Entrevista concedida por Leopoldo Nosek, Membro Efetivo
da Sociedade Psicanalítica de São Paulo, em
19 de março de 2005, aos colegas César Brito,
Luisa Maria Rizzo, Magali Fischer, Clarice Kowacs, Gisha
Brodacz, Maria Elizabeth Cimenti, Luciane Falcão,
Suzana Fortes, Tula Bisol Brum, no Hotel Sheraton, Porto
Alegre.
RP – Primeiramente agradecemos a
sua disponibilidade de nos conceder esta entrevista às
07:30 da manhã depois da palestra de ontem à
noite. Como é de praxe, pedimos que o entrevistado
nos fale de sua formação pessoal, profissional,
psicanalítica, dos autores que influenciaram seu
pensamento e sua formação e que nos dê
uma orientação da sua trajetória profissional
e de vida.
LN – Antes de começar quero
dizer que sou imigrante. Esta trajetória de estrangeiro
e o conceito de estrangeiro são interessantes. É
um tipo de inquietação que empurra para a
psicanálise, na qual as coisas simplesmente não
estão dadas. Você faz o movimento para chegar
a elas e à própria situação
de base e elas não correspondem ao natural. É
preciso algo que não é simplesmente dado,
é problematizado.
Eu me mudei jovem, aos quatro anos, uma típica história
de pós-guerra, praticamente me criei no Brasil. Acho
que isto é uma marca de desadaptação,
está presente na psicanálise e é universal.
Uma pessoa que se interesse por psicanálise e por
praticá-la é um paciente em potencial. Quem
não é um bom paciente não vai pensar
em ser psicanalista. Como paciente, e também para
os pacientes, esta questão do estrangeiro é
uma marca definidora. A pessoa tem algum distanciamento,
alguma problemática, alguma possibilidade de refletir
sobre seu percurso.
Fiz medicina no final dos anos 60. Portanto estava envolvido,
como toda minha geração, no movimento estudantil,
no movimento político da época de oposição
à ditadura. Também é interessante que
a minha geração discutia como se fazia para
mudar o mundo, para mudar o Brasil. Juntavam-se vinte pessoas
e programavam como fazer a revolução brasileira,
a democracia. Nos dávamos o direito de pensar como
se transforma um povo. Isso é a marca de uma geração,
a de 68, e acho que foi muito forte. Eu vejo isso quando,
em atividades da IPA, encontro pessoas do Peru, da França,
da Austrália e tenho uma conversa rápida com
estas pessoas que passaram por esta onda de movimentação
por todo o mundo.
Terminando a faculdade de medicina, eu passei um período
preso por estas atividades. Depois disso comecei minha vida
profissional. Mas sempre mantive o interesse pelo mundo
e uma postura crítica que eu acho essencial: uma
postura crítica sobre a inserção da
psicanálise no conjunto das disciplinas humanas e
no desenvolvimento social. Inicialmente eu fiz residência
em psiquiatria e formação em psicodrama. Quando
fiz psicodrama, havia muitos críticos à psicanálise,
ou melhor, a uma forma mais ou menos dura, estereotipada
que a psicanálise tinha na época. Eu acho
que o psicodrama me deu uma visão muito crítica
da psicanálise, mas não foi suficiente e entrei
no Instituto com trinta anos, uma idade precoce para o costume
de então. Entrei porque eu queria me tratar, porque
a clínica me propunha problemas cuja dimensão
e compreensão eu não conseguia ver. Estava
atrapalhado com o começo de vida. Rapidamente tive
muitos filhos. Fiz a primeira análise, que foi fundamental
e sou muito grato. Também minha família é
grata.
Eu costumo brincar que, quando a análise é
boa, a família fica contente, os outros percebem
até mais do que nós. A forma de estar, de
se relacionar, se amplia, há tolerância. Foi
realmente importante.
Na ocasião da minha formação, o instituto
era basicamente kleiniano, deslumbrado com Bion, e foi uma
sorte porque eu não peguei o tempo da ortodoxia kleiniana.
Quando Bion chegou a São Paulo, houve uma revolução.
Eu cheguei a assistir a algumas conferências, mas
confesso que o que ele falou me escapou.
Entretanto fui beneficiário do clima de grande abertura
que se instituiu naquele momento e de grande possibilidade
de reflexão. Depois houve uma evolução
na direção de uma retomada de Freud. Isso
foi quase uma apreensão tardia do desdobramento do
que pode trazer a obra de Freud. Hoje em dia eu leio os
italianos, os franceses, gosto muito de Laplanche, André
Green, mas sempre é uma beleza consultar Freud. Acho
que ele é único na abertura, no trajeto.
