Não conheci nem o Cazuza nem seus pais. Portanto, o que escreverei aqui baseia-se exclusivamente no filme que, como sabemos, pode ter inúmeras licenciosidades artísticas. Evidência disso, aliás, É o que já escreveu o Ney Matogrosso dizendo que a história não foi bem esta. Então, permitam-me que discorra sobre os personagens do filme. Para início de conversa, fica claro, desde o título, que o personagem principal tinha uma questão com o tempo. É muito acelerado e sua vida transcorre a milhão. Para nós, psiquiatras, isso faz com que pensemos em transtorno bipolar de humor, hipótese que se fortalece quando outros casos semelhantes são encontrados na família. Apenas que com o Cazuza ainda não podemos fazer esse diagnóstico devido às múltiplas drogas que usava e as usava em quantidades oceânicas. Para um diagnóstico de certeza de bipolaridade necessitaríamos de uns 3 meses de abstinência de todas as drogas, coisa que o personagem não nos deu. Fiquemos pois no terreno das hipóteses: transtorno bipolar de humor e dependência de maconha e cocaína. Uso nocivo de álcool é outra hipótese que merece atenção. Posto isso, o que o psicanalista poderia acrescentar? Cazuza tinha com sua mãe uma relação de simbiose, onde, por vezes, alimentavam a sensação de serem um só. É ilustrativo o fato de que quando está morrendo, grita que quer voltar para onde tinha vindo, faz-se levar para o mar, para a água, simbolicamente para o útero de sua mãe. Mesma mãe que em outra cena emblemática leva-lhe a gasolina, pois a do carro dele acabara. Parece mesmo que mãe e filho permaneceram fundidos por esta crença materna que se não fosse por ela a gasolina de Cazuza acabaria. No que deu? Deu que quando tornou-se grandinho foi procurar outras gasolinas e as encontrou nas drogas. E o pai? Que pai, é de se perguntar. Distante, frio, e quando aparece, é para colocar seu filho, ainda adolescente, sob cuidados de um auxiliar drogado, ele também muito acelerado. O fato deste ser homossexual, no contexto, é questão irrelevante. A importância para mim do filme Cazuza é podermos nos dar conta desta constelação familiar de excessiva maternagem e falta de paternagem, ocorrência freqüente em nossos dias. A partir desta constatação poderemos construir uma metáfora capaz de esclarecer algo sobre nosso tempo. Em Porto Alegre, nos últimos 15 anos, o consumo de todas as drogas, por parte dos adolescentes, aumentou muito, como demonstram os dados já publicados em outra oportunidade. Inspirados no Cazuza temos que propor uma retomada para que junto com compreensão e acolhimento, possamos resgatar os limites tão necessários para a estruturação de uma personalidade sadia. É de se propor mais pai em casa, mais pai na escola, mais pai nas ruas de nossa cidade. Se alguém tiver ainda alguma dúvida sobre o que essa carência de pai acarreta, que vá assistir o filme. Cazuza, querendo confundir o pai, diz que existe o certo, o errado e tudo o resto. Nós adultos, pais e professores, não podemos nos deixar levar por este jogo de palavras, aparentemente poético-filosófico tão a gosto dos adolescentes. Nãs temos o dever de saber o que é certo e o que é errado, mesmo tendo o direito de por vezes errar. |