Entrevista concedida por Florence Guignard, Membro da Sociedade
Psicanalítica de Paris, em 02 de agosto de 2005,
aos colegas César Luís de Souza Brito, Gisha
Brodacz e Luciane Falcão, no Hotel Sheraton, Porto
Alegre.
Revista de Psicanálise (RP) –
A senhora poderia nos falar sobre sua trajetória
pessoal e como psicanalista, sobre os autores que mais influenciaram
sua formação dentro da psicanálise?
Florence Guignard (FG) – Nasci em
Genebra, onde fiz meus estudos secundários e universitários.
Até o verão antes de completar dezoito anos,
até o baccalauréat1, eu não sabia o
que ia fazer. Decidi seguir psicologia e, desde então,
continuo. Fiz meus estudos universitários com Piaget
e André Rey – um grande psicólogo clínico
– e logo comecei a trabalhar como psicoterapeuta.
Antes de ter feito uma análise, trabalhei como psicoterapeuta
de criança. Então, quando decidi fazer uma
análise pessoal, já estava na área
da psicologia clínica e da psicoterapia e foi de
modo muito natural que comecei a formação
psicanalítica. Meu analista pessoal, Raymond de Saussure
– filho do lingüista – já era um
senhor muito idoso quando me analisei com ele, mas apreciei
muito minha análise. Fiz a metade de minha formação
analítica na Suíça e depois conheci
Jean Bégoin, que se tornou meu marido e com quem
fui para Paris. Recomecei minha formação em
Paris desde o início, mas devo dizer que foi bastante
rápida. Meus dois supervisores, Pierre Luquet e Michel
Fain, me ensinaram muito.
Antes de ir para Paris, eu havia trabalhado em pesquisa
durante dez anos para o Fundo Nacional Suíço
de Pesquisa Científica. Encarregaram-me de uma equipe
pluridisciplinar de pesquisa, primeiramente sobre os distúrbios
de linguagem na criança, sob a direção
de Ajuriaguerra, e depois sobre os transtornos do significado
em crianças que apresentavam deficiência mental
leve. Digo isso porque acredito que minha carreira de psicanalista
foi marcada e continua sendo por essa necessidade de compreender
o funcionamento de nosso pensamento. Afora isso trabalhei
muito com os autores ingleses, sobretudo com Donald Meltzer.
Quando Meltzer começou a ir a Paris, veio à
nossa sociedade para pequenos seminários, e era eu
quem o traduzia de maneira espontânea, como vocês
estão fazendo comigo. Este trabalho com Meltzer foi
muito frutuoso para mim; trabalhamos juntos cerca de quinze
anos. Ele vinha três vezes por ano a Paris nos fins
de semana. Traduzi, com Jean Bégoin, dois de seus
livros. Trabalhei também com Hanna Segal, um pouco
com Rosenfeld – que também traduzi –
e com Betty Joseph.
Fundamos uma associação em torno dos encontros
com Meltzer. Esta associação continua funcionando
ainda hoje em Paris. Um de seus membros mais conhecidos
é Geneviève Haag, que se dedica à observação
de bebês e também e sobretudo aos autistas.
Também recebemos Marta Harris e muitas outras pessoas
posteriormente.
Em Paris, solicitei diretamente ser Membro Aderente da Sociedade
Psicanalítica de Paris. Realizei, então, meu
trabalho clínico e logo fui nomeada Membro Titular,
após uma apresentação, em um Congresso
de Língua Romana – francesa hoje – do
qual Jean Bégoin e eu éramos os relatores,
sobre o tema do trabalho do psicanalista. Posteriormente,
criei com Annie Anzieu, a viúva de Didier Anzieu,
uma associação para a psicanálise de
criança, porque observamos que não havia esta
formação nos institutos e que, fora destes,
havia centenas de pessoas que trabalhavam como psicoterapeutas
de criança sem uma boa formação ou
mesmo sem qualquer formação.