Há pouco estávamos falando dos tapetes, das
cores, das texturas e da qualidade dos tapetes que são
incompletos, a tinta acaba no meio. O tapete, então,
adquire uma coloração que não é
homogênea, tem manchas, não está tudo
certo, acabou a lã azul e tem uma mancha marrom no
meio. Isto é que dá o charme, a beleza, e
é nisso que você vê a mão do artesão.
Você vê o espírito em reflexão
e o contrário do saber instituído. Assim também,
quando lê Freud, você vê o trabalho do
pensamento em ação e ele propõe este
desafio de você se pôr a trabalhar e a continuar
se movimentando. Eu gosto de pensar uma coisa: quando você
lê Freud, sente-se burro porque na semana posterior
já esqueceu tudo o que leu uma semana antes. Eu refleti
sobre isso e cheguei a pensar que lemos Freud de um jeito
diferente de como os filósofos lêem. Não
sei se vocês têm este sentimento. Eu morro de
inveja, porque eles citam pedaços longos de memória,
datas que estão na cabeça, mas aí eu
penso: o que é mesmo narcisismo? Então corro
para trabalhar e começo a fazer ligações
novamente, e tudo é como se eu retomasse novas cadeias
associativas.
Eu acho que, como psicanalistas, lemos a teoria de um jeito
diferente, de coração e de alma expostos.
Então, boa parte do que aprendemos é recalcada.
É como um insight, um bom insight é esquecido.
Aquilo é como uma estrutura que vai se metabolizar
e fazer parte da sua personalidade e não da sua memória.
Assim eu estou sempre lendo Freud e ele sempre me escapa.
Então volto. Particularmente eu estou em um momento
de releitura de Freud.
Profissionalmente, terminada a formação, demorei
até me apresentar como membro e depois peguei gosto.
Fui presidente da ABP, da SBPSP, membro do board da IPA,
exerci várias funções em várias
instituições da IPA, na Casa dos Delegados,
nas assembléias de presidentes e tive alguns trabalhos
editoriais. Fui editor do IDE, em São Paulo, por
alguns anos, editor da NEWS LETTER da IPA, editei a Revista
da Fepal e agora a próxima encrenca é o trabalho
editorial da REVISTA BRASILEIRA DE PSICANÁLISE. Acho
que estava distraído quando aconteceu de eu aceitar.
RP – Queria te perguntar se teu interesse
pela antropologia, evidenciado na tua palestra ontem, teria
a ver com a tua trajetória de estrangeiro?
LN – Eu acho que, além do
interesse pela antropologia especificamente, há o
interesse pela cultura e pela política. Política
no sentido aristotélico, uma atividade mais nobre,
mais ampla do ser humano. O Afeganistão, os tapetes
de guerra que mostrei ontem, num determinado momento que
não é longínquo, é um centro
de conflito no mundo. Depois do 11 de setembro, do fundamentalismo
religioso, petróleo, política imperialista,
invasão, política de acumulação
das grandes companhias, tudo isto se centraliza em cima,
paradoxalmente, de um lugar mais atrasado, um dos lugares
mais marginais do desenvolvimento capitalista, onde a estrutura
tribal estava completamente presente até os anos
70. Era um país que quem o habitava se sentia como
numa tribo. Para se ter uma idéia, no Afeganistão
falavam cinqüenta línguas.
Eu sempre penso o que aprendi nas cartilhas: o Brasil, um
país de oito milhões de metros quadrados,
de uma religião e de uma língua só.
Algum europeu deve ter ficado impressionado com este tamanho,
só uma religião e uma língua.
No meio das guerras, rivalidades étnicas, isto surpreendia.
O Afeganistão, ao contrário, num momento determinado,
é o ponto central dos conflitos do mundo. A queda
da União Soviética, a construção
das companhias de petróleo ocorrem no centro desta
representação. Em seguida vem a invasão
do Iraque. É um povo absolutamente distante, e houve
uma coincidência, no caso, o meu irmão encontrou
tapetes que tinham motivos de guerra feitos por estruturas
tribais, que eu achei interessante como uma ponte, não
para explicar qualquer coisa, mas para soltar um pouco a
imaginação, para fazermos ilações
acerca do trauma e da necessária elaboração,
da textura, da construção, da elaboração.
Isso requer um trabalho de elaboração, que,
no caso do Afeganistão, chegava ao ponto do fracasso,
a elaboração dava lugar a uma adaptação
para o comércio, para o turismo. Aqueles tapetes
se transformavam num objeto de consumo e iam perdendo aquela
natureza de construção que eu achei interessante
comparar com a teoria, quando ela se estrutura e deixa de
ser um processo no campo da elaboração, se
esclerosa.
