Este trabalho acompanha as discussões
do grupo de estudos de epistemologia psicanalítica
da SPPA. Tem como principal objetivo apresentar uma abordagem
inicial sobre uma visão do funcionamento da mente e,
principalmente, do inconsciente, a partir da perspectiva da
Complexidade e da Teoria do Caos, idéias fundamentais
no pensamento científico atual. Começa apresentando
algumas noções sobre sistemas caóticos
deterministas, tais como a sensibilidade às condições
iniciais e a tendência a se organizarem e formarem padrões,
as escalas fractais, que, mesmo imprevisíveis, podem
ser reconhecidos retrospectivamente, (as escalas fractais).
Após discute algumas relações entre estes
conceitos e o inconsciente, destacando como a psicanálise
antecipou alguns princípios básicos do pensamento
científico de hoje, principalmente quando Freud introduz
a noção de inconsciente com suas leis próprias,
em constante relação com o consciente. O inconsciente
surge como um sistema que apresenta um comportamento instável,
aperiódico, e altamente complexo, do qual se auto-organizam
determinadas estruturas como uma escala fractal. Destacam-se
contribuições de Bion e Matte-Blanco que auxiliam
na compreensão do inconsciente e a noção
de que este conceito mantém seu mistério.
Abstract
The unconscious under the perspective of complexity and
chaos: a preliminary approach
This paper is associated to the discussions of the SPPA -
Study Group on Psychoanalytic Epistemology. Its main objective
is to present an initial approach to the viewing of the mind's
functioning and, above all, of the unconscious, as from the
perspective of Complexity and Chaos Theory, fundamental ideas
of the present scientific thought. It begins by presenting
some notions about deterministic chaotic systems such as the
sensibility towards the early conditions, and the tendency
to organize and form patterns, the fractal scales that, although
unpredictable, can retrospectively be recognized. Further
on it discusses some relations between these subjects and
the unconscious, emphasizing how Psychoanalysis anticipated
some basic principles of today's scientific thought, mainly
when Freud introduces the notion of the unconscious, with
its own laws, in constant relation to the conscious. The unconscious
emerges like a system that presents an unstable behavior,
not periodic, and highly complex, from which certain structures
organize themselves like a fragmentary scale. There are outstanding
contributions by Bion and Matte-Blanco that help understanding
the unconscious as well as the idea that this concept keeps
up its mystery.
Resumen
Este trabajo acompaña las discusiones del Grupo de
Estudios de Epistemología Psicoanalítica de
la SPPA. Tiene como principal objetivo presentar un enfoque
inicial sobre una visión del funcionamiento de la mente
y, principalmente, del inconsciente, desde la perspectiva
de la Complejidad y de la Teoría del Caos, ideas fundamentales
en el pensamiento científico actual. Comienza presentando
algunas nociones sobre sistemas caóticos deterministas,
tales como la sensibilidad a las condiciones iniciales y a
la tendencia a organizar y formarse padrones, las escalas
fractales, que, mismo imprevisibles, pueden ser reconocidas
retrospectivamente. Luego, discute algunas relaciones entre
estos conceptos y el inconsciente, destacando como el psicoanálisis
anticipó algunos principios básicos del pensamiento
científico de la actualidad, principalmente cuando
Freud introduce la noción de inconsciente con sus leyes
propias, en constante relación con el consciente. El
inconsciente surge como un sistema que presenta un comportamiento
inestable, no periódico, y altamente complejo, del
cual se autoorganizan determinadas estructuras como una escala
fragmentaria. Se destacan contribuciones de Bion y Matte-Blanco
que ayudan en la comprensión del inconsciente y la
noción de que este concepto mantiene su misterio.
Introdução
Por que retomar o conceito de inconsciente? Não se
trata do conceito sobre o qual Freud desenvolve a psicanálise,
uma unanimidade entre os psicanalistas e entre pensadores
de outras áreas, mesmo não tendo sido ele o
primeiro a usar a expressão, nem seu "descobridor"?