Não instituímos uma formação
oficial por respeito às Sociedades a que pertencíamos,
mas organizamos fins de semana de trabalho com seminários
clínicos ministrados por diferentes psicanalistas
de criança mais experientes. É a Associação
para a Psicanálise de Criança (APE). O Grupo
de Estudos e Pesquisas Psicanalíticas pelo Desenvolvimento
da Criança e do Bebê (GERPEN) foi a primeira
associação que criamos em torno das vindas
de Meltzer. Dez anos após a APE, criamos uma terceira
associação européia e cujos membros
devem ser membros da IPA, mas que se destina também
a psicoterapeutas que selecionamos com critérios
mínimos, ou seja, exigimos que tenham uma experiência
analítica pessoal e que trabalhem na área
da psicoterapia da criança e do adolescente. Esta
sociedade se chama Sociedade Européia para a Psicanálise
da Criança e do Adolescente. Sua sigla é SEPEA.
Tem hoje onze anos. Talvez criemos uma outra.
RP – Em sua palestra Psicanálise
e sexualidade hoje2, a senhora questiona se a evolução
da sociedade teria ou não modificado os parâmetros
básicos do tratamento psicanalítico. Poderíamos
pensar a evolução da sociedade como a influência
da cultura na estruturação do psiquismo? De
que forma isto afetaria ou modificaria a técnica?
FG – Isso depende de que ponto de
vista vemos as coisas. Quanto à influência
do tratamento, creio que ela ocorre nos dois sentidos, ou
seja, creio que há uma influência da psicanálise
nas modificações da sociedade – isto
é indiscutível –, mas penso que o inverso
também é verdadeiro, isto é, a sociedade
também influencia a escuta que as pessoas podem ter
da psicanálise e das interpretações
que podemos lhes fazer. No entremeio, surgiram ou se desenvolveram
muitas técnicas terapêuticas que não
são psicanalíticas propriamente ditas e que
tiveram muito sucesso. Penso na análise transacional,
na Gestalt e em muitas outras que floresceram e continuam
florescendo, de modo que a psicanálise tem ficado
um pouco para trás, no escanteio.
Creio que, enquanto psicanalistas, devemos refletir sobre
essa situação e considerar que, se isso ocorre,
é certamente porque a psicanálise não
pode resolver tudo, mas talvez também porque não
possa entender tudo, ouvir tudo. A técnica analítica
já evoluiu muito desde sua criação.
Por exemplo, ontem à noite (durante o debate ocorrido
na Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre) falamos
sobre as interpretações de conteúdo,
que não estão mais tão em voga, porque
percebemos que o essencial não era isso. Penso que,
hoje, o que mais está sendo estudado por aqueles
que se ocupam da técnica e da sua transmissão
é provavelmente o desenvolvimento das interpretações
de transferência e na transferência (aliás,
teremos um exemplo no caso que será apresentado hoje
à noite), porque pode ocorrer que as interpretações
que pensamos serem interpretações de transferência
sejam compreendidas num outro plano pela mente do analisando.
Creio que devemos nos preocupar, do ponto de vista da técnica,
com todo o campo da significação e da simbolização
no tratamento analítico. Por duas razões:
primeiramente, porque em toda análise há uma
regressão, chamada de regressão tópica,
que se deve ao setting analítico e que faz com que
o paciente pense de uma maneira muito mais próxima
de seus processos primários do que quando está
numa conversa com todo o mundo. E o analista também
regride para acompanhar seu paciente. Se não regredir,
nada mais funciona, não é uma boa idéia.
Portanto, do ponto de vista do nível da constituição
dos símbolos, da simbolização, na situação
da sessão analítica, temos um campo em que
a simbolização é muito menos articulada
e secundária do que na conversa que estamos tendo
agora. E nem sempre estamos muito conscientes disso.
A segunda razão diz respeito efetivamente aos pacientes,
ao fato de que a patologia está mudando, ou seja,
não temos mais muitos neuróticos do tipo daqueles
do início do século XX como tinha Freud. Temos
muita histeria, mas se trata de uma histeria que é
apenas uma espécie de fachada para algo cada vez
mais psicótico. Temos a vertente muito grave, muito
patológica, da histeria em relação
com a psicose. Por outro lado, percebemos mesmo assim que
as defesas obsessivas eram algo que estava em relação
– Meltzer principalmente falou sobre isso –
com enclaves autísticos. Enfim, tudo aquilo que esperávamos
ter compreendido sobre a neurose se revelou insuficiente
para realmente compreendermos a psico-patologia em seu conjunto.