Falamos que isto é isto, aquilo é aquilo e
temos a sensação de que agora entendemos,
de que agora pegamos o jeito. E isto é o pior. Perdemos
o frescor de ter de inventar a psicanálise a cada
dia, a cada paciente, a cada sessão, aquilo “O
que é mesmo que eu vim fazer aqui? Aonde é
que a gente vai chegar?”. Nunca saberemos este final
e o traumático é este encontro de duas pessoas
e uma intimidade. Em cada sessão a observação
tem uma turbulência: o traumático do paciente
para o analista. E cada sessão tem a textura do “Afinal,
o que estamos fazendo juntos? O que vamos fazer? O que eu
sinto? Que desejos, expressões eu preciso encontrar?”.
Isto de parte a parte. Hoje eu creio que ser psicanalista
é um privilégio.
Privilégio da pós-modernidade, porque não
ficamos obsoletos aos 40 e 50 anos. Ao contrário,
começamos um certo trajeto de valores neste campo
e podemos continuar aventurando. Portanto, nestes termos,
pela aventura, pela falta de estreitamento que os tempos
estão propondo, eu acho que a psicanálise
é contra a corrente, é uma disciplina humanizadora,
de resistência. E não creio que esteja em crise,
ao contrário, ela é um ponto pungente do pensamento
e a crise faz parte da força da psicanálise,
que está atuante.
É uma pena que a pesquisa empírica, para provar
ser a psicanálise tão boa quanto uma pílula
antidepressiva, tente torná-la uma ciência
positivista, capaz de fazer uma verificação
empírica, o sucesso econômico. Também
faz parte ser vulnerável à pressão
social. Só que perdemos a dimensão da resistência
de oposição, da grandeza que a psicanálise
tem. A psicanálise é contra a corrente deste
desenvolvimento sócio-econômico, social, político.
Apesar disso, como psicanalistas, na minha observação,
nós estamos doidos para aderir a este movimento de
sermos classes ascendentes. Então acaba havendo um
conflito entre a vontade do analista e o instrumento que
ele tem na mão, que é contra a corrente, insurgente
e marginal.
RP – O senhor acha que este é
um fenômeno local da América Latina ou também
da Europa?
LN – Ao contrário, acho que
a América Latina está até atrasada.
É como se, nos últimos anos, ela tivesse sofrido
uma pressão para aderir a estas pressões empíricas
principalmente anglo-saxônicas. Penso que isto ocorre
menos na Itália, na França, mas, no conjunto,
nos últimos anos, foi uma pressão avassaladora.
Pecamos ao mostrar esta definição de eficácia,
que temos uma boa mercadoria que pode ser apresentada no
mercado sem vergonha dos remédios. Como é
que vamos comparar nossa interferência no mundo econômico
com a interferência dos laboratórios farmacêuticos?
Nos anos 80, entre as dez maiores empresas do mundo, nenhuma
era farmacêutica. Já nos anos 90, três
eram e duas maiores do que a Nestlé. Na Nestlé
se percebe o nível da influência no hábito
alimentar.
Imaginem a potência, o poder, a propaganda. Como concorrer?
Então corremos atrás e vamos fracassar. Primeiro,
porque não é interessante. Segundo, é
um caminho que leva à deterioração
da psicanálise. E, por fim, não temos chance
de comparar.
Se bem que eu vejo que praticamente todos os pacientes que
tenho já passaram pela inclusão medicamentosa.
Acho que pouquíssimas pessoas não tomaram
antidepressivos, incluindo o grupo analítico.
O antidepressivo está, portanto, no momento, inserido
neste mundo e o apelo é muito forte, até porque,
se fosse mais fácil, seria melhor. Mas não
é mais fácil, porque não cumpre o que
promete. Uma pessoa que toma um antidepressivo não
fica mais feliz, mais ampla, mais plena, mais inteligente,
mais relacional. Ela fica antideprimida, é um estado
antideprimido. Devemos ter o direito de nos deprimir.
Faz parte dos direitos humanos. Devia constar, na declaração,
o direito a uma certa felicidade e não ser obrigado
a ser feliz. Uma certa melancolia, momentos de confusão,
de perplexidade, de incoerência, de não saber,
de perdas devem fazer parte deste direito. Uma vez eu estava
num resort. Eu detesto resort. Era na Bahia, na Praia do
Forte. Estava sentado e passaram três garotos, malhados,
felizes, os recreacionistas profissionais. Eu os chamei
e disse, só para brincar: – Eu não consigo
me divertir. Eles disseram: – Como pode estar aqui
e não conseguir se divertir? O senhor já fez
axé, hidro? – Já fiz, mas não
consegui me divertir.
Ficaram perplexos ante minha impossibilidade. Era inimaginável
para a cultura local você estar lá e não
se divertir. Você tem que se divertir.