O pensamento filosófico do século XIX, através
de Nietzsche e Schopenhauer entre outros, apresentava uma
concepção de inconsciente marcada pelo romantismo,
uma espécie de "subconsciência", uma
consciência profunda onde jazia um outro eu. Freud entra
por este caminho, desbravando o inconsciente e levando o conceito
às últimas conseqüências, principalmente
quando, a partir do estudo dos sonhos, descreve seu funcionamento
regido por leis próprias, fora do âmbito da consciência.
A partir daí, a visão do homem nunca mais poderia
ser a mesma, principalmente no que diz respeito à ilusão
de ter o controle sobre seus atos.
Apesar desta inseparável identidade da psicanálise
com o conceito de inconsciente, um olhar mais atento permite
constatar que, sob o mesmo nome, subjazem modelos bastante
diferentes. Assim, encontramos o termo "inconsciente"
empregado de várias formas entre psicanalistas. Como
substantivo, designando um "locus" definido por
oposição a "consciente" e, apesar
de sabermos que não há um local na mente correspondente
a ele, ainda é um modelo espacial que não desapareceu
dos textos psicanalíticos (Paniagua, 2001), possivelmente
pela necessidade da mente humana de organizar as percepções
nestes termos. Como adjetivo, relaciona-se predominantemente
com a segunda tópica, usado como uma qualidade de conteúdos
do ego, do superego e do id. Encontramos ainda o uso do termo
associado à idéia de processo, de função,
relacionado a formas específicas de operar da mente,
como em Matte-Blanco (1975). O aspecto dinâmico, com
a noção de conflito, permanece vinculado a "inconsciente";
da mesma forma, o modelo energético - forças
inconscientes pressionando a entrada na consciência,
em oposição à barreira da censura - também
se faz presente. Mais recentemente deparamos com uma descrição
do inconsciente como um sistema caótico determinista,
tema que foi objeto de um painel no último congresso
psicanalítico em Nice (Procci, 2002).
Acompanhando em linhas gerais a forma como a noção
de inconsciente tem sido pensada nestes 100 anos de psicanálise,
dentro da linha Freud-Klein-Bion que estamos focalizando e
na qual incluímos Matte-Blanco, fica implícito
que a visão de inconsciente em cada autor está
inserida na sua concepção de modelo de funcionamento
psíquico. Se em Freud este é um conceito essencial
sobre o qual se estrutura o psiquismo, mesmo após a
segunda tópica, em Klein fica privilegiado o conceito
de fantasia inconsciente, onipresente na vida mental. Klein
não estava preocupada em desenvolver uma teoria do
inconsciente e tinha uma visão descritiva, a partir
da clínica, não pretendendo mostrar como se
formavam estas fantasias inconscientes. É como se estivesse
implícito que eram produzidas por mecanismos intrínsecos
ao aparelho mental, principalmente introjeção
e projeção. Seguindo nesta evolução,
Bion dedica-se a estudar o funcionamento do "aparelho
para pensar", e a separação entre o que
é consciente e o que é inconsciente é
definida pela formação da barreira de contato
composta por elementos alfa.
Matte-Blanco aproxima-se de Bion em vários aspectos
e propõe consciente e inconsciente como modos de funcionamento,
cada qual com sua lógica própria, assimétrica
ou simétrica, intimamente relacionadas e representando
formas distintas de discriminar relações. A
lógica simétrica identifica a homogeneidade
e caracterizaria o funcionamento inconsciente em seus vários
níveis. Para ele, a qualidade de ser inconsciente não
é primária, mas um produto necessário
da relação entre o modo simétrico e assimétrico.
O inconsciente é produto de uma limitação
da consciência, que não tem condições
de abarcar a complexidade de dimensões do ser (Matte-Blanco,
1975).
