A geração adolescente da década de 1960 revolucionou a noção do ser adolescente. Esta geração foi influenciada pela descoberta da pílula anticoncepcional, pela revolução da era Beatles e adotou um jeito próprio de vestir, nunca tão caracterizado pela juventude como então. Os jovens daquela época, agora 45 anos mais tarde, enfrentam o "repuxo" daquela onda, a adolescência de seus filhos. Filhos que numa nova onda, vivem inseridos em outro contexto sócio-econômico-cultural muito diferente de seus pais, como foi na década de 60. Conviver com filhos adolescentes na atualidade implica em alguma capacidade para lidar e conter várias ansiedades, na tentativa de propiciar certo equilíbrio, que envolva noções bem estabelecidas sobre espaços privados, familiares e públicos. Na adolescência a tarefa emocional prioritária é o estabelecimento de uma identidade, diferente do jeito de ser da infência. O mundo emocional da criança é fundado especialmente no relacionamento com a mãe, mas também com o pai e permeado pelos modelos que eles oferecem aos filhos. Existe na criança importante dependência e necessidade de apoio por parte dos pais. A partir das mudanças corporais da puberdade, surgem conflitos intrapsíquicos de dimensões variadas, podendo ser mais ou menos amplos. As experiências infantis precisam ser reorganizadas quando chega a adolescência. O jovem adolescente vive mobilizado por intensas ansiedades associadas a busca da identidade. Estabelecem novas relações além do ambiente protegido do lar, quando em condições ideais, este existe. Entretanto, o espaço público contemporâneo, onde o jovem vai ampliar suas relações, também se encontra em busca de uma nova ordem. Várias instituições (casamento, escola, relações sociais, etc.) estão em crise e por conta disso, acolhem e protegem menos do que em décadas anteriores. Assim, o adolescente que não usa drogas já encontra um desafio na tentativa de compor um todo mais ou menos coerente, no seu espaço privado, íntimo, que possibilite o desenvolvimento da sua subjetividade ou da nova identidade. Quando um jovem usa drogas, revela que a tarefa emocional deste período - o estabelecimento da identidade - está em risco. Mas o não estabelecimento da nova identidade impede o desenvolvimento de uma vida emocional criativa. Provavelmente este jovem que faz uso de drogas, ainda que de forma sutil, procurou apoio, âncoras externas, mas estas não foram suficientes para conter a demanda emocional dele/a naquele momento. Por isso, nos casos em que existem problemas com drogas, um ponto de partida para se lidar com esta complicada questão, requer a compreensão de que após tentativas de integração frustradas, com o uso de drogas o jovem dá um grito mudo, às vezes ensurdecedor, de um pedido desesperado de ajuda. Se nosso ouvido, não for capaz de sintonizar na frequência sonora deste grito, perde-se, mais uma vez, a oportunidade de desenvolver uma subjetividade por vir. Neste sentido Winnicott, um psicanalista que iniciou sua carreira na pediatria, colocou de forma simples, mas profunda que a conduta anti-social implica em esperança. O abuso e a dependência de drogas estão freqüentemente associados a comportamentos anti-sociais. Desta forma, sempre há uma esperança por parte do jovem que usa drogas de ser ouvido na sua angústia e de algumas compreensões serem atingidas. É dentro desta perspectiva que entendo as circunstâncias que envolvem o uso de drogas por parte dos jovens adolescentes, que em alguns casos, nunca superam o período da adolescência rumo à maturidade emocional. |