RP – Como o senhor vê, na atualidade,
a divulgação da psicanálise?
LN – Acho que devíamos fazer
um forte movimento em todas as publicações
de criar um vínculo com o público. Temos feito
revistas paroquiais escritas por nós para nós.
Criamos um clima persecutório, porque, quando escrevemos
para outro analista, temos a certeza das objeções
que ele vai fazer. São artigos persecutórios
e defensivos que simplesmente provam que estou certo, que
fiz uma boa clínica e que a minha vinheta foi de
uma bela sessão, procurando não deixar uma
brecha onde o outro possa entrar muito forte.
Seria útil que se escrevesse para o mundo, como fez
Freud: desenvolver algo que possibilite mostrar as perplexidades
que temos. No trabalho, agora como editor na Revista Brasileira,
estou começando com um pressuposto: eu não
sei o que é a minha revista de psicanálise
hoje. E eu não sei mesmo. Não é um
truque de linguagem. Qual é a forma? Ter arquivos
eletrônicos? As revistas inglesas e americanas puseram
todos os seus números em arquivos e, quando você
faz uma assinatura, todas as revistas, desde o número
um, estão num único programa. Mas você
não produz uma revista para protocolar os artigos.
O que é uma revista? Qual é a forma que ela
deve ter? O que deixa uma revista atraente? O que dá
vontade de você pegar e pensar: deixa-me ver o que
tem aqui! Ela faz propostas? Está na vanguarda? Está
correndo atrás das atividades, fazendo arquivo delas?
Eu não sei o que faria uma revista ser interessante,
mas eu estou convencido de uma coisa: ter boas perguntas
é essencial e eu não tenho sequer as perguntas.
Freud, no Projeto, que colocou fora e depois foi reencontrado,
teve uma pergunta: como é que o psiquismo, que está
submetido a estímulos físicos, transforma
estas quantidades em qualidades psíquicas? É
uma pergunta maravilhosa.
Com isso ele se divertiu a vida inteira e deixou para outros
se divertirem por mais gerações. Obviamente
eu não procuro uma pergunta deste tamanho, mas uma
boa pergunta que empurre esta revista por alguns anos.
RP – Então tens a idéia
de psicanálise não só do ponto de vista
técnico e sim mais amplo, para o mundo?
LN – Ela não pode ser tecnocrata.
É uma disciplina humana que a todos interessa. Freud
tinha leitores em todas as disciplinas. Eu lembro que ia
para a biblioteca municipal quando estava no colegial e
pegava Moisés e o Monoteísmo, o Mal-Estar
na Cultura. Eu era adolescente e não era exceção.
Muita gente nesta época lia Freud como uma tentativa
de entender o mundo. E nós perdemos estes adolescentes.
Que adolescente quer ler um artigo nosso? Não sei
se vamos recuperar isso, mas acho que o antropólogo
deve se interessar em saber o que os psicanalistas estão
fazendo. Coisa que atualmente ninguém quer.
RP – Isto inclui a possibilidade
de não analistas escreverem numa revista de psicanálise?
LN – Com certeza. Eu estou pegando
um trem em movimento. É difícil pegar um trem
em movimento, principalmente se a gente quer dirigi-lo.
O primeiro número ficou como a maré do que
vem sendo. No próximo número nós vamos
fazer uma entrevista com Davi Arrigucci Jr., um professor
de literatura, e eu quero discutir com ele como a crítica
literária vê a interpretação.
O que é interpretar?
Como é que os psicanalistas interpretam? Como alguém
da crítica literária interpreta? Como é
que esta pessoa lê um texto clínico, um texto
literário? Ontem fizemos a aproximação
da psicanálise com tapetes. Não é minha
especialidade, mas foi uma aproximação de
curioso e me parece que interessou a todos. Uma revista
deve despertar interesses diversos. Ela não pode
ser tão específica. Outro dia eu descobri
que existem mais revistas sobre concreto – concreto
mesmo – do que sobre medicina. Nunca poderia imaginar
isso, por que o concreto envelhece, se movimenta e tudo
mais. Há revistas especializadas sobre isso. Não
podemos ser tão específicos fazendo revistas
como as revistas sobre concreto. Não podemos e não
devemos. E aí, também no movimento psicanalítico,
vamos contra a maré. Nos últimos tempos houve
uma maré de mercado com muita intensidade.
Não sei se há retorno disso, mas merece a
tentativa.
RP – Quanto ao rumo que poderia ter
a Revista de Psicanálise, será que seus artigos
não deveriam tratar mais da dimensão criativa
do ser humano e não tanto da patologia? Eu vejo,
por exemplo, o seu senso de humor e fico pensando na possibilidade
de ouvi-lo falar mais do uso deste senso de humor na sua
clínica.
