Macbeth


Comentário de Cláudio Laks Eizirik

Volume IX, Número 2, Agosto, 2002


BREVE COMENTÁRIO PSICANALÍTICO SOBRE MACBETH

Cláudio Laks Eizirik, Porto Alegre

“Só podemos imaginar Macbeth em meio às brumas, onde cada sombra que estremece e cada folha que se move fazem temer a presença do emissário do demônio, sob a chuva caindo de um céu de chumbo, onde os raios de sol não conseguem penetrar, nem o brilho das estrelas. No cinema esses efeitos se ampliam. Saímos completamente transtornados do filme de Orson Welles, como se estivéssemos de volta ao passado, aos tempos diluvianos” (Green, 1994, p.160).

Andre Green escreveu um ensaio sobre Macbeth, com o subtítulo “Progenitura ou Desarraigamento”, em que apreende com muita acuidade o que, possivelmente, muitos de nós vivemos ao assistir há pouco a esta versão do Macbeth realizada por Orson Welles.

É uma peça que pode ser lida ou vista e ouvida como se referindo a vários temas. Um dos temas é o mal. Mas ela fala de tantos temas e permite tantas leituras que, evidentemente, só se pode tocar em alguns deles. Um fato significativo é que alguns dos principais leitores ocidentais tiveram nesta peça a sua leitura preferida em termos da obra de Shakespeare. Por exemplo, Jorge Luiz Borges considerava esta a melhor tragédia de Shakespeare, ou pelo menos aquela que a ele impressionava mais.

Freud, ao longo da sua obra, inúmeras vezes se referiu a Macbeth e, inclusive, escreveu um trabalho em que estudou de modo específico o drama de Lady Macbeth (Freud, 1916). O escritor e crítico literário contemporâneo Harold Bloom diz que este é o livro do qual ele gosta mais entre as obras de Shakespeare. Segundo ele: “ A reação universal a Macbeth é que nos identificamos com ele, ou ao menos com sua imaginação...Macbeth sofre intensamente por saber que faz o mal e que precisa continuar fazendo ainda pior. Shakespeare faz com que assustadoramente sejamos Macbeth; nossa identificação com ele é involuntária, mas inescapável...Ele mal percebe de forma consciente uma ambição, desejo, ou vontade e já se vê tendo perpetrado o crime que sacia a sua ambição. Macbeth nos aterroriza, em parte porque esse aspecto de nossa imaginação é tão assustador: parece tornar-nos assassinos, ladrões, usurpadores, violadores” (1998, p.517).

Um aspecto que se poderia destacar também é algo que Borges diz: “Costuma-se esquecer que Macbeth, agora um sonho de arte, foi, um dia, um homem no seu tempo” (1985, p.168).

Ou seja, temos várias versões de Macbeth. Existiu, realmente, um Macbeth no Século XI que foi um rei da Escócia e que teve sua história ligeiramente modificada por Shakespeare. Porque, na verdade, reinou durante dezessete anos depois de ter matado o rei Duncan. E só dezessete anos depois passou a cometer os crimes que Shakespeare, possivelmente, concentra em uma semana. é uma ação rápida.

Depois, esta peça foi encenada no Século XVI e tem uma circunstância interessante. Ela foi encenada quando o rei Jaime I tinha recém assumido o trono da Inglaterra. Ele era o primeiro rei escocês da que viria a ser a dinastia dos Stuart. Ele era filho da Maria Stuart, que tinha sido decapitada por ordem da rainha anterior, Elisabeth.

Começou aí uma nova dinastia em que um rei escocês se tornou rei da Inglaterra. As versões que se podem ler é que Shakespeare, de alguma maneira, tentou homenagear esse rei James I, porque ele seria um descendente de Banquo. Então existem algumas cenas ao longo da peça em que ele faz alusões, aparentemente, para agradar ao rei. A peça, na verdade, pode ser lida como uma versão histórica, em função da realidade, do momento em que ela foi encenada. Há uma série de críticas, de ser uma peça incomumente curta, de que teria sido escrita às pressas e que, possivelmente, trechos teriam sido retirados e que Shakespeare teria sido ajudado por alguém para escrevê-la. Porque ela foi encenada por ocasião da visita do rei Cristiano da Dinamarca, e o rei James I queria impressioná-lo com uma peça que foi encomendada com tal objetivo.

Há uma hipótese muito curiosa de André Green, em que ele diz que, aparentemente, Shakespeare queria agradar ao rei, mas, possivelmente o dramaturgo queria, de fato, mostrar ao rei que ele pensava que era muito especial, porque era metido a entendido em bruxas. Vejam que estamos passando por épocas diferentes e esse é um aspecto que surge espontaneamente, porque Borges diz o seguinte: “A tragédia ocorre simultaneamente em dois lugares e em dois tempos: na distante Escócia do século XI e num palco dos arrabaldes de Londres, em princípios do XVI... a verdade é que o drama imaginado por Shakespeare, e que agora imaginamos, está fora do tempo da história, ou melhor, ele cria seu próprio tempo” (1985, p.172). E essa é também a interpretação de Harold Bloom, ao considerar que todos nós não podemos deixar de nos identificar com este personagem, porque ele mostra o tipo de drama e o tipo de furor e o tipo de violência e de crimes que estão presentes no inconsciente de todos nós.