Além disso, temos hoje a psicopatologia que chamamos
de borderline, tão extensa que talvez nem mesmo seja
mais borderline. É uma psicopatologia muitíssimo
importante, para a qual a técnica analítica
deve efetivamente poder evoluir.
Portanto, penso que a psicanálise influenciou a sociedade,
mas a sociedade por sua vez influencia muito também
os efeitos da técnica psicanalítica. Isso
influencia também o setting. Falamos anteriormente,
por exemplo, do problema do número de sessões
numa análise. Será que a sociedade atual ainda
permite a alguém ir à análise quatro
vezes por semana, sempre no mesmo horário se possível,
ou, em todo caso, pagar durante anos as quatro sessões
e ter uma estabilidade suficiente em seu trabalho para permanecer
na mesma cidade com o mesmo analista?
Ou será que isso está se tornando cada vez
mais raro? Será que não devemos tentar ver
o que podemos fazer para exercer a psicanálise apesar
de tudo, ver o que podemos fazer no plano do setting e no
plano analítico?
RP – Na sociedade atual, em que
observamos manifestações de uma desintricação
pulsional que se expressa pela violência do infantil
e da pré-genitalidade, qual seria o papel do psicanalista
e da psicanálise, incluindo o psicanalista de crianças
e adolescentes?
FG – Em primeiro lugar fazer-se
aceitar, porque o que vocês descrevem, penso eu, tem
a ver com a fobia da vida psíquica. Certamente vocês
já devem ter encontrado pessoas que lhes perguntam:
“E você, o que faz?” Você responde:
“Sou psicanalista.” A reação é:
“Oh! Que horror!” Então, a fobia da vida
psíquica é atualmente quase uma moda, um must,
não deve haver preocupação com o interior
e sim com o exterior. É também por isso que
as terapias curtas – cujo papel é dizer às
pessoas o que fazer – têm muito sucesso. E nossos
pacientes nos dizem: “Bom, é muito bom explicar
tudo isso, mas me diga o que devo fazer.” Se atualmente
temos um papel importante, eu consideraria que é
acima de tudo junto aos mais jovens, porque eles são
mais suscetíveis de transformação.
Esse papel talvez não seja mais possível quanto
aos demais, mas os mais jovens teriam o direito de poder
ouvir uma linguagem de alguém que se preocupa com
o que pensam. Isso supõe também que o psicanalista
escute bem mais do que interprete. Atendi uma criança
em segunda terapia, que tinha passado quatro anos com uma
boa psicoterapeuta de crianças e que veio a mim porque
os pais o desejaram: era a criança sintoma e devia
ser tratada. Era um menino muito paranóico, perseguido.
Não procurei lhe dizer que se sentia mal, quais deviam
ser suas angústias, etc... Perguntei-lhe, num determinado
momento, no que ele estava pensando. Respondeu-me que estava
pensando em seu jogo eletrônico. Pedi-lhe então
que me explicasse e, durante toda a sessão, me interessei
muito pelo combate ou pela rivalidade do jogo que ele descrevia.
E durante vários meses só falamos disso. Ele
aceitou voltar às sessões, dizendo à
mãe que não pensava que falariam disso.
Temos muito a aprender com as crianças, porque vivem
em um universo de todo fascinante, um universo virtual inicialmente,
mas no qual são reintroduzidas qualidades humanas
como no caso dos jogos de nossas crianças e que vocês
devem conhecer. Os Pokémons, por exemplo. Creio que
podemos aprender com o que as crianças retiram desse
mundo e para isso devemos penetrar nele. É muito
mais difícil para um adulto do que para uma criança
lidar com o computador. As crianças compreendem muito
rápido. Outro dia, tive uma conversa muito interessante
com uma criança em psicoterapia comigo: ela me explicava
que os Pokémons eram muito legais porque se transformavam.