Até que ponto a psicanálise poderia se ater
mais a esta dimensão criativa? Concorda que esta
é uma vertente não tão desenvolvida
pela psicanálise?
LN – Nossos grupos sentem-se perseguidos.
Devemos mostrar eficácia porque é uma disciplina
insegura. Freud tem pelo menos dois artigos específicos
sobre o humor. É evidente que o humor é uma
solução de êxito, como um sonho.
O sonho não é o começo do trabalho
analítico. O sonho é o final do trabalho de
elaboração. É um bom ponto de partida
para outro sonho. Quando o sonhador acorda e diz “Tive
um sonho”, há um sentimento de êxito.
E o humor, sem dúvida, é essencial, pois ele
tem este poder de criar uma fissura, o inesperado, o surpreendente.
Nada do que é esperado pode ser engraçado.
São momentos de quebra, os pontos privilegiados de
uma análise. Nunca rimos da natureza. Vocês
nunca imaginam uma paisagem engraçada. Sempre rimos
do que é humano. O engraçado é sempre
o humano, necessariamente o humano. É um fenômeno
social. Quando eu percebi isso, me dei conta do paradoxo.
Eu tenho uma exceção: uma vez estava num parque
americano e havia sequóias.
Eu olhava aquelas árvores, ria e todos que passavam
pensavam: ele está rindo da sequóia. Foi uma
tentativa de tornar uma paisagem engraçada e isto
é impossível. Obviamente a sequóia
não era engraçada. Engraçado era o
absurdo de rir da sequóia. Então isto também
faz parte daquela tentativa da psicanálise de não
ser psiquiatria. Existe uma ruptura com a psiquiatria. Temos
uma idéia da ampli- ação do humano
e não do adaptativo, do adequado. Apesar de não
haver lugar mais adequado que encontros de psicanalistas.
Não há jantares mais formais que os de instituições
psicanalíticas. São tão chatos que
as pessoas vão tomar o cafezinho de olho no elevador,
seguram o elevador com o pé, largam ali mesmo o copo
e acabou.
Lidamos com sexualidade e criatividade, tudo isto. Mas há
um fator persecutório que cria um movimento de adaptação,
de adequação, não só o consciente,
mas o inconsciente deve ser bem adequado. Falta um pouco
de loucura necessária, falta a desadaptação
necessária. Acabamos por defender a psicanálise
que não necessita defesa, necessita desenvolvimentos.
RP – Isso acaba inibindo a produção?
LN – O insight do humor, da criatividade.
Alguém pode ser contra? Sou totalmente a favor do
humor. Mas sou a favor também de uma certa loucura,
inadequação, risco, do erro, da interrogação,
até do acting, do poder dizer “me perdi”,
poder dizer “e agora?”.
RP – Num certo sentido, tu estás
trazendo um aspecto fundamental em psicanálise, talvez
perdido, a questão de um outro olhar, quase de uma
ética própria da psicanálise. Essa
idéia de enxergar a sequóia e ver outra coisa
além da sequóia, que é específica
da própria psicanálise como uma produção
humana num sentido amplo. O contraponto disto é o
que temos visto: o tipo de patologia psíquica do
mundo de hoje que traz a tendência a perder a possibilidade
da criatividade, da subjetividade, da loucura de que tu
falas.
LN – A loucura extrema é a
loucura da pobreza. É maravilhosa a construção
estética com que Freud falava das neuroses. O sintoma
seria como uma construção estética.
O sujeito parar de comer não tem estética.
Não tem discurso sobre o assunto. O mesmo em relação
ao pânico.
RP – No trabalho que escreveste no
livro da IPA, apresentas uma visão otimista da psicanálise.
Como manter este otimismo com estas patologias mais graves
na atualidade? O que nós temos pela frente? Acho
que estamos no olho do furacão, neste que tu falaste,
da crise que estamos vivendo. É muito bom encontrar
uma visão otimista, quando temos pela frente a construção
da capacidade simbólica. Não sei se é
porque estamos vivendo a crise, mas me parece mais difícil
do que as histéricas de Freud.
LN – As histéricas de Freud
eram difíceis para Freud. Talvez, subjacente àquilo,
também tivessem miséria representativa. Talvez,
alguns casos, nós os chamaríamos de limites
e outros não houvesse olhar para percebê-los.
Mas eu sou otimista quando não tentamos ser analistas.
Quando entramos na sala para praticar psicanálise
com atitude defensiva, não ganhamos nada, nada vai
acontecer. É muito diferente quando nos traumatizamos
e, junto com o paciente, vamos conduzi- lo a algum lugar.
