a sexualidade do adulto até sua origem na criança, podemos seguir a linha das mais variadas formas de busca de prazer e realização do ser humano. Partimos do nascimento: O bebê encontra-se em estado de total dependência de alguém que o cuide para sobreviver. Denominemos este cuidador de "mãe" por ser esta a ordem natural das coisas. A mãe atende o bebê na medida em que se torna capaz de identificar-se e procurar compreender o que o seu bebê necessita. Quando a saúde prevalece, entre ambos vai se construindo uma intimidade carregada de sentimentos e emoções. No descobrimento mútuo estabelecem ritmos, códigos, se olham, se cheiram e se buscam. O leite, vital para a sobrevivência, fluindo do seio ou da mamadeira estabelece uma relação corporal, oral ou labial. Freud denominou esse período inicial da vida de fase oral. A boca torna-se a zona erógena. É como se o bebê tentasse compreender o mundo e estabelecer relações levando tudo a boca para chupar, sentir, lamber, morder. A libido - que é a energia vital - vai investindo mais e mais coisas e pessoas. O que vai sendo assimilado tem um significado erotizado ou sexual. O prazer em descobrir e em "botar para dentro", a voracidade para assimilar coisas, a dependência do adulto, tem sua raiz nesta primeira relação amorosa. Denominamos a isso de relação de objeto. O protótipo é o estado de satisfação da união boca-seio. Este estado vai sendo representado, vida a fora, de múltiplas maneiras. A mãe, que tem uma vida própria e não pode permanecer onipresente, apresenta o limite. Surge o pai, um novo objeto de amor e rivalidade. No mundo interno da criança vai se construindo, passo por passo, a fantasia que essas duas figuras se relacionam entre si e isso gera um modelo do funcionamento do universo. A criança cresce, o predomínio oral vai dando lugar a novas zonas erógenas: a anal e a f?lica. A tendência do adulto de acumular, segurar, controlar, cuidar, limpar e assim por diante, está alicerçada no erotismo anal da infância. Na sequência, a menina encontra no pai seu ideal sexual e o menino, na sua mãe. O psiquismo faz enormes avanços elaborando as barreiras a esses objetos sexuais - a mãe e o pai. A ternura vai prevalecendo sobre os desejos sexuais. O declínio e inibição sexual permitem a entrada no período da latência. Essa renúncia edípica coloca grandes quantidades de energia - libido e agressividade - a disposição para ser canalizada, sublimada. Agora, a criança em idade para iniciar a alfabetização drena sua energia e seu interesse em múltiplas atividades que impulsionam o desenvolvimento. De forma simples podemos dizer que o interesse sexual pode ser investido em novos objetos. Entendemos então que objetos são pessoas, pensamentos, conhecimentos, áreas de interesse nas quais a criança investe libido. Esses objetos são novas representações e símbolos daqueles originais formados pelo par mãe-pai que agora está internalizado e "gera" novos conhecimentos que expandem o desenvolvimento. Finalmente, quando a criança chega à puberdade - um período de grande crescimento físico e transformações resultantes do sistema hormonal, a sexualidade, ao natural, re-desperta. Denominamos de adolescência o fenômeno psíquico que se instala. Agora, há uma condição física para a genitalidade e um ego capacitado a desviar os interesses sexuais exogímicamente. A sexualidade infantil agora tem barreiras aos objetos sexuais originais (mãe e pai). Surgem as brigas, confrontos, o fechar-se no próprio quarto de um lado e a busca de pares (os grupos) de outro. De forma abreviada, vejamos um aspecto fundamental da teoria da sexualidade: a genitalidade exerce um primado que engloba e abarca a sexualidade infantil composta de elementos das várias zonas erógenas e a migração da libido através das mesmas. A sexualidade infantil é uma força poderosa que deixa seu registro de antigas fontes de satisfação e renúncia para o encontro de novas formas de prazer e realização.