O que um analista pode sonhar de melhor do que falar de
transformação? Penso, então, que devemos
tentar entrar no universo das crianças, porque nele
encontramos algo do infantil e a partir dali podemos começar
a trabalhar.
RP – A teoria kleiniana está
bastante integrada ao corpo teórico psicanalítico
utilizado pela senhora. No que se refere à técnica
na psicanálise de crianças, como atualmente
a senhora aplica o referencial kleiniano? No que, hoje,
consiste a diferença em termos de técnica?
FG – Comecei a me interessar por
Melanie Klein quando eu fazia pesquisa, antes de ser psicanalista,
com Piaget e Ajuriaguerra, porque percebi que não
possuíamos as ferramentas necessárias para
compreender como funcionavam as crianças pequenas.
Acredito que não podemos ter um pensamento psicanalítico
sem estudar Melanie Klein como estudamos Freud. O que quer
dizer, evidentemente, também ter estudado Abraham,
Ferenczi, etc... Mas, do ponto de vista técnico,
M. Klein é uma passagem obrigatória. É
claro que não trabalhamos mais como ela trabalhava.
Em primeiro lugar, ela tinha sessões diárias
com as crianças. Mas não vamos retraçar
toda a história de Melanie Klein, que foi muito criticada
como se tivesse sido a única a analisar suas crianças.
É uma questão de época. No plano teórico,
entretanto, – isso está no meu artigo sobre
o sadismo –, creio que ela teve intuições
extraordinárias porque era dona de uma capacidade
não apenas clínica, mas também de uma
capacidade excepcional para verbalizar sua clínica.
Hoje, evidentemente, minha técnica é bem mais
influenciada pelos bionianos e pós-bionianos, como
os italianos, por exemplo, e por Meltzer, é claro,
visto que trabalhei com ele por quinze anos.
RP – Para Melanie Klein, a interpretação
de conteúdo era muito importante, e agora isto está
mudando.
FG – Sim. Trata-se daquilo que uma
época sinaliza. Então, podia-se falar tranqüilamente
das fantasias – se pensarmos no trabalho de Suzan
Isaacs sobre a fantasia – no que diz respeito à
diferença entre fantasia e realidade. Mas agora os
tempos são outros.
RP – Gostaríamos que nos
falasse das dificuldades do psicanalista para formular interpretações
sobre o conflito edípico. Haveria diferenças
nas dificuldades para interpretar este conflito na análise
de meninos e de meninas?
FG – Começo pela segunda
pergunta, mas é antes uma brincadeira: é claro
que há diferenças entre o menino e a menina.
Há as diferenças no Édipo da menina
e do menino e, portanto, diferenças de interpretação.
Mas creio que o mais importante na interpretação
edipiana é o fato de se interpretar que se está
a três, que há a triangulação,
o triângulo. Se vocês pensarem na Pirâmide
do Louvre, feita de pequenos triângulos que formam
um grande triângulo, vocês verão, a meu
ver, a representação por excelência
do modo de interpretação ou da técnica
que devemos seguir. É sempre importante imaginar
o triângulo, não necessariamente a terceiridade,
ou seja, a introdução do terceiro que vem
provocar o corte entre os dois, mas o fato de que sempre
estamos num triângulo. Se não estivermos num
triângulo, não estamos num espaço psíquico.
O importante não é o papel do objeto, não
é o papel do sujeito, é simplesmente o fato
de que não existimos enquanto pessoa se não
estivermos numa situação triangular. Foi por
esta razão que trabalhei sobre o materno primário
e o feminino primário, dos quais falei nos dois livros
que vocês talvez tenham lido e que estão traduzidos.
Penso que a fusão ainda existente na relação,
no espaço do materno primário, já é
triangulada, porque o pai existe na cabeça da mãe.
E o fato de a mãe ser uma pessoa adulta, o fato de
ela ter tido seu complexo de Édipo e, além
disso, o fato de ter tido uma relação adulta
genital, posto que é mãe, e de manter uma
relação psíquica, ainda que ruim, com
o pai da criança colocam esta última, desde
o início, num triângulo. Pode ser um triângulo
mal construído, mas mesmo assim é um triângulo.