Chegamos em um lugar imprevisto. É diferente da situação
em que o paciente é uma prova do seminário
que eu dei ou que fiz. Devemos encontrar a linguagem daquilo.
O paciente deita no divã e pede: “Conta uma
historinha?”
E eu tenho que decidir, na hora, se é proibido contar
uma historinha.
Está certo? Eu posso contar? E agora vou ter de escrever
um artigo de vinte páginas contando por que eu contei
uma historinha, ou não vou contar para ninguém
no Instituto que eu contei uma historinha. Entretanto, eu
posso lembrar da historia que contei e tentar relacionar
por que eu imaginei aquela história. É arriscar-se
ou não se arriscar.
RP – Os psicanalistas de crianças
contam historinhas. Tu achas que eles adquirem maior sensibilidade
com isto?
LN – Eu acho que sim. Há um
tempo atrás, eu estava com Meltzer em São
Paulo e fiz exatamente esta afirmativa: – Quem faz
análise de criança tem esta criatividade,
esta liberdade, faz análise jogando futebol. Ai ele
disse: – O analista
kleiniano não brinca com a criança, ele observa
o jogo da criança.
RP – O analista francês conta
história, o analista inglês não brinca.
LN – Eu acho que o inglês também
conta e é bem capaz que Meltzer contasse, jogasse.
Eu não imagino uma criança que se deixe ficar
lá jogando e o analista fazendo interpretação.
Todas as crianças me catavam, não é
que eu tivesse opção de escolher, elas me
levavam, com exceção de algumas para as quais
eu nem sei se isso era bom.
RP – Falas no passado. Não
atendes mais crianças?
LN – Modifiquei minha clínica
e ela migrou. Poucas vezes atendo crianças atualmente.
Apesar de, nos institutos, fazermos primeiro a formação
de adultos e depois a formação infantil, o
ritmo biológico é diferente, começamos
atendendo criança. Ao menos é o que eu vejo
e o meu trajeto foi assim. Eu acho que isso quase que acompanha
o nível biológico. Quando era inexperiente,
imaturo e sem recursos, tive filhos. Hoje, com mais experiência
e maturidade, só de pensar nesta situação,
eu tenho terror. Tenho um amigo e colega que casou de novo
e tem dois bebês. Quando ele conta que vai ao teatrinho
infantil ou no Simba Safari, no zoológico, fico aterrorizado.
É muito diferente ter um neto. O neto te entregam
vestido, penteado e terminou. Você vai se você
gosta e você vai ao lugar que gosta e depois devolve
o neto. Mas vinte e quatro horas por dia e ainda no Simba
Safari, no teatrinho infantil, aquela coisa horrorosa que
começa atrasada, muitas vezes com atores que não
deram certo no teatro de adulto! Eu acho que acontece o
mesmo com quem atende crianças: necessita um vigor
maior. Aquela coisa de se esparramar na poltrona, com a
criança não acontece. Você tem que jogar,
chutar, a criança entra na sala, sai da sala, vai
ao banheiro, pára de jogar. Eu fui ficando preguiçoso,
fui escolhendo outros casos e fui mudando.
RP – Tu achas que houve uma mudança
na psicopatologia atualmente, ou apenas uma nova apresentação?
LN – Eu acho que houve uma mudança,
porque de repente eu comecei a ver coisas no meu consultório
que eu nunca tinha visto ou que eram raríssimas como
bulimia, anorexia, por exemplo. Pode ser também um
desenvolvimento da metapsicologia das fronteiras, do trabalho
dos sonhos. Desenvolvimento que a clínica foi empurrando,
a questão do holding, da continência, Winnicott.
Eles começaram a pegar casos que não correspondiam
exatamente ao modelo básico da neurose e da psicose:
a simples situação de recalque, splitting
e outros fenômenos. A psicose branca foi se impondo
e houve a retomada do traumático por Laplanche nos
anos 70. Eu acho que temos uma potência clínica
e teórica muito mais desenvolvida do que há
trinta anos e, sem a menor dúvida, do que há
cinqüenta ou cem anos atrás. Enxergamos melhor,
mas também houve uma mudança histórica.
O futebol mudou. Um filme de trinta anos atrás é
lento. Não temos tempo de ficar pensando sobre os
personagens, aquelas tomadas longas do cinema europeu. Vemos
pouco cinema europeu e o próprio cinema europeu é
pouco europeu. O Tarantino ou O caçador da arca perdida
são filmes muito rápidos. Então onde
está o tempo da subjetivação, o tempo
de criar um devaneio, o sonho, o tempo de elaboração?
Somos mais produtivos, lemos menos. As novas gerações
lêem pouco. Não sei se vocês repararam,
as férias eram mais longas.