Em cada visão apresentada por estes autores é
possível percebermos a influência do pensamento
científico da época. Em Freud, os conceitos
de energia, em Klein, noções da dialética
de Hegel, em Bion, a física quântica e a matemática
de Poincaré, em Matte-Blanco, a lógica matemática
de Russell e, em todos, algo da epistemologia kantiana (Sandler,
1997).
Já o pensamento científico atual percebe, cada
vez mais, a insuficiência do modelo cartesiano para
explicar os fenômenos, tendendo de forma marcante para
o estudo dos sistemas complexos (Santos, 1985), o que nos
conduz à complexidade e ao caos.
Dentro desta linha de pensamento, este trabalho acompanha
as discussões do Grupo de Estudos sobre Epistemologia
Psicanalítica da SPPA. Tem como principal objetivo
apresentar uma abordagem inicial sobre uma visão do
funcionamento da mente e, principalmente, do inconsciente,
a partir da perspectiva da Complexidade e da Teoria do Caos.
Começa apresentando algumas noções sobre
estes conceitos para, após, relacioná-los à
compreensão do objeto deste estudo: o inconsciente.
A complexidade e o caos
O pensamento científico atual, afirma Santos (1993),
vive "um tempo atônito" (p.5), um "tempo
de transição" (p.6) em que o modelo da
racionalidade não mais atende às necessidades
do conhecimento. Esse modelo buscava leis aprendidas do que
seria observação pura e experimentação
que pudessem ser expressas por idéias matemáticas,
compreendidas como "idéias claras e simples a
partir das quais se pode ascender a um conhecimento mais profundo
da natureza" (p.14).
Assim, vemos que a ciência cartesiana tem por objetivo
simplificar, encontrar a expressão mais simples de
situações complicadas, analisar e dividir sucessivamente
um problema em seus componentes até chegar à
expressão essencial deles. É bem essa a origem
da idéia de átomo, "o que não mais
pode ser dividido", surgida na antiga Grécia,
não porque tenha sido observado, mas como decorrência
lógica de um limite para a divisão da matéria.
Esta simplificação lógica da ciência
clássica considerava o surgimento de uma contradição
como sinal de um erro de raciocínio, pois supunha que
o mundo obedecia a uma lógica aristotélica e
se buscavam explicações universais e certezas
(Santos, 1993). Mas a evolução da ciência
seguia outro rumo. Pascal já percebia que, se era verdade
que para conhecer o todo era necessário conhecer as
partes, também era verdadeiro que para conhecer as
partes se fazia necessário conhecer o todo. O todo
é mais do que a soma das partes por um lado e menos
por outro, mas nunca é igual. Mais, porque surgem propriedades
emergentes, decorrentes da sinergia do todo; menos, porque
as partes abrem mão de potencialidades para participarem
do todo.
Nesta linha, seguiram-se os trabalhos de Poincaré utilizados
por Bion e todas as descobertas da física quântica,
apontando para a incerteza dos fenômenos e a impossibilidade
de se obterem descrições exatas.
É importante ainda destacar os estudos de Ilya Prigogine,
prêmio Nobel de Química de 1977, que revolucionaram
o segundo princípio da termodinâmica. Sua teoria
das estruturas dissipativas e o princípio da 'ordem
através de flutuações' estabelecem que,
em sistemas abertos, sistemas que funcionam nas margens da
estabilidade, a evolução explica-se por flutuações
de energia que, em determinados momentos, nunca inteiramente
previsíveis, desencadeiam espontaneamente reações
que, por via de mecanismos não lineares, pressionam
o sistema para além de um limite máximo de instabilidade
e o conduzem a um novo estado macroscópico. Essa transformação
irreversível e termodinâmica é o resultado
da interação de processos microscópicos
segundo uma lógica de auto-organização
numa situação de não-equilíbrio.
Assim, novas organizações complexas surgem a
partir da desordem (Santos, 1985).
Neste contexto, encontramos as contribuições
de Edgar Morin, pensador francês contemporâneo
que transita entre as ciências humanas, a biologia e
a física, interessado em estudar este panorama marcado
pela incerteza e caracterizado pela complexidade.
