César
Luís de Souza Brito
Editor da Revista de Psicanálise da SPPA
É com grande satisfação que apresentamos
este número temático sobre a técnica
psicanalítica nos dias de hoje. Para essa edição,
nosso Conselho Editorial propôs uma abordagem dos
atuais rumos seguidos pela prática psicanalítica
e de que modo alguns de seus autores mais proeminentes deles
se ocupam. A questão suscitada parte de observações
e impressões sobre uma mudança conceitual
com implicações técnicas, a ocorrer
tanto na literatura como nas discussões científicas
psicanalíticas já há alguns anos. De
modo geral essas mudanças constam no material clínico
de muitos dos autores do campo psicanalítico contemporâneo
e tratam, entre outros, do trabalho resultante do encontro
de duas mentes (inconscientes)-em-ação expresso
na teoria do campo psicanalítico e da intersubjetividade,
nos aspectos técnicos do enactment, do processo sistemático
de transformações como base do trabalho analítico
e responsável por mudanças profundas do mundo
interno, da atitude analítica centrada na capacidade
negativa, sem memória e sem desejo, da construção
da capacidade de figurabilidade, de mentalização,
de representabilidade. Pensando nesses termos, solicitamos
a renomados autores que escrevessem sobre a técnica
psicanalítica na atualidade, liberando-os para abordarem
o tema a sua maneira. Gostaria de enfatizar o modo positivo
com que todos responderam a essa iniciativa, expondo e aprofundando
aspectos centrais da questão.
O conjunto de textos publicados nesta revista expressa certa
convergência de seus autores no entendimento de que
o processo de análise estimula o desenvolvimento
no mundo interno do analisando, resultante da atividade
interacional consciente e inconsciente da mente do analista
com a do analisando. Pelos casos clínicos expostos
podemos acompanhar os processos de transformação
e compreensão interna do analista (rêverie)
promovendo um campo apropriado para a recordação,
a representabilidade e o despertar de certas funções
psíquicas prejudicadas ou mesmo ainda não
desenvolvidas no analisando.
Organizamos a ordem de apresentação de acordo
com a seguinte estrutura: primeiro os textos sobre aspectos
teóricos que embasam a atitude psicanalítica
necessária à promoção do processo
psicanalítico; a seguir os textos em que os aspectos
técnicos (do geral para o específico) são
teorizados e demonstrados através de exemplos clínicos.
Sendo assim, inicialmente Thomas Ogden, em “Do que
eu não abriria mão”, reflete sobre os
valores inerentes e necessários a uma boa prática
psicanalítica, ou seja, cuidar de seu paciente com
dignidade humana; possibilitar-lhe enfrentar a verdade de
sua própria experiência emocional; responsabilizar-se
no cuidado ao analisando, participar no sonhar (Bion) os
sonhos “não sonhados” e “interrompidos”
do paciente.
Sérgio Lewkowicz, em “Atenção
flutuante focada e desfocada: algumas considerações
sobre a escuta analítica”, discorre sobre o
conceito de atenção flutuante e sua importância
técnica como instrumento de captação
de processos inconscientes primitivos do paciente. Destaca
a ampliação do conceito de atenção
flutuante desde Freud, passando pelos avanços de
Bion e Meltzer, entre outros, com a utilização
do que chama de atenção flutuante desfocada
como forma de contato entre dois inconscientes para a percepção
do que não é representável pela palavra
dentro da sessão analítica.
James Grotstein redimensiona a noção de resistência.
Revê os conceitos de resistência, reação
terapêutica negativa, refúgio psíquico
e equilíbrio psíquico à luz de um vértice
decisivo da personalidade do analisando, elevando-os de
meros mecanismos para uma organização vital
subjetiva e com um propósito destinado a promover
um certo equilíbrio psíquico entre as partes
mais desenvolvidas e as mais atrasadas, paralisadas, ou
que tenha falhado no desenvolvimento do self devido a situações
de insuficiência de continente ou traumas.
Antonino Ferro, através de vinhetas clínicas,
demonstra seu trabalho e desenvolvimento teórico
partindo da teoria do pensamento de Bion enriquecido pelo
conceito de campo dos Baranger: o campo feito de um contínuo
movimento de baluartes e suas dissoluções
pelo trabalho interpretativo; o campo, que passa a conter
as multipersonalidades do analisando e as multipersonalidades
do analista em interação e a gerar situações
de um grupo a dois. Assim os acontecimentos entre analista
e analisando são vistos de uma perspectiva total
em que a situação analítica é
resultante das interações entre analista e
analisando. As transformações do campo ocorrem
atravé de uma contínua operação
de co-narração entre ambos que visam à
alfabetização de proto-emoções
e permitem seus desenvolvimentos. A rêverie do analista
é fundamental nesse processo em que as narrações
transformadoras ocupam um espaço essencial para o
desenvolvimento da mente do analisando.
Stefano Bolognini apresenta um material clínico em
que, pelo trabalho de análise, ocorre o surgimento
de lembranças de uma situação traumática
na vida de uma paciente. Ilustra como, a partir desse trabalho,
entram novos elementos no mundo objetal interno da paciente.
Esses novos elementos, que podem surgir na análise
e nas relações com pessoas significativas
na vida dos analisandos (destaca, neste caso particular,
a figura do avô), interagem propiciando modificações
de enfoque e disposição do eu central do sujeito.
Destaca a importância desse aspecto sobretudo em situações
traumáticas em que a experiência do self tenha
sido profundamente fragmentada e interrompida e nas quais
o eu desenvolve fortes estratégias defensivas contra
o recordar, o pensamento e o contato com a experiência
emocional.
Roosevelt Cassorla apresenta-nos seu entendimento de colocação-em-cena
(enactment) como uma experiência útil e necessária
no processo analítico para o entendimento de aspectos
inconscientes do analisando e do analista quando passível
de ser sonhado a dois (num sentido bioniano). O enactment
inclui, em sua potencialidade, o caminho para compreendermos
a gênese dos obstáculos à capacidade
de pensar. Destaca, através de material clínico,
que os enactments patológicos (o não-sonho-a-dois)
que ocorrem no processo analítico não expressam
apenas as falhas do analista. Na medida em que essas possam
ser elaboradas pelo analista, abrem caminho para perspectivas
de estados inconscientes do analisando (e, por vezes, do
analista) que perturbam profundamente seu desenvolvimento.
Para finalizar, Ronald Britton apresenta a clínica
de uma falha na capacidade de atenção de uma
analisanda que levou a um prejuízo na capacidade
de elaboração e insight necessários
ao bom andamento do processo psicanalítico e que
resultou num impasse. O distúrbio de atenção
surgiu numa etapa posterior ao processamento do conteúdo
mental, quando é requerido pensar para avaliar e
desenvolver pensamentos e submetê-los à prova
da realidade (presentes em pacientes psicóticos ou
borderlines). Desse modo o aprender pela experiência
prejudicou-se e conduziu ao empobrecimento da experiência
de self da pessoa. Assinala como, no processo psicanalítico,
analisanda e analista encontravam-se estagnados no processo
analítico pelo impedimento de desenvolverem suas
capacidades de pensar, até que o analista detectou
e abordou a evasão da capacidade de pensar proveniente
da analisanda.
Desejamos a todos uma boa leitura e que os textos apresentados
promovam nossa capacidade de pensar e aprender com a experiência,
na direção de um maior conhecimento do processo
analítico e da elaboração conceitual
de muitos dos instrumentos presentes no encontro analista/analisando.