Isto é o que chamo de espaço do materno primário.
Quando a criança tem alguns meses e chega ao que
Melanie Klein também chamou de fase feminina primária,
na qual situou o limite da posição depressiva
– para mim é uma segunda tópica –,
ela descobre de repente que não é sua mãe,
que não está fusionada com esta, que é
alguém porque descobre que a mãe tem uma relação
com um outro, o pai. Então, é um segundo triângulo.
Insisti na importância desse momento em minha descrição
do espaço do feminino primário, porque a criança,
ao descobrir que não é a mãe, descobre
o desejo da mãe pelo pai. Portanto, trata-se de um
Édipo muito precoce, é um triângulo
edípico.
E o que considero mais espantoso nesse momento, nesse período
tão bem descrito por Melanie Klein como a fase feminina
primária, em que, segundo ela, há um aumento
das capacidades de introjeção por identificação
com a feminilidade da mãe, é justamente esta
capacidade de introjeção que se liga às
capacidades posteriores da aprendizagem. Não podemos
aprender algo se não introjetamos.
Isso é realmente decisivo para o desenvolvimento.
Porém penso que esse momento é gerador de
patologias muito freqüentes, ligadas ao choque vivido
pela criança de descobrir que a mãe tem uma
outra relação, de tipo diferente, com um outro.
A criança sente o desejo da mãe pelo pai,
isto é, a sexualidade da mãe, o que, a meu
ver, constitui o escândalo número um para o
desenvolvimento tanto do menino quanto da menina.
Quanto à pergunta se é mais difícil
interpretar isso no menino ou na menina, não sei.
Creio que depende dos meninos, das meninas e dos psicanalistas
mulheres ou homens. Em todo caso, para interpretá-lo,
é certo que não podemos fazer interpretações
de transferência no sentido antigo do termo, porque
não podemos imaginar interpretar essa confusão,
esse escândalo vivido pela criança diante da
sexualidade adulta em termos de “Você gostaria
de poder fazer comigo o que papai faz com mamãe...?”
Isso é um segundo escândalo.
RP – Na última vez que esteve
conosco, a senhora nos contou como trabalhava a interpretação
da transferência com as crianças e os adolescentes.
Lembramos das frases que usava para mostrar-lhes a diferença
de gerações... A senhora poderia desenvolver
isso, pois diz respeito à técnica? Como trabalhar
a erotização na transferência?
FG – Não sei se ainda trabalho
como trabalhava há seis anos. Eu diria algo que mostrasse
a diferença das gerações – o
que está de acordo com o que você disse. Diria
o quanto pode ser desesperante e doloroso saber que não
se é da mesma geração do pai ou da
mãe e que não se pode casar com seu pai ou
com sua mãe. Isso provoca raiva também. Para
mim, o essencial é que o analista seja a garantia
do princípio de realidade. É ele quem garante
o princípio de realidade, senão não
pode interpretar o complexo de Édipo, que justamente
implica a realidade, a aceitação desta e da
diferença dos sexos. Talvez os casos clínicos
digam mais sobre isso.
RP – A senhora tem experiência
em analisar crianças medicadas, com diagnóstico
de hiperatividade, déficit de atenção
e doença bipolar. Gostaríamos de saber se
estas situações, freqüentes atualmente
na nossa clínica, que revelam a influência
da cultura americana, também estão presentes
na psicanálise da infância e adolescência
da França e Europa e o que pensa sobre isso?
FG – Nós também temos
essas situações. É exasperador porque
devemos fazer todo um trabalho com pais e professores para
explicar-lhes que não é desse modo que vamos
tirar as crianças da situação em que
se encontram. Talvez isso faça parte das mudanças
da técnica. Talvez devamos pensar muito mais no que
um psicanalista deve poder fazer com o meio ambiente em
que vive uma criança que tem transtornos psicológicos.
Por exemplo, sou considerada uma pessoa escandalosa em Paris,
porque sempre digo em meu ensino aos psicoterapeutas e analistas
de criança que eles devem conversar com os pais da
criança, sozinhos, sem a criança, antes de
começar a terapia. A resposta que ouço: “Mas
como? Faço parte de uma equipe hospitalar...”