Seja como for, uma questão interessante que Borges chama a atenção é que essas três bruxas, ou “ weird sisters “, que quer dizer irmãs fatais, vêm da mitologia saxônia, na qual são chamadas de Wyrd, são divindades que comandam o destino dos homens. E acrescenta, desafiadoramente, o bruxo argentino: “Ao contrário de Hamlet, que é a tragédia de um pensativo num mundo violento, o som e a fúria de Macbeth parecem esquivar-se à análise” (idem, p.172).

De uma perspectiva psicanalítica, ousando contrariar nosso querido autor, como podemos entender as bruxas?

Penso que as bruxas expressam fantasias inconscientes de todos nós, representam os desejos ocultos, ou as pulsões, ou o nome que se queira dar. E elas anunciam para os dois guerreiros que vêm chegando algo que, na realidade, já estava na mente dos dois. Ambos voltavam de uma guerra. Ambos queriam receber retribuições. Ambos queriam receber o poder. E no momento em que elas comunicam que um deles seria o rei e o outro seria pai de reis, evidentemente já podemos imaginar que as fantasias de poder, as fantasias de descendência, as fantasias de controle começam a germinar e, progressivamente, Macbeth vai se tornando um cenário, uma mente em que todo esse drama começa a se desenvolver.

Na sucessão de possibilidades, podemos ter várias questões psicanalíticas a serem discutidas sobre esta peça. Uma delas foi anunciada, curiosamente, não por um psicanalista, mas pelo escritor francês Victor Hugo, em 1864. Disse ele: “Dizer que Macbeth é a ambição é o mesmo que não dizer nada. Macbeth é a fome. Que fome? A fome do monstro sempre possível no homem. Certas almas têm dentes. Não despertem sua fome. Morder a maçã, isto é terrível” (apud Green, 1994, p.170). E, a partir daí, ele antecipa o que depois Freud e outros autores iriam desenvolver a respeito da agressividade e a respeito dos desejos. Por exemplo, da voracidade.

Assim, um dos temas possíveis em uma consideração de Macbeth é o tema da voracidade, que foi desenvolvido pela Melanie Klein. Porque ele foi, cada vez mais, ficando sedento de sangue. Não era mais uma questão de poder. Era o sangue que puxava o sangue que puxava o sangue e não havia mais nada que fizesse com que ele se satisfizesse.

Um outro tema possível é o tema da situação edípica. Observem que o rei – e o rei é representado como uma figura de um velho com barba branca, que chega lentamente e que, ingenuamente, olha para as aves que passam e sobe naquelas escadas sem saber que seria morto imediatamente – é uma figura paterna. Então, aqui nós temos a questão do parricídio.

Aqui temos a questão da morte do pai. E, em seguida, podemos recordar que a formulação que Freud faz no seu ensaio sobre os que fracassam ao triunfar, ou os arruinados pelo êxito, sobre Lady Macbeth, é exatamente isto.

O que houve com Lady Macbeth, que era tão corajosa? Ela cometeu o crime. Ela triunfou. E, imediatamente, a partir da culpa provocada pelo ataque, pelo assassinato do pai, ela começou a se acusar, começou a ter uma série de manifestações obsessivas, psicóticas, começou a enlouquecer, começou a alucinar. E ela é um exemplo deste tipo de personalidade que Freud descreveu como os que fracassam ao triunfar. Que é exatamente o resultado de um conflito edípico mal resolvido, ou seja, a vitória sobre o pai, sobre a mãe, sobre um representante com quem competiu e a partir daí não pode tolerar esta nova situação e se desmancha, cai sob o peso da própria culpa.

Mas neste trabalho de Freud (1916), ele fala, en passant, de um autor não muito conhecido, Ludwig Jekels, que cita a existência de uma dupla. Segundo ele, não se pode entender Macbeth sem Lady Macbeth. Assim, se trata de um mesmo protótipo, se trata de uma figura tipo Juno. As duas faces em uma mesma figura. O que Macbeth temia em seus tormentos de consciência realiza-se nela, que se torna toda remorso, enquanto o marido se torna todo desafio.

Por que ele diz isso? Porque ambos têm uma dinâmica contínua. E também poderíamos entender o funcionamento deste casal através do mecanismo da identificação projetiva em que um coloca partes suas no outro e, sucessivamente, são devolvidas. Então observem o seguinte: há uma cena em que, imediatamente, depois que Macbeth mata o rei, ele chega com as mãos cheias de sangue e diz: “Nem todas as águas dos oceanos de Netuno conseguiriam limpar essas mãos”.