RP – Falando nas mudanças
de patologias, gostaríamos que nos dissesse algo
sobre a mudança da abordagem técnica nestas
novas patologias.
LN – Também intuitivamente,
desde que eu comecei a escrever e a estudar, pensei que
a Revista de Psicanálise devia ter um caráter
sonhante. A primeira revista se tornou não só
uma interseção com a cultura como era ilustrada.
Você pegava os assuntos importantes e acho que ela
chegava a ter o caráter da disciplina.
Uma disciplina analítica, não propriamente
na interpretação dos sonhos, mas na construção
dos sonhos. Uma forma de acompanhar o conteúdo, uma
forma onírica. Interpretar sonhos é uma atividade,
porém ainda mais difícil é pôr
sonhos onde ainda não há sonhos. Eu acho que
esta é a questão. Precisa tempo, proximidade,
envolvimento e coragem. Não é atenuação
e saber já, não é segurança.
Precisa um pouco de folia, um pouco de Dionísio e
de teatro. Folia é uma palavra de que eu gosto, tem
aquele aspecto infantil, da sexualidade infantil. Assanhamento,
palavra que se usava muito para definir a excitação
da criança, a sexualidade infantil. Não é
sexualidade pesada, é assanhamento, folia, sentimentos
em busca de representação, de figuração,
da cultura enfim.
RP – Tu achas que coragem conta?
LN – Coragem é uma das grandes
qualidades do ser humano. Precisa de folia. Necessita do
medo. Precisa ter amigos.
RP – E a coragem clínica pode
ficar ligada mais ao trabalho interpretativo e não
de construção?
LN – São grandes qualidades,
uma missão nobre. É preciso ter medo. Coragem
implica em medos e inseguranças. Eu gosto de pensar
que o melhor supervisor que eu tenho é o paciente.
Em vez de levá-la ao supervisor e contar-lhe a sessão,
eu levo a supervisão para o paciente. Eu coloco que
já falei isso e disse aquilo e não sei mais
o que fazer. E vêm respostas surpreendentes. Eu nunca
perdi ou tive crise por dizer a um paciente que estava perdido,
que não sabia o que fazer com ele: “Sabe, acho
que vou largar este trabalho, ele não serve para
nada, isto não é vida para ninguém”.
Acho uma infidelidade discutir o caso com outro e voltar
cheio de saber. É como uma pessoa que está
em crise no casamento, tem uma transa e volta feliz para
casa. Tem uma parte engraçada de um filme irlandês
(isto fica em off ), que a moça fica grávida
em uma família católica, tradicional, no meio
de altos valores. Então o pai pega um livro e começa
a ler sobre sexualidade e uma noite começa a fazer
sexo oral. Ela fica muito surpresa, agradavelmente surpresa
e, de repente pára e diz: “Onde é que
você aprendeu isso?”. É a mesma coisa
da supervisão. De repente eu estou perdido, não
sei o que está acontecendo, então falo com
um ser humano que sei lá por que eu o elegi, talvez
o ache muito sábio e volto praticando novas formas
de interação. É preciso cuidado com
a supervisão.
RP – Eu fiquei pensando nessa dimensão
mais solta, mais humana de trabalhar com paciente e até
numa revista. Como fica na atualidade, ou não, a
questão da metapsicologia de Freud? Como conciliar
uma profundidade teórica, ter uma coerência
teórica e conseguir viver solto nesta relação?
LN – Eu estou falando de algo que
não é solto, é totalmente conceitual.
Conceitualmente, não estou defendendo uma soltura.
Eu estou defendendo uma coisa real. Algo que corresponda
mais ao real e à ciência, pois o que estamos
fazendo não é ciência, é estereótipo.
Nós temos limites. Fomos numa direção
em que os trabalhos de Freud não correspondem nem
às exigências editoriais da Revista de Porto
Alegre, nem do International Journal, nem da Revista Brasileira
de Psicanálise. Não seriam publicados. Se
não tem exemplo clínico ou configuração
clínica, não sai. Mas Freud é a base
e voltamos para ele sempre. Por outro lado eu tenho certeza
de que meu trabalho editorial tem limitações
que estão no interior da instituição,
no interior da Federação das Sociedades. Temos
que corresponder, publicar trabalhos das Sociedades, publicar
os autores, o de costume.
A questão não é trabalhar mais solto,
é trabalhar dentro da estrutura real na qual você
está inserido. É preciso avaliar a dimensão
da liberdade editorial que se tem e a possibilidade de caminhar
dentro disso. Vale para a clínica e para o trabalho
do editor.
RP – É interessante esta questão
de ver e rever Freud porque Freud, na metapsicologia e nos
editais, se insere exatamente nessa pessoa que escreve,
publica, atende os pacientes e fala do prazer de ver sua
paciente, que antes não conseguia nem andar, dançando.
