ifigência em Áulis + Agamenon


Comentário de João Alberto B. P. Osório

Em ocasiões como esta  me   pergunta se não é uma demasia ainda mais  após um espetáculo com esta  força, que se abra   outro   espaço, além do nosso íntimo como expectadores para  uma elaboração do vivenciado. Fico como um intruso  convidado, acolhido por imposição.

É que se propõe/   de antemão / que, alguma outra coisa possa ser dita  necessidade que vem deste  suposto saber, do outro.

 Eurípedes, que esta ao lado de Esquilo em Agamenon, austero e pouco sociável, lá por 400-500 anos antes  da visita à terra por Cristo,   sem qualquer recurso  eletrônico, celular, internet e congresso brasileiro para se distrair, estava ensimesmado, envolvido consigo e sem,  o que é mais grave, hora no psicanalista, o que não raro até pode ser uma vantagem.

Pois Eurípedes que se casara por duas vezes  escreveu  95 peças, vai dialogar com o mundo de fora, com suas tragédias. Peter Gay nos  diz que aqueles   que  escrevem dramas, podem ir mais fundo, do que seja  vida

Ele foi fundo e o Luciano acompanhou as profundezas e nos trouxe este impacto cênico.

Interessantemente que a medula da alma se alma pode ter, não diverge do hoje.

É sabido que nos milhões de anos, o cérebro aumentou na caixa craniana e hoje as neurociências  convidam a se conhecer  mais das zonas cerebrais, sinapses, circuitos, mas provavelmente não vão nos responder   por que  estamos aqui agora. Por escolha, curiosidade, entretenimento, adição à arte, ao palco, a cena fora de mim, a um tempo surdo á minha audição, a  uma exclamação que virá estimular  esguelhas de um eu   opaco, calado,  a espera da  tragédia   do outro, do outro lado da rua, desde lá   ou  de até  tempos mais distantes . Pois não sei!

Mas acho que  nós neste dia 1 de julho de 2011 reconhecemos os gritos,na impressionante sínese teatral, os movimentos e o sangue daquele tempo, no tempo de agora.

Alabarse nos remete a isso. Nos compele a ver e imaginar o não visto.

É posto que o entorno se sofisticou. Muito.  E ate muitas guerras de todos os tamanhos, se sofisticaram como se  domesticaram a ponto de  se  somar a paisagem do cotidiano, em Coliseus rotineiros.

Se sabemos pouco do general que vai a Tróia, se sabe menos ainda do que foi, ou não foi, ao Iraque,ao Vietnam, na Bósnia,  à fronteira do Afeganistão, ou do general da Rocinha, ou  dos comandantes do consumismo. Hoje há botões que disparam sem dedos, há salas  blindadas para preservar os dedos; há invasões, mortes por atacado e desatinos que viram shows no youtube, e há conluios regados a  Moet e Chandon. São os  teatros da realidade que os teatros encenam.

Mas Menelau e Agamenon eram mesmo do  barulho. Daqueles barulhos da alma indomável, passional e cruenta. Um agia o outro contra-agia. Rodiavam-se pelos conflitos.

Amores a serem resgatados e poderes a serem demarcados. Mas entre  eles, uma forte aliança que posso chamar de amor também.

Agamenon já havia morto o ex marido e o filho da atual  e respeitadíssima esposa Clitemnestra, irmã da famosa Helena, mulher de Menelau que fora raptada ou não por Paris.Nesta trama da-se o impasse porque a frota grega que ia para Tróia com a calmaria não desanda à frente.

Um oráculo foi consultado, profetiza que tudo sairá a contento se Ifigênia filha mais velha de Agamenon for sacrificada á  deusa Ártemis. Pressionado pelo irmão solicita que traga a filha Ifigênia a Aulis e, como convencimento diz que Aquiles o melhor guerreiro, só irá lutar se desposasse Ifigênia. Lá vem Ifigênia.

Agamenon arrepende-se envia uma segunda carta que é interceptada pelo irmão. Os dois irmãos se desentendem insultam-se quando um mensageiro avisa que chegara  Clytemnestra e Ifigênia a Aulis. Desesperado, Agamenon amaldiçoa a realeza que recua sem recuar  por ser tarde demais por temer que o exercito se revolte caso não haja o sacrifício de Ifigênia. Chega ela então, orgulhosa e feliz, para casar com Aquiles e este vai ser o seu trágico tendão. Neste ínterim, Aquiles fala com  Clytemnestra e da-se conta que desconhecia tal futuro casamento. O mensageiro ouve e conta dos planos para Aquiles e Clytemnestra fala da segunda carta  e põe culpa em Menelau. Pede que Aquiles interceda, entrementes o exercito frente a sua solicitação quer apedrejá-lo e fracassa no intento. Enfrenta a Agamemnon e o acusa da morte do ex e do filho. Ifegenia implora ao pai que a “salve,”mas Agamemnon diz que ela morrerá pela Grécia.

Conformada marcha para a morte no templo de Ártemis.

A tragédia segue pela  surpresa e  vingança, não dá sossego, mesmo que os anos passem. Egisto  como amante de Clytemnestra terminam com Cassandra e Agamemnon porque o passado não perdoa.

Kandisky afirmou certa vez que Cézanne ao pintar uma arvore não a estava   representando, mas tornando-a utilizável, noutra realidade, por meio de sua ressonância emocional interior que irá resultar na produção de uma outra imagem.   Vivemos isto no quadro mutante dinâmico vibrante e forte que nos trouxe a peça.

Pela   trama da tragédia, por  vários vértices, abrem-se caminhos. Podemos por exemