Inimigos de classe


Comentário de Ruggero Levy

Comentários à peça "Inimigos de classe" de William Nigel e montada por Luciano Alabarse


                                                                                                                                                                           Ruggero Levy


   Antes de tudo, meus agradecimentos em nome da SPPA pela oportunidade de debater a peça no seu lançamento e à SPPA por me indicar a esta tarefa. Mas quero agradecer também ao Luciano Alabarse e sua equipe por esta bela e importante montagem que provocará reflexões e debates relevantes em nosso meio.

   O texto peça foi escrito por William Nigel, dramaturgo inglês, em 1978 e teve uma adaptação e encenação importante, premiada, em Sarajevo, em 2007. Em Londres, denunciava as péssimas condições de ensino na periferia da cidade.  Em Sarajevo, depois da guerra civil, denunciava o descaso público com a educação, a extrema violência nas escolas, o preconceito religioso e a discriminação étnica. Por isso, essa adaptação feita por Alabarse para a nossa realidade contém um aspecto conjuntural importante que denuncia o descaso público com a educação e a violência que tem se assistido nas escolas em geral em meio à nossa “guerra civil”, a nossa Sarajevo. Mas tem também um aspecto universal. Este consiste na adaptação que o grupo adolescente faz para defender-se das injustiças do mundo adulto e a denúncia que faz dele.

   A peça pode ser entendida e discutida desde os multiplos vértices que ela apresenta: a violência escolar crescente; o desamparo e o abandono às crianças e adolescentes em nosso país; o processo adolescente; as famílias disfuncionais e fragilizadas pela própria miséria; a discriminação social e étnica; a exclusão; os grupos adolescentes; a função do conhecimento na adolescência; etc.

   O vértice que escolherei é o do desamparo. O ser humano nasce no absoluto estado de desamparo e através das relações de dependência que estabelece com seus cuidadores básicos, mãe e pai - ou aqueles que desempenham estas funções -, será inserido na cultura, na civilização. Através da função materna que envolve alimentação, amparo, atenção, compreensão, carinho, desenvolverá o sentimento de confiança na bondade no Outro e o amor predominará sobre o ódio. Por meio da função paterna, será introduzida a noção de limite, as regras, em última instância a lei. Quando as funções materna e paterna não são realizadas, o indivíduo cresce nutrindo ódio por não ser atendido em suas necessidades básicas, e sem uma noção das regras e dos limites necessários à vida na civilização. Assistimos, nestas condições, um assassinato da infância e da adolescência, pois os processos evolutivos são abortados. Frente ao desamparo maciço, criam-se formas espúrias de proteção: a violência equaciona-se com a força e ter a sua própria gang, ou fazer parte de alguma, é uma forma de criar a ilusão de possuir ou pertencer a uma “família” poderosa.

  O adolescente, embora crescido e onipotente, depende e necessita dos cuidados do mundo adulto. Eles dependem ainda do conforto e da orientação dos pais, que estes lhe passem noções de limite, de perigo, de cuidados consigo mesmos, etc. Além do mais, precisam que os pais e o mundo adulto lhes proporcionem condições de aprendizagem onde possam desenvolver seus processos cognitivos e adquirir o conhecimento necessario para uma inserção adequada no mundo adulto e, no futuro, garantir sua autonomia como sujeito.

  Pode-se dizer que Inimigos de Classe é uma peça sobre o desamparo, o abandono, e suas conseqüências. Ou, se preferirmos, sobre a esperança e a desesperança. Frente ao desamparo gerado pela falta de condições de atender às necessidades dos jovens, estes se "organizam" de modo espúrio tentando preencher suas próprias necessidades: serão pais de si próprios! Darão aulas para si mesmos e tentarão preencher sua necessidade de ter uma autoridade que os organize e que os ajude a conhecer! O conhecimento é colocado como uma necessidade, até para darem um sentido ao absurdo que são as suas vidas. Só que o máximo que conseguem é falar sobre o imediato das suas dramáticas experiências pessoais. O personagem central, Ferro, apesar de autoritário, procura fazer uma contestação à alienação em que vivem os adultos da periferia; Colosso começa falando de sua família fragilizada pela miséria e pela doença: o padrasto bebe e se urina. Uma urina que corrói tudo. Anjo fala da beleza do sexo. Espinha, em sua aula, tenta conduzir o grupo para uma atitude criativa, inspirando-se no seu pai, sugerindo que tivesse uma família um pouco mais funcional. É comovedor o relato de Espinha da luta de seu pai para manter uma ilha de vida e criatividade em meio aos predadores.

  Os jovens criam um simulacro de família, tendo Ferro como a autoridade máxima, mas constantemente confrontado por Bola que tenta amenizar a dureza de Ferro. Bola mostra-se mais sensível às emoções dos colegas. Quase como se fossem o pai e a mãe: um arremedo das funções paternas e maternas tão necessárias e imprescindíveis ao desenvolvimento humano, tal qual o filme Pixote já havia ilustrado: jovens excluídos organizam-se em gangues que criam um simulacro de familia.

  Só que Ferro, também abandonado e desamparado, equaciona a violência e a destrutividade com a força: para não sentir-se frágil, cria a ilusão que a violência é a solução. Essa é a “defesa pessoal” de que fala Ferro na sua aula final: a melhor defesa é o ataque.

  Por outro lado, funcionam como um típico grupo de adolescentes onde uns carregam partes da personalidade do outro: um é o forte, outro o sensível, outro o sensato, outro o rebelde, não conseguindo ainda integrar estas características dentro de si mesmos. Ferro não suporta a esperança de Bola e quer fazê-lo calar à força, seja porque ele não tem, seja porque acredita que esperança significa nova frustração. Mesmo assim mostra um aspecto amoroso no final, culpado de ter batido no Bola.

  Outra leitura possivel do texto, sobre a qual sobre a qual não poderei me estender por uma questão de espaço, é que os professores também são vítimas deste sistema de ensino injusto e da falta de condições de trabalho.

  A peça termina mostrando a dificuldade do mundo adulto de entender a comunicação do desamparo e a busca de uma autoridade e trata o jovem com violência redobrada, com mais abandono; e também coloca em destaque a parte dos adolescentes que ainda tem esperança de ser cuidada e amparada pelo mundo adulto, que ainda espera (esperança) que venham cuidá-los. Ou seja, esperam por adultos que entendam a sua linguagem através da qual clamam por cuidados e que possam lhe oferecer uma escola, um mundo, onde eles tenham lugar e que faça sentido para eles.