Acho que nisso podemos ver o próprio Freud.
LN – E veja que com Freud era o início.
Hoje temos uma eficácia clínica muitíssimo
melhor. Mas o que é lindo é o movimento, o
nascimento. E nem sempre um adulto é mais bonito
do que um bebê. São belezas específicas.
Belezas do
nascimento da psicanálise, da meia idade da psicanálise,
da maturidade da psicanálise.
São problemas específicos e belezas específicas.
O bonito é o movimento e não a chegada. A
chegada chegou e é preciso movimentar-se de novo.
RP – O feio é não ter
movimento, ficar parado.
LN – O movimento é a essência
da psicanálise e da vida. A chegada é mística.
RP – Bem, tendo em vista o adiantado
da hora, resta uma última questão que interessa
a todos, não só à Revista, mas à
própria psicanálise. Freud, no seu trabalho,
demonstra a forma de pensar os pacientes. Para isso utiliza
o recurso do caso clínico e seu pensamento é
divulgado. Hoje em dia temos uma questão, interna
e externa à psicanálise, a respeito da publicação
do caso clínico. Todo caso clínico é
identificável, pelo menos o próprio paciente
pode se reconhecer no sonho. O sonho é meu, o caso
é meu. Então, temos duas correntes. A primeira
diz que não podemos publicar caso clínico
sem a autorização do paciente. Isso nos leva
a não publicar os casos e, portanto, a apresentar
trabalhos teóricos e não práticos.
De outra parte, é justamente a apresentação
do analista trabalhando que vai mostrar a força da
psicanálise. Poderias nos falar um pouco sobre isso?
LN – Eu acho muito difícil escrever
um caso clínico. Quando escrevo uma sessão,
tenho a sensação forte de que estou mentindo,
que não é exatamente isso.
Cada vez que eu conto é diferente. Vocês devem
ter a experiência de levar casos para seminários
e, dependendo da pergunta, desviam para lá, para
cá, sempre com a dimensão daquele momento.
Uma primeira coisa seria desmontar esta visão empirista
e ao que ela corresponde. Aí a prática prova
a teoria, porque, até quando você olha, a forma
como sofre o impacto do que você olha depende do enquadre
teórico que você elege. Por exemplo, na câmera
temos a angulação, o enquadramento.
Eu contei uma vinheta clínica aqui e talvez nem se
deram conta. Quando falei “Me conta uma historinha”,
contei um pedaço de sessão, o impacto sobre
mim e a problemática da situação. Eu
posso contar isso num outro contexto e teria outra dimensão,
uma outra representação. Não é
identificável.
É preciso definir o movimento do analista, o movimento
do paciente, a mobilidade psicanalítica. Eu também
não gosto e ficaria ofendido se contassem meu caso,
não porque me apresentariam para o público,
mas porque eu não sou um caso, não sou apenas
conhecido em uma compreensão, não sou resumido
numa interpretação. Não quero estar
situado nisso, mas é o que acontece. É uma
visão psiquiátrica. É o momento do
movimento e, se o mundo externo e o mundo pulsional se abatem
sobre o psíquico, o que resta para dar conta? Porque
eu nunca dou conta nem do pulsional nem do mundo externo.
A cada momento tenho um pouco mais de apreensão.
É diferente, então, você mostrar o movimento
do seu pensamento analítico e tentar abarcá-lo
num caso clínico. Mas essa é uma visão
pessoal sobre o assunto.
Mesmo chamar de caso clínico, eu não quero
ser um caso clínico, acho que ninguém quer.
Também não quero que o que eu fale seja chamado
de material. São algumas dimensões de uma
ética no tratamento dessa interação.
Mas eu não posso colocar como ordem. Se o caso pode
ser identificado, não pode ser publicado.
Devemos encontrar saídas, disfarces. É uma
recriação, uma reinvenção mesmo.
Alguns casos que tiveram o anonimato, algumas gerações
depois, soubemos quem foram. Freud teve quatro casos clínicos,
em vinte e três volumes, mais as cartas e boa parte
dos sonhos são dele mesmo. Se compararmos sua obra,
quanto tem de apresentação e quanto de reflexão?
RP – Muito obrigado, nós da
Revista e da SPPA ficamos muito satisfeitos, acho que esta
entrevista abre a possibilidade de criar sonhos, de refletir.
LN – Eu agradeço e desejo
toda a sorte a vocês e a mim. Com certeza vamos tentar
fazer bem o nosso trabalho.
Transcrição de Zauro Kowalski
Revisão técnica de Clarice Kowacs e Tula Bisol
Brum
© Revista de Psicanálise – SPPA