EDITORIAL
A feitura de uma revista exige um trabalho
de equipe intenso e harmônico. Gostaria de abrir
este editorial enfatizando o meu privilégio por
poder contar com as pessoas que compõem a Comissão
Editorial da Revista de Psicanálise da SPPA. Uma
boa equipe de trabalho facilita muito a função
do editor.
Dentro desta perspectiva é com grande satisfação
que inauguro este número tecendo um agradecimento
à nossa editora executiva, a colega Luciane Falcão,
por sua iniciativa em trazer o Dr. Paul Denis à
nossa Sociedade e à nossa Revista para um frutífero
convívio de poucos dias.
O Dr. Paul Denis é um psicanalista francês,
didata da Sociedade Psicanalítica de Paris, Editor
da Revue Française de Psychanalyse durante oito
anos. Esteve conosco no mês de agosto quando nos
brindou com uma belíssima conferência, O
poder da pulsão, que publicamos neste número.
Neste trabalho, o autor sugere que a pulsão se
organiza a partir de um duplo investimento no objeto:
como domínio e como satisfação. Quando
há a satisfação, o objeto é
desinvestido de domínio e predomina a marca do
objeto como satisfação. Diz ele: “A
combinação entre a imagem em dominação
e o colorido da satisfação constitui a representação
no sentido pleno”.
Além da conferência fomos também agraciados
com uma generosa entrevista com o Dr. Denis na qual ele
se dispôs a nos transmitir muito de sua experiência
como Editor da revista francesa. Publicamos na íntegra
esta entrevista, pois estamos convencidos que contém
importantes informações a todos aqueles
que gostam de escrever sobre psicanálise e publicar.
Outra significativa iniciativa foi da nossa editora de
redação, Dra. Gisha Brodacz, por nos apresentar
uma autora até então desconhecida para a
maioria de nós, Dra. Irene Ruggiero, psicanalista
italiana que Gisha conheceu em Berlim no último
congresso da IPA. Ruggiero nos enviou um trabalho a respeito
dos efeitos na capacidade simbólica de adolescentes
criados em ambientes familiares muito perturbados. Estes
pacientes com freqüência apresentam comportamentos
autodestrutivos compulsivos como forma de evacuar a dor
mental, criando problemas contratransferenciais importantes
para o analista.
Também dentro da temática psicanalítica
a respeito da infância e adolescência, trazemos
o trabalho do Dr. James Herzog que, na mesma linha de
questionamento de Ruggiero, examina a importância
da relação parental na constituição
mental do indivíduo. Propõe que um bom relacionamento
entre os pais e a representação desta suficientemente
boa relação entre o casal de pais é
um fator protetor para o desenvolvimento saudável
do self da criança.
O texto A função limite da psique e a representância,
de autoria de René Roussillon, busca refletir sobre
algo que, segundo o autor, “representa atualmente
uma das conjunturas mais propícias à investigação
psicanalítica tanto clínica e técnica
quanto propriamente metapsicológica”. Considera
que a questão dos limites, nas patologias neuróticas,
é garantida pelo próprio funcionamento psíquico.
Já nas problemáticas narcísicas,
nas quais a análise dos limites pode significar
a análise nos limites, a função de
manutenção dos limites pode passar ao primeiro
plano do exame do funcionamento mental.
A palavra no setting é o texto de Laurent Danon-Boileau,
que corresponde à sua fala apresentada no 67º
Congrès dêe Psychanalystes de Langue Française
em maio de 2007. Salienta que a análise transcorre
através da linguagem num dispositivo com regras:
o setting. A representação de palavra não
somente impõe sua continência e seus limites
aos processos inconscientes que aí se desenrolam,
mas também garante o desenvolvimento destes processos.
Afirma que a palavra “é, antes de tudo, condutora
de energia. Favorece a ressonância de dois inconscientes.
Sincroniza a pulsação das representações
destes”.
É prata da casa o próximo autor que publicamos.
Originalmente apresentado na Mesa Redonda Neutralidade
e abstinência ontem e hoje no XXI Congresso Brasileiro
de Psicanálise, o texto de Luciane Falcão
discute aspectos relacionados às modificações
e evoluções dos conceitos de neutralidade
e abstinência. Para a autora, o conceito de neutralidade
segue válido ainda hoje no que se refere às
ações dos analistas. Ressalta, porém,
que a psicanálise atual exige a inclusão
da mente do analista como parte fundante e fundamental
do processo.
O Dr. Arnaldo Chuster, analista didata da Rio-4, é
um querido amigo que tem nos honrado com seus trabalhos.
Neste número trazemos um texto já apresentado
internacionalmente, em 2005, em Seatle e Los Angeles.
A presente versão foi apresentada em fevereiro
de 2007 no Arizona Institute of Psychoanalysis. As origens
do inconsciente: arcabouços da mente futura é
um ensaio sobre a metodologia analítica na investigação
de estados mentais mais primitivos examinados à
luz das idéias de Freud e Bion principalmente.
Partindo do exame da origem das coisas que estão
no inconsciente e as origens do inconsciente em si, através
da análise dos movimentos psíquicos de expansão
e repetição respectivamente, sugere um inconsciente
que vai além do proposto por Freud.
Doutora em Psicologia pela Universidade de Brasília,
Tatiana Lionço nos oferece um trabalho muito interessante
e bem escrito. Partindo da analise da constituição
da subjetividade, basicamente fundamentada em Freud, examina
a constituição do eu como instância
unívoca que tem no seu âmago a tensão
entre o narcisismo e as identificações bem
como a relação entre o soma e a psiquê.
Utilizando uma vigneta, a autora exemplifica como o indivíduo,
nesta delicada trajetória de se constituir num
sujeito, precisa harmonizar aspectos identificatórios
nem sempre integráveis, como podem ser as identificações
masculinas e femininas, em determinadas circunstâncias
da vida do infante.
É com particular entusiasmo que apresento o trabalho
de Luiz Alfredo Carvalho e Ricardo Kubrusly. O primeiro
é Professor Titular do Instituto Luiz Coimbra de
Pós-graduação e Pesquisa da UFRJ
e o segundo é Professor Adjunto do Instituto de
Matemática da UFRJ. Dois autores não psicanalistas
que nos oferecem uma importante contribuição
aos aspectos de raciocínio lógico-matemático
fundamentais para a compreensão crítica
do texto de Lacan. Segundo estes autores, Lacan, em um
trecho de seu escrito no Seminário da Carta Roubada,
“induz o leitor a considerar absolutos resultados
que, infelizmente, possuem restrições quanto
a generalizações”.
Antes de concluir este editorial gostaria de aproveitar
a oportunidade e fazer uma correção referente
a um engano que cometemos no número anterior da
Revista. A Dra. Maria Cecília Pereira da Silva
nos escreve informando que ela não é analista
didata da SBPSP como nós a apresentamos. Ela é
membro docente.
Buscamos compor para os nossos leitores um número
repleto de escritos ricos e punjantes de idéias
e reflexões. Esperamos tê-lo conseguido.
A todos uma boa leitura.
Anette Blaya Luz
Editora da Revista de Psicanálise da SPPA