Marxismo, Ideologia e Rock’n’Roll


Comentário de Katia Wagner Radke

Marxismo, Ideologia e Rock’n’Roll
 

A adaptação de Luciano Alabarse: Marxismo, Ideologia e Rock’n’Roll, inspirada no texto de Tom Stoppard, é encantadoramente estimulante... um convite à reflexão! Neste sentido, senti vontade de entender melhor a relação entre ideologia e Rock’n’Roll.
 

As ideologias, as crenças e o pensamento mágico fazem parte daquilo que chamamos de estruturação do pensamento, correspondendo às suas formas mais primitivas e que, portanto,  espera-se que evolua para um pensamento mais reflexivo, científico!
 

Ideologia, na sua forma mais extremada, mais radical, introduz uma ideia de certezas absolutas, de engessamento; um pensamento que não tolera diferenças: onde só há espaço para duas possibilidades; ou és e pensa como eu, ou és banido! Ou és a favor, ou és contra! Neste sentido, o diferente é ameaçador! Portanto, o pensamento crítico e reflexivo não combina com “pensamento” ideológico.
 

Acredito que esta forma de “pensar”(ideologicamente) está na contramão da subjetividade, “coisificando o humano”. Se o que nos caracteriza como seres humanos é, justamente, a nossa capacidade de viver experiências emocionais e de pensarmos crítica e reflexivamente, ao sermos “impedidos” disto, desumanizamo-nos!
 

Quando Max fala, por exemplo, que cérebro é uma máquina fisiológica de pensar, Magda lhe contesta dizendo que o que gosta nos cérebros é que são todos iguais e o que não suporta nas mentes é que são diferentes, uma alusão à sua intolerância ao individual e ao criativo. Fica implícita a ideia de que a ideologia (neste extremo) massifica e coisifica. O personagem Ian parece concordar com isto, o que parece explicito em uma de suas falas: “Humanos discordam uns dos outros!”.
 

Neste contexto do aprisionamento, pensei que o Rock’n’Roll possa representar um contraponto. À medida que o Rock surgiu nos EUA dominados por uma ideologia de segregação( no final dos anos 40), como uma música negra dos guetos negros, onde negros e brancos não podiam frequentar os mesmos lugares, tinham assentos diferentes em transportes públicos e onde músicas negras  eram proibidos de serem veiculados nas rádios.
 

Neste momento, surge Elvis Presley, um branco, que gravou uma música (Rock) composta por um negro, abrindo as portas para os negros no “Mundo dos Brancos”, acreditando na convivência e na fusão das diferenças.
 

Assim, acredito que o Rock é muito mais do que um estilo musical, é uma atitude crítica, transformadora; uma quebra de paradigma.
 

Cito uma fala de Magda, que, ao meu ver, ilustra a ideia da necessidade de romper com o encarceramento que ideologias aprisionantes produzem: “Precisamos redescobrir o nosso mistério, a artesania do humano [...]  Teoria sem afeto é pobre, falta vida”.