Morin (1991) é dos primeiros a reconhecer o pioneirismo
de Freud no rompimento com a visão cartesiana - ainda
que pretendesse seguir seus princípios paradigmáticos
- ao colocar a psicanálise na linha da complexidade,
descrevendo a presença de opostos simultâneos
no inconsciente. Nas suas palavras:"É extraordinário
que uma idéia tão fundamental como o sistema
aberto tenha também tardia e localmente emergido (o
que já mostra que o mais difícil de perceber
é a evidência). Com efeito, está presente,
mas não explicitamente liberta em certas teorias, particularmente
em Freud, onde o Eu é um sistema aberto simultaneamente
sobre o isso e o superego, apenas podendo constituir-se a
partir de um ou de outro, mantendo relações
ambíguas, mas fundamentais com um e com outro;
"
(p.28).
É ainda Morin quem chama a atenção para
o fato de que "os elementos simples" já não
são mais a âncora onde apoiar conceitos: "Já
não há mais solo firme, a 'matéria' já
não é a realidade maciça elementar e
simples à qual se podia reduzir a physis. O espaço
e o tempo já não são mais entidades absolutas
e independentes. Já não há mais não
apenas uma base empírica simples, mas uma base lógica
simples (noções claras e distintas, realidade
não ambivalente, não contraditória, estritamente
determinada) para constituir o substrato físico. Daí
uma conseqüência capital: o simples (as categorias
da física clássica que constituíam o
modelo de qualquer ciência) não é mais
o fundamento de todas as coisas, mas uma passagem, um momento
entre complexidades, a complexidade microfísica e a
complexidade macro-cosmo-física" ( p.23).
Complexidade enfatiza a interconexão entre todas as
variáveis do sistema, realçando a dependência
deste em relação ao ambiente e afirma que, diferentemente
do que se pensava, a entropia não tem um único
sentido (do menos para o mais desordenado, de mais quente
para mais frio), podendo os sistemas classificados por Prigogine
como longe do equilíbrio encaminhar-se espontaneamente,
sem interferência externa, da desordem para a ordem
(uma nova ordem, diferente da anterior), dependendo para isso
apenas de sua capacidade de auto-organização,
de sua estrutura interna. Seres vivos são bom exemplo
disto: contrariam a segunda lei da termodinâmica não
apenas por serem sistemas abertos à energia, mas por
criarem ordem a partir do caos. Assim, Morin fala de uma lógica
da complexidade que afasta a causalidade simples e propõe
que o conhecimento só pode ser alcançado a partir
de uma dialógica entre ordem e desordem. Esta seria
uma lógica que geraria ordem a partir do erro, do ruído
(Eizirik, 1997).
A teoria determinista do caos tem sido utilizada para elucidar
o funcionamento de vários sistemas complexos, mostrando
que a desordem do sistema pode ser apenas aparente e que uma
ordem (sem periodicidade) governa sistemas que eram antes
considerados completamente aleatórios. Além
disso, paradoxalmente, causas deterministas poderiam dar origem
a efeitos imprevisíveis. Isto porque uma característica
importante dos sistemas complexos (caóticos) é
sua sensibilidade e dependência às condições
iniciais do sistema; mudanças infinitesimais ocorridas
no início do processo são capazes de determinar
grandes mudanças (Abrams e Sardar, 1998).
Assim, a teoria do caos lida com sistemas complexos que, se
por um lado obedecem às leis da física fundamental
(o que inclui previsibilidade do processo), por outro, são
imprevisíveis, tamanho é o grau de diversidade
que apresentam. Sistemas complexos (considerados por Prigogine
como distantes do equilíbrio) necessitam de um grande
dispêndio de energia para manterem-se coesos. Após
passarem por um período caótico (quando se desorganizam),
tais sistemas buscam, em suas estruturas internas, uma redefinição
(desconsiderando, neste momento, o ambiente ) e, a partir
desta auto-organização, avançam para
um novo nível de organização (Prigogine,
1996).
