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O AMOR AO LONGO DA VIDA
Alda R. D. de Oliveira
 
 
As relações desenvolvidas no mundo interno de cada pessoa são a sua base para a construção de seus relacionamentos com outros no mundo externo. Quando o ser humano atingir seu desenvolvimento pleno, o amor e o sexo deverão encontrar-se amalgamados. A capacidade de amar não nasce pronta. Inicialmente, ela está totalmente voltada para o si mesmo; uma forma de egoísmo necessária para a sobrevivência do bebê. Nesse momento inicial da vida, não há a distinção entre o eu e o outro, portanto não há um relacionamento de fato entre duas pessoas. Esse amor é possessivo e exige que o outro exista somente para satisfazer os desejos e necessidades do eu, mesmo que isso implique na anulação do outro. Com o desenvolvimento, ocorre a descoberta de si mesmo e do outro como seres separados e com vidas próprias, iniciando-se efetivamente um relacionamento interpessoal. Essa segunda forma de amar será baseada no reconhecimento do quanto cada um depende do outro e na consideração e respeito mútuos. Da individualidade de cada um, com sua independência e liberdade possíveis, vão surgindo os novos aportes que promovem o enriquecimento da dupla. A capacidade de amar pode, por fim, desenvolver-se e expressar-se com toda a riqueza e força de cada um: amor, ternura, carinho, gratidão, reconhecimento, saudade... Costumamos, porém, com muita frequência, funcionar aquém dessa descoberta e tratar os outros como se existissem para nós. Essas formas de amar serão utilizadas em quantidades variáveis em cada pessoa, a cada momento, em cada relacionamento. A sexualidade, que envolve no ser humano necessariamente o conjunto mente/corpo, expressará sempre um resultado singular dependendo da forma de amar que está em jogo. Na infância, a sexualidade expressa-se no corpo através de jogos envolvendo a excitação das áreas sexuais genitais. Nesse momento a proteção gerada pela relação amorosa dos pais entre si e com os filhos é essencial e serve como modelo para que não haja no futuro uma supervalorização do sexo ou uma idéia de que é algo feio, sujo e perigoso. Na adolescência, os hormônios determinam um salto no desenvolvimento físico dando ao corpo adolescente uma sensualidade que está longe de corresponder ao desenvolvimento psíquico, requerendo novamente muita proteção dos pais. O corpo sofre uma grande valorização; é o momento em que as situações de abuso por parte dos adultos ficam mais perigosas, porque há uma sedução natural no adolescente. E geralmente é nessa fase evolutiva de grande turbulência, onde tudo parece querer acontecer ao mesmo tempo em uma só pessoa, que tem início as relações sexuais. Começamos sem estar prontos; as experiências que vivemos, com as satisfações e sofrimentos que nos proporcionam, vão nos aprontando para novas tarefas que virão a seguir, com o andar do ciclo vital. No adulto jovem, o exercício da sexualidade envolvendo a sensualidade e o amor permite a satisfação e aprimoramento das capacidades para a geração de filhos, visando a construção de suas famílias. Na chamada terceira idade, há novamente uma grande mudança hormonal em ambos os sexos, determinando uma modificação no valor que é dado ao corpo e, portanto, na expressão da sexualidade. As relações sexuais diminuem em quantidade e crescem em qualidade. A capacidade de amar, no que se refere ao amor dedicado ao parceiro do relacionamento sexual, é posta à prova como em nenhum outro momento da vida de um casal. Aqui se dá grande número de separações, quando o relacionamento estava mais baseado no prazer sensual e havia pouco amor. Como um todo, o corpo vai sofrendo um retraimento. É fundamental nesse momento da vida a qualidade dos vínculos amorosos construídos ao longo de todo o ciclo vital, para podermos vivenciar um envelhecimento seguro e compartilharmos afetivamente este período com os outros. Entretanto, ainda é um momento oportuno para que, quem ainda não descobriu o valor do amor, possa então fazê-lo, garantindo para si um envelhecimento compartilhado. Algo que nunca deveríamos esquecer: que facilmente caímos na forma de amar primitiva e que esse não é um relacionamento com o outro, mas com nós mesmos.
 
 
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