Editorial
Anette Blaya Luz
Editora da Revista de Psicanálise da SPPA
Após muitos anos fazendo parte do Conselho Editorial
da Revista de Psicanálise da Sociedade Psicanalítica
de Porto Alegre, é com muito orgulho e satisfação
que aceitei a prestigiosa e desafiante tarefa de ser a
editora. Agradeço à diretoria da SPPA a
confiança em mim depositada. É sempre muito
lisonjeiro um convite desta natureza. Ao mesmo tempo,
sei da responsabilidade que é manter o alto nível
científico da Revista que foi conquistado pelos
editores que me antecederam.
Para a realização dessa tarefa, conto com
o dedicado e incansável apoio da equipe que constitui
a Comissão Editorial e, desde já, deixo
aqui expressos meus agradecimentos a todos. Da mesma forma,
convoco e, antecipadamente, agradeço a valiosa
contribuição dos membros dos Conselhos Consultivo
e de Revisores, bem como dos colegas que nos honram com
sua oferta de trabalhos. A feitura de uma revista é
sempre uma tarefa de equipe, e não poderia aceitar
esse compromisso sem a ajuda de todos. A todos, o meu
muito obrigado pelas prestimosas colaborações.
Nossa revista, sempre atual e atenta aos problemas da
comunidade em que nos inserimos, tanto nacional como internacionalmente,
não pode deixar de registrar com preocupação
e pesar a recente morte, veiculada em toda a mídia,
da jovem modelo vítima de anorexia nervosa aos
vinte e um anos. A adolescência é sempre
motivo de preocupação para pais e demais
responsáveis pelos jovens.
A falta de uma capacidade simbólica bem estabelecida,
desumanizando as relações do indivíduo
com seus pares e consigo mesmo dentro de seu próprio
self, produz uma desesperada busca por satisfações
físicas ou materiais. Tais satisfações
nunca podem trazer plenitude à psiquê, engano
freqüentemente cometido por muitos adolescentes que
nos procuram.
Atenta a essas preocupações, a Sociedade
Psicanalítica de Porto Alegre realizou, em junho
de 2006, o VIII Simpósio da Infância e Adolescência
da SPPA. Durante o simpósio, tivemos o prazer de
receber em nossa sociedade o psicanalista Álvaro
Nin, membro titular da Associação Psicanalítica
do Uruguai.
Alguns dos trabalhos que Nin apresentou e discutiu nessa
ocasião encontram-se publicados neste número,
bem como trabalhos de dois colegas da SPPA, Ingeborg Bornholdt
e Raul Hartke, que também participaram com contribuições
importantes.
No artigo Jogos de vida – jogos de morte na adolescência,
Álvaro Nin examina a difícil situação
adolescente em que “se unem as problemáticas
do narcisismo e do Édipo: o narcisismo com suas
vergonhas e fragilidades da auto-estima (...) e o Édipo
com o ressurgimento da conflitiva sexual”. Propõe,
a exemplo de Peter Bloss, que se trace uma “linha
de continuidade na qual a comunicação da
criança passa pelo brincar, a comunicação
do adolescente passa pela ação – que
pode ser tanto um jogo de vida quanto de morte - e a comunicação
do adulto passa pela linguagem, incluindo seus aspectos
pré-verbais, paraverbais, simbólicos, de
interlocução, sem descartar os modos de
expressão da infância e da adolescência
na maturidade”.
Já no texto intitulado Algumas peculiaridades no
tratamento psicanalítico de pacientes adolescentes,
Álvaro Nin explora as dificuldades e peculiaridades
do atendimento psicanalítico de adolescentes. Enfatiza
a importância de alguns aspectos da personalidade
do analista que são fundamentais para que o tratamento
desses jovens possa ser bem conduzido. A sensibilidade
e a flexibilidade são algumas dessas características
que, se o terapeuta apresenta, facilitam o estabelecimento
e a evolução do processo analítico.
Sugere que, contratrans-ferencialmente, o analista precisa
deslocar sua atenção para o como e quando
intervir, em detrimento de suas possibilidades regressivas
na atenção flutuante.
Ingeborg Bornholdt, analista de crianças e adolescente
de nossa casa, apresenta interessante contribuição
a respeito do brincar das crianças. Enfatizando
que o brincar destas apresenta duas características
principais: crianças com tendências à
ação, super-estimuladas e excitadas, de
um lado, e desmotivadas, com tendências à
inibição da capacidade de brincar por outro.
Faz uma reflexão a propósito dos prejuízos
que o brincar tem sofrido na sociedade atual.
Outro analista criativo, Raul Hartke, nos brindou com
o trabalho A experiência do brincar e o espaço
analítico na psicanálise de adultos. Não
sendo um analista de crianças, Hartke, utilizando-se
dos conceitos de Winnicott a propósito do brincar
e do espaço potencial, tece ricas considerações
sobre possíveis situações que levariam
ao colabamento desse espaço peculiar.
Dentro das mesmas preocupações que salientei
acima, referentes aos assuntos relacionados à adolescência,
encontramos no trabalho de Ruggero Levy um exame muito
atual das funções que os blogs e a internet
como um todo podem estar desempenhando tanto no processo
adolescente normal como no patológico.
Além desses aspectos, este número retrata,
também, a visita de um ilustre convidado, Stefano
Bolognini, que esteve entre nós em maio de 2006.
O leitor poderá conhecer um pouco do perfil deste
psicanalista italiano lendo a entrevista que publicamos.
Bolognini apresentou três excelentes conferências
que reproduzimos aqui na Revista. Dois desses textos são
especialmente dedicados ao tema da empatia psicanalítica,
assunto que ele estuda há vinte anos.
Em Complexidade da empatia psicanalítica: uma exploração
teórico-clínica e Mal-entendidos em empatia:
o que é específico na experiência
de compreensão na análise, o autor busca
esclarecer as diferenças entre a empatia psicanalítica
e a natural. A psicanalítica “refere-se a
uma condição de bom funcionamento complexo
que simplesmente não se verifica com muita freqüência”
e que não pode ser conquistado através da
vontade consciente do analista. Propõe que insight
e empatia possam ser encarados como fenômenos relacionados
respectivamente ao intrapsíquico e ao interpsíquico.
Junto a esses dois artigos, publicamos o cuidadoso comentário
que o colega Zelig Libermann fez a propósito do
tema..
Num terceiro trabalho, Todas as vezes que: a repetição
entre o passado, o presente, o futuro temido e o futuro
potencial na experiência analítica, Bolognini
sugere o interessante conceito de consubstancialidade.
Nossa colega Viviane Mondrzak participou de mesa-redonda
ao seu lado, trazendo provocações e questionamentos
que muito enriqueceram essa noite de discussões
científicas e que se encontram aqui publicadas.
Finalizando, a Revista também publica neste número
um provocante trabalho de Brusset, intitulado Metapsicologia
do vínculo e “terceira tópica”?
Trata-se de uma versão resumida do que foi apresentado
por Bernard Brusset como um dos relatórios do 66º
Congresso de Psicanalistas de Língua Francesa,
ocorrido em maio de 2006 em Lisboa. Nosso agradecimento
especial à colega Luciane Falcão que, por
ter sido uma das tradutoras oficiais do congresso, nos
facilitou o acesso a esse texto tão estimulante.
Desejo a todos uma boa leitura.