Atualmente, o termo caos é utilizado no sentido de
uma desordem organizada. Estas descobertas questionam o método
científico clássico, baseado em princípios
basicamente deterministas, no qual os efeitos são sempre
proporcionais às suas causas. A questão que
tem sido discutida, e que foi tema de um painel no congresso
internacional de Nice, em 2001, é em que medida a teoria
do caos, com uma linguagem e conceitos diferentes da psicanálise,
pode contribuir de alguma forma com os conhecimentos psicanalíticos,
sem que se constitua numa mera transposição,
ou seja, respeitando as especificidades da cada área
(Procci, 2002).
Assim, a proposta é que o funcionamento da mente poderia
ser comparado ao comportamento de sistemas complexos (Quinodoz,
1997). E, principalmente, dentro do que nos interessa aqui,
o trabalho inconsciente da mente, conforme observável
no trabalho clínico, apresentaria características
de um sistema caótico determinista. Vejamos alguns
destes aspectos.
1) No inconsciente, como nos demais sistemas complexos, há
uma "sensível dependência das condições
iniciais". Assim, pequenas diferenças na interação
da criança com seus pais (ambiente), ou mesmo na interação
paciente-analista numa sessão, podem causar grandes
alterações.
2) Sistemas caóticos tendem a se organizar e formar
padrões que, mesmo imprevisíveis, podem ser
reconhecidos retrospectivamente. A teoria do caos mostra como
uma atividade aleatória produz estruturas inesperadas
que, com a repetição da experiência, voltam
a um estado de caos do qual, com a repetição,
emerge um padrão que se parece com o original.
Este fenômeno é chamado de escala fractal, estudada
por Mandelbrot e que mostra como sistemas complexos apresentam
similaridade quando examinados em diferentes níveis
de magnitude. É encontrado na natureza, nas artes,
em padrões de linguagem, na estrutura da personalidade,
numa sessão de análise. Assim, o funcionamento
inconsciente, comparável a um sistema caótico,
tenderia a se organizar em padrões que apresentariam
características comuns, assim como os derivados do
inconsciente, mantendo uma estrutura básica comum,
semelhante a um fractal.
3) O conceito de atrator foi desenvolvido para representar
a variação de um sistema no tempo, a forma de
um sistema conforme é esquematizado num espaço
de fase, correspondendo ao que lhe dá a identidade.
Um exemplo simples pode ser encontrado no fato de que, sempre
que se esvazia um recipiente com água por um orifício
de drenagem, a massa total entra em movimento com forma típica
de vórtice. Entre todos os tipos de atratores, nos
interessa especialmente o "atrator estranho", que
é um padrão aleatório de pontos não
repetidos com duas características: tem uma forma previsível,
mas composta por detalhes imprevisíveis e, ao mesmo
tempo, é o que organiza o sistema e é produzido
pelo sistema do qual faz parte.
Assim, modelos inconscientes que influenciam o comportamento
seguem padrões infantis que poderiam ser considerados
"atratores". Conteúdos mais próximos
destes atratores seriam mais fixos, menos acessíveis
ao trabalho analítico.
Todas essas características podem ser pensadas em termos
intrapsíquicos ou em termos do que ocorre no processo
psicanalítico. Se pensarmos no funcionamento psíquico,
o modelo da teoria determinista do caos evidencia o aspecto
de uma oscilação contínua entre material
desorganizado, caótico, não perceptível
pela consciência e uma organização em
padrões que, apesar de guardarem semelhança
com o original, podem ser criativos ao infinito, como os derivados
do inconsciente de Freud, como as fantasias inconscientes
de Klein, como os elementos alfa de Bion ou como as tríades
assimétricas de Matte-Blanco. Todas essas formações
corresponderiam a fractais por manterem uma estrutura comum,
invariante. É importante a noção de que
haveria no aparelho psíquico, como parte constituinte
do ser vivo, uma tendência para esta auto-organização,
para uma diminuição da entropia.