Ao longo da peça, mais adiante, há uma cena em que Lady Macbeth está lavando, obsessivamente, as mãos e diz aquele célebre frase: “Nem todos os perfumes da Arábia conseguiriam purificar esta mãozinha”. Enquanto isto, ele se tornou, progressivamente, o forte, o corajoso, o bravo. No início da peça, Macbeth funciona como uma criança e ela funciona como a mãe. Em vários momentos ela o insulta, ela o encoraja, ela diz que ele é uma criança, que é um sujeito que não tem coragem, que não tem valor. Na hora em que eles vão cometer o crime, ele hesita. Ele diz: “Isso não vai dar certo”. E ela diz: “Como não vai dar certo? Vai lá. Não seja covarde.” No momento em que ele assume esse papel, ela coloca esse desejo, essa ambição, essa crueldade, esse aspecto agressivo, mau, destrutivo dela (assumindo também o dele) dentro da mente dele, eles começam a fazer uma modificação, e ela perde essa parte de sua própria mente, agora depositada no marido. Em seguida, Lady Macbeth vai enfraquecendo, vai enlouquecendo e acaba se matando. Enquanto Macbeth se torna a figura forte, a figura que representa agora os desejos do casal.

Outro aspecto que também pode-se considerar é a questão que diz respeito à descendência. Porque Macbeth não se contenta em ser rei. Ele quer fundar uma dinastia. Em vários momentos da peça ouve-se a voz dele, a voz da sua consciência, dizendo: “Tu já és o Barão de Cawdor, tu já és o rei, etc... “. Mas não é o suficiente. Ele quer mais, mais e mais. Ele começa a matar os filhos. Primeiro mata os pais, ou seja, ele mata o rei, depois ele mata Banquo. E, depois, começa a matar, dentro das possibilidades, os filhos do Macduff. O Fleance, ele manda matar.

Macbeth precisava extinguir a descendência, já que ele não estava conseguindo ter a sua própria descendência. Este é outro aspecto importante da peça que é bastante estudado por André Green, porque o crime que começa com o parricídio contínua com o infanticídio. Há outro aspecto interessante: quando eles matam o rei, este recém tinha comido. Há uma equiparação entre a alimentação e o sono. Como um bebê que se sacia e descansa. Lady Macbeth entra no quarto e não consegue matar o rei, porque, segundo ela, “Ele me lembrou o meu pai dormindo”. é explícito. Então, ela encoraja Macbeth a cometer o crime. Já havia aqui um indício também de infanticídio, que depois começa a ser cometido sucessivamente nos filhos dos outros.

Assim Macbeth queria realmente arrasar com toda a descendência, porque, no momento em que ele viu que a profecia das bruxas se concretizou e se tornou rei, imagina que a segunda parte da profecia iria se concretizar, que era a descendência do Banquo.

A questão do mal é uma outra questão que já foi, mais ou menos, mencionada.

Há uma outra questão curiosa que é a da bissexualidade, porque as bruxas são mulheres com barba. São figuras ambíguas.

O mal está, desta forma, ligado com mulheres que talvez sejam mulheres fálicas.

Esta figura feminina má, a relação entre a sexualidade e a maldade e o papel atribuído às mulheres de assumir estas funções, de alguma maneira talvez esteja dentro do espírito da época ou, quem sabe, permaneça vigente até os dias de hoje como uma das questões que a psicanálise contemporânea tem estudado no que se refere ao gênero e às suas características, ambigüidades e contradições.

Há uma fala que talvez sintetize o drama do Macbeth. Depois que Lady Macbeth se mata, Macbeth diz que ela morreu antes do tempo. é uma frase ambígua. O que quer dizer com isto? Ele não parece muito emocionado naquele momento. Possivelmente é a volta regressiva a um estado em que ela era a mãe e ele era o filho. E ela morre antes que eles pudessem chegar a uma solução satisfatória. Como se ele tivesse que morrer antes e ela morrer depois.

Seja como for, Macbeth diz algo que é, possivelmente, uma síntese do drama a que se chega, depois de tantos horrores, ou, quem sabe, um alerta face às tentativas de encontrar explicações convincentes para situações humanas tão complexas: “A vida é apenas uma sombra que passa, um pobre ator que se agita e se exibe por uma hora no palco. Depois se cala. Trata-se de um relato cheio de som e de fúria, narrado por um idiota e que não significa nada” (ato V, cena 5).

Referências

Bloom, H. (1998). Shakespeare. The Invention of the Human. New York: Riverhead Books.
Borges, J.L. (1985). Prólogos. Rio de Janeiro: Rocco.
Freud, S. (1916). Alguns Tipos de Caráter Encontrados no Tratamento Analítico. In: Edição Standard Brasileira das Obras Completas de S. Freud. Rio de janeiro: Imago, vol XVI, 1974.
Green, A. (1994). O Desligamento. Rio de Janeiro: Imago.
Shakespeare, W. (1608). Macbeth. London: Penguin Books, 1994.

Recebido em 26/03/2002
Aceito em 07/08/2002

Cláudio Laks Eizirik
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