É o médico com quem consultam que fala com
os pais e não o terapeuta. Bom, se a criança
vem ao meu consultório, é diferente.
Mas tenho muitos colegas que dizem aceitar o que vem. Então
os pais chegam com a criança como quando ela sente
dor no braço ou no pé. Devemos ser muitos
claros nessa situação. É preciso saber
por que queremos ter um encontro com os pais antes. E às
vezes descobrimos que precisamos trabalhar durante várias
semanas com eles, antes de atender a criança.
Já me aconteceu de não atender a criança
e não propor um tratamento para ela, mas continuar
a atender os pais. Penso que, se ficam escandalizados comigo,
é porque há uma ingenuidade em dizer que o
psicoterapeuta de crianças deve atender só
a criança. Acho totalmente ingênuo considerar
que, se o psicoterapeuta falar com os pais, a criança
vai pensar que ele está contando a eles tudo o que
ela lhe contou, porque, em primeiro lugar, todas as crianças
têm certeza de que os pais sabem o que ocorre na sessão.
Nós todos sabemos que nosso superego é o que
dizemos a nosso psicanalista, uma vez que projetamos nosso
superego nele. Tal questão não tem sentido.
Teríamos talvez mais a fazer junto aos professores
também, como fazíamos há muito tempo.
Julgo que o psicanalista, na França em todo o caso,
cometeu o erro de ficar distante da escola, de não
se comunicar suficientemente.
Deveríamos fazer muito mais, seguindo a idéia
de Melanie Klein e dos primeiros psicanalistas que falavam
de psicanálise profilática. Deveríamos
poder criar uma mentalidade psicanalítica, uma mentalidade
que desse direito de existência à vida psíquica
de maneira profilática. E quem pode fazer isso senão
o psicanalista?
RP – Para finalizar, como a senhora
vê o futuro da psicanálise e o ensino de psicanálise?
FG – Esta é uma pergunta
e tanto! Acredito ser a psicanálise, em primeiro
lugar e antes de tudo, uma questão de convicção.
Não foi à toa que me interessei muito pelo
artigo de Freud sobre A Negação. Nós
temos uma crença. Se somos psicanalistas, é
porque acreditamos na existência da vida psíquica
e no interesse que temos por esta. Para mim aí está
o futuro da psicanálise, e devemos ser bastante ousados
para não nos limitarmos a um plano institucional,
porque nossas instituições psicanalíticas
talvez estejam destinadas à morte, mas não
a psicanálise.
Se estas instituições estiverem suficientemente
vivas, vão se transformar. Mas a psicanálise
sempre existirá.
Quanto ao ensino da psicanálise, o que lhes poderia
responder? Aprender a ouvir, continuar a interessar-se pelo
psiquismo humano e, sobretudo, a ouvir os mais jovens, pois
eles são atualmente os mais estranhos à nossa
maneira psicanalítica de ver as coisas. Fiquei muito
impressionada com o que nos foi contado ontem à noite
pela colega sobre o questionário apresentado às
crianças3. Penso que, se pudermos partir de coisas
simples como esta, mas realmente respeitar o que isso significa,
poder conversar com uma criança, brincar com ela,
sabendo que o mais importante para ela e o que a torna mais
feliz é estar com seu pai e sua mãe, numa
sociedade em que isso não ocorre mais – se
assim não o fizermos, estaremos interpretando um
complexo de Édipo em situações muito
estranhas –, talvez possamos ter influência
sobre o pensamento, sobre a capacidade de pensar desta criança
que, ao se desenvolver, poderá dizer: “Eu não
viverei como meus pais viveram e não colocarei filhos
no mundo na situação em que eu fui colocada”.
Assim estaremos mudando um pouquinho a sociedade. Isso deveria
ser ensinado aos psicanalistas, pois a morte da psicanálise
ocorre quando os psicanalistas pensam que sabem tudo.
Tradução de Vanise Dresh
Revisão técnica de Luciane Falcão