No processo analítico, portanto em outra dimensão,
também aconteceriam momentos de desorganização
caóticos, nos quais o material do paciente parece sem
sentido, até que surja um fato selecionado que ordena
o material num padrão. Assim, poderíamos pensar
em paciente e analista formando um sistema complexo com características
de sistemas caóticos deterministas, o que abre a possibilidade
de se estudar se esta perspectiva auxilia no trabalho clínico,
ainda que este aspecto escape aos propósitos deste
artigo.
Seguindo nesta linha de reflexão, algumas questões
sobre a forma de se pensar a mente, o que inclui as concepções
sobre o inconsciente, surgem naturalmente.
Comentários
O que procuramos destacar é que a psicanálise
antecipou alguns princípios básicos do pensamento
científico atual, que enfatiza a complexidade, sobretudo
quando Freud introduz a noção de inconsciente
com suas leis próprias, em constante relação
com o consciente. No entanto, por ser um homem de sua época,
Freud tentou incluir estas noções dentro do
pensamento cartesiano, propondo que estas áreas inconscientes
fossem resgatadas pela consciência. Para Freud, a razão,
fundamental no pensamento iluminista, era a única alternativa.
Mas de que forma compreendemos hoje a noção
de inconsciente? Quais os conhecimentos que temos a respeito
dos processos psíquicos que atuam sobre a conduta do
indivíduo e que escapam à consciência
deste? Este conhecimento é diferente e, se é,
em que difere do que se tinha nos primórdios da psicanálise?
De que forma tal conhecimento influencia nossa prática
clínica na atualidade?
Como na totalidade do pensamento psicanalítico, também
em relação à concepção
do inconsciente podemos pensar que há um movimento
de mudança, mesmo que, principalmente em nosso trabalho
diário, ainda utilizemos como referência as várias
formas nas quais o conceito tem sido pensado ao longo dos
anos.
Ainda que sigamos, em alguma medida, preocupados com as razões
e causas da forma de ser e de agir, bem como da estruturação
psíquica dos indivíduos, ou seja, mesmo que
sigamos pensando psicanaliticamente pelo vértice determinista
(causa - efeito), parece-nos que a psicanálise atual
tende a enfatizar cada vez mais a indeterminação
e a imprevisibilidade dos processos psíquicos. Imprevisibilidade
entendida aqui como aquela característica dos sistemas
complexos caóticos deterministas.
Assim, o inconsciente surge como um sistema que apresenta
um comportamento instável, aperiódico e altamente
complexo, do qual se auto-organizam estruturas.
Talvez sejam as idéias de Bion e Matte-Blanco as que
melhor reflitam a evolução do que há
de mais revolucionário na concepção freudiana
da mente como um sistema aberto e complexo, em que os paradoxos
têm papel essencial. O inconsciente apresenta-se aqui
mais como uma função da mente, em constante
relação com as demais, como uma das formas de
organizar os dados das experiências emocionais, que
surgem como a matéria-prima sobre a qual qualquer conhecimento
vai se construir. Assim, há uma clara tendência,
dentro desta linha de pensamento, de deslocar para a emoção
a base da vida mental, rompendo com a dicotomia afeto/representação.
Uma emoção seria o elemento cognitivo básico,
que cresceria em complexidade à medida que outras funções
fossem se agregando. Nas palavras de Morin, "a computação
mais vertiginosa é menos complexa que a mínima
ternura" (apud Gerber, 2003).
De acordo com Matte-Blanco, qualquer experiência seria
organizada simultaneamente em vários níveis,
desde o mais simétrico, onde predomina a emoção,
até o raciocínio mais abstrato, onde predominam
os mecanismos de lógica assimétrica. No entanto,
o fundamental neste modelo é que a simetria, modo de
funcionamento que determina a característica de não
perceptível pela consciência, continua essencial
para a construção de todo pensamento criativo.
"Inconsciente", portanto, só pode ser pensado
em relação a "consciente". É
como se do caos do simétrico fosse possível
organizar infinitas tríades de relações
que guardam algo do original. De alguma forma, é o
inconsciente freudiano, sempre reconhecível através
de seus derivados, mesmo que eles sejam diferentes em sua
apresentação e magnitude, como nos fractais.
São os infinitos elementos alfa, a partir dos quais
os pensamentos poderão se desenvolver.
O inconsciente seria concebido como um número infinito
de conjuntos infinitos, regidos pelos princípios da
simetria, o que faria com que não reconhecesse indivíduos,
apenas classes, porque não lida com objetos, mas com
funções proposicionais. A transferência
seria explicada pela concomitância do modo simétrico
e do assimétrico: pelo primeiro, o analista preencheria
alguma função proposicional, registrando semelhança
com algum objeto primitivo; pelo segundo, o paciente teria
alguma percepção de que o analista não
é o objeto primário, já que seriam detectadas
as diferenças (Matte-Blanco, 1975). A transferência,
assim, apresenta-se como um fenômeno paradoxal, complexo
no qual o analista é e não é o objeto
primitivo.
Retomando a contribuição de Freud à história
do conhecimento pela postulação do inconsciente
como um outro nível de realidade, Gerber (1999) sugere
que talvez o termo que melhor explicite a intenção
freudiana seja a-consciente, no qual o prefixo A, alfa-privativo,
conota um sentido de além, de transcendência.
Ou seja, não um prefixo In que conote negação,
oposição, no mesmo nível de realidade,
mas o prefixo A apontando para além do nível
de realidade consciente. Assim, o a-consciente destaca a característica
do que está além da consciência na nossa
vida mental.
Desta forma, parece haver, na clínica psicanalítica,
uma clara mudança de ênfase: se, inicialmente,
o fim a ser atingido era o acesso aos conteúdos "do
inconsciente" , sendo o método analítico
um meio para atingir este objetivo, cada vez mais se procuram
formas de tornar acessível ao paciente o conhecimento
do modo como organiza suas experiências emocionais,
como percebe, sente, pensa e age. Em outras palavras, conhecer
sua escala fractal. Para Bion, não importa tanto o
conteúdo do que é pensado, mas a forma de pensar,
que possa incluir mais verdade sobre a experiência emocional.
O inconsciente surge como o que não é dizível
do apreendido da experiência emocional, utilizado preferencialmente
como um instrumento, uma ferramenta que habilite compreender
melhor a estruturação psíquica do paciente,
através da experiência emocional que vivemos
nas sessões psicanalíticas.
Além disso, a noção de inconsciente como
um modo de percepção das experiências
que se aproxima de uma emoção e não de
uma lógica aristotélica coloca a observação
psicanalítica como uma observação que
também precisa ser aprendida para perceber o "inconsciente"
não apenas como uma decodificação lógica
de conteúdos, mas como uma percepção
emocional que nos aproxima da noção de intuição,
proposta por Bion e Matte-Blanco.
Pensamos hoje no inconsciente menos como algo a ser revelado
e mais como algo a ser utilizado. O inconsciente deixa de
ser algo que explica para ser algo que demanda explicação.
Vida é complexidade crescente. Fazendo curto um longo
caminho, chegamos ao homem e sua vida mental, sistema complexo,
em que corpo, mente e ambiente formam uma rede inseparável
que a psicanálise segue procurando compreender em seus
paradoxos.
"Inconsciente" parece uma destas concepções
que ainda mantém seu mistério, do qual nos aproximamos
sabendo que, talvez, busquemos certezas impossíveis
de serem alcançadas.
Referências
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Porto: Afrontamento, 1993.
Recebido em 01/12/2003
Aceito em 03/12/2003
Viviane Mondrzak
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