EDITORIAL
Anette Blaya Luz
Editora da Revista de Psicanálise da SPPA
A Revista de Psicanálise da Sociedade Psicanalítica
de Porto Alegre vem obtendo ótima aceitação
entre leitores e comunidade científica tanto por
sua apresentação e cuidados editoriais como
pela qualidade do material publicado. Aumentam as solicitações
de assinaturas provenientes de diversas localidades de
nosso país e de números específicos
por leitores de outros países. Esse reconhecimento
nos gratifica como instituição e, em nome
do conselho editorial, nos sentimos felizes, vendo recompensado
o esforço de todos os envolvidos no processo de
sua composição. Nossa meta visa ao aprimoramento
e à consolidação da Revista, de modo
a possibilitar ao leitor, cada vez mais, o prazer de ter
acesso a textos de qualidade publicados com zelo particular.
Dando continuidade a essa meta iniciamos o primeiro número
deste ano com uma seção especial sobre Sándor
Ferenczi. E por que Ferenczi? O tema nos ocorreu não
só em função do último congresso
da Associação Internacional de Psicanálise
realizado no Rio de Janeiro em 2005, mas também
pela mobilização que a realidade da violência
e da relação com os outros exerce na configuração
do psiquismo. Tema que emerge imediatamente face à
experiência do traumático na atualidade do
Brasil e do mundo afora e que alerta para a urgência
de os psicanalistas contribuírem com elaborações
teóricas e técnicas na melhoria de vida
dos seres humanos sujeitos a tão extremas configurações
sociais.
Assim publicamos o texto fundamental de Sándor
Ferenczi, Confusão de línguas entre os adultos
e a criança. A linguagem da ternura e da paixão,
no qual o autor destaca a importância da desmentida
imposta pelo adulto à tentativa feita pela mente
da criança de compreensão do trauma. Franco
Borgogno, em A longa onda da catástrofe e as condições
da mudança psíquica no pensamento clínico
de Ferenczi, sublinha por sua vez, a partir do conceito
de catástrofe, a importância da relação
analista/analisando para propiciar a mudança psicoestrutural
do sujeito. Importância resultante das qualidades
humanas e psicológicas do analista ao se deixar
parasitar pelo sofrimento do analisando e tolerar o sofrimento
com paciência necessária para o desenvolvimento
do psiquismo do analisando. Luis Jorge Martin Cabré,
com o texto Sándor Ferenczi. A revalorização
da teoria psicanalítica do trauma, discorre sobre
a concepção ferencziana do trauma na qual
a relação com o objeto externo, ocasionando
processos de identificação com o agressor
e cisão do ego, é de fundamental relevância.
Cabré aborda também a controvérsia
Freud-Ferenczi destacando com olhar minucioso as descobertas
deste último, decisivas ao resgate e ampliação
de alguns dos importantes achados freudianos da teoria
da sedução. Concluímos essa seção
com o texto de Anette Blaya Luz, Confusão de línguas
entre Freud-Ferenczi, em que a autora assinala a atualidade
do pensamento de Ferenczi e aborda a conflitiva Freud-Ferenczi
como conseqüente a uma confusão de línguas,
razão, ainda hoje, de uma trama de debates intensos
no seio da psicanálise.
Julgamos muito oportuno que a seqüência de
artigos publicados incluísse Uma explicação
da gênese do trauma no quadro da Teoria do Protomental,
de Antonio Imbasciati, em que o autor propõe o
entendimento da gênese do trauma como decorrente
de um defeito na construção da rede símbolo-poiética
que constitui a estrutura funcional da mente relevante
do indivíduo.
Na seqüência, em Sexualidade oral e eu corporal,
Geneviève Haag demonstra, através de exemplos
clínicos e naturalísticos, o desenvolvimento
primitivo do ego corporal, destacando que, mesmo que os
desenvolvimentos psicanalíticos na compreensão
do desenvolvimento do ego corporal se apresentem profundamente
marcados pelos processos identificatórios e de
representação primitiva, eles estão
integrados com a teoria pulsional de Freud e da sexualidade
oral.
Joseph Aguayo, em Continuidade e mudança na evolução
do pensamento pós-kleiniano em Londres: o trabalho
clínico de John Steiner, Ronald Britton e Michael
Feldman (1988-2004), expõe uma visão do
desenvolvimento pós-kleiniano como um novo padrão
de pensamento clínico, assinalando que o produto
dessa evolução é uma teoria do trabalho
clínico na visão microscópica do
aqui-e-agora da sessão psicanalítica.
Em Quem tem medo de Melanie Klein? Ou continuidade e ruptura:
comentários ao estudo dos pensamentos de J. Steiner,
M. Feldman e R. Britton, Elizabeth Lima da Rocha Barros
discute o trabalho de Joseph Aguayo à luz da evolução
da teorização proposta pelos kleinianos
contemporâneos e ressalta a ampliação
do conhecimento psicanalítico proposto pelos autores
citados num processo detalhado de observação
e experimentação resultante dos problemas
clínicos deparados ao longo do tempo. Refere que
o trabalho de Aguayo também ilustra um modo de
compreender uma parcela importante da história
da psicanálise.
Em Merci pour le chocolat: genealogias e simulacros, Clarice
Averbuck trata da temática da verdade, da mentira,
do conhecimento e da perversão utilizando uma interpretação
do filme Merci pour le chocolat de Claude Chabrol.
Concluímos entrevistando Roosevelt Moisés
Smeke Cassorla, psicanalista com importante contribuição
para a psicanálise brasileira, amplamente conhecido,
que nos fala de sua formação e trabalhos
atuais sobre o enactment.
Gostaríamos de agradecer profundamente a cooperação
da Livraria Martins Fontes Editora Ltda na pessoa de seu
diretor, Alexandre Martins Fontes, e da Editora Paterson
Marsh Ltd na pessoa de sua diretora, Stephanie Ebdon,
pelo apoio e autorização para que reimprimíssemos
o texto de Ferenczi. Também agradecemos à
revista Psicanálise, da Sociedade Brasileira de
Psicanálise de Porto Alegre, na pessoa de sua editora,
Laura Ward da Rosa e de Heloísa Helena Poester
Fetter, pela cessão do texto de Franco Bologno
para nossa seção Ferenczi.
Neste número modificamos a capa de nossa revista
com a finalidade de a ajustarmos ao novo logotipo da Sociedade
Psicanalítica de Porto Alegre. Mantivemos, porém,
a essência de seu design, tendo em vista sua contribuição
à afirmação de uma identidade visual,
marca de nossa publicação.
Finalizando, acrescento que encerro aqui minha participação
como editor da revista agradecendo a todos os autores,
leitores e colaboradores pela dedicação
incondicional recebida nesses dois anos e meio de atividades.
Também agradeço o apoio a todas as nossas
iniciativas e a confiança em mim depositada pelos
doutores Raul Hartke e Ruggero Levy, respectivamente presidente
anterior e atual de nossa Sociedade, e pelos doutores
Sérgio Lewkowicz e José Carlos Calich, respectivamente
diretor de publicação anterior e atual.
Sem o esforço de muitos não alcançaríamos
a qualidade editorial que se conquistou, ao longo de todas
as gestões, em nossa revista.
Termino minha tarefa com a satisfação de
ter contado com um conselho consultivo e de revisores
competente e dedicado. Especial é meu agradecimento
aos membros do conselho editorial e meus co-editores,
pois sabemos da dedicação com que exerceram
suas tarefas nesses anos todos, por vezes sacrificando
lazer e vida familiar. Com carinho agradeço também
a nossas secretárias e bibliotecárias, Irma
Ângela Manassero, Tânia Lopes, Paula Patta,
Vívian Carravetta, Mônica Nodari e Margareth
Lourdes Dallagnol.
Tenho o prazer de passar minha função à
nova editora, doutora Anette Blaya Luz, que há
muito colabora em diversas funções na administração
de nossa sociedade, participa de nossas atividades científicas
e sociais e do conselho editorial da revista. Encerro
com a certeza de que a revista estará em boas mãos
tendo certamente assegurada a continuidade de seu sucesso..
Sucesso à nova editora e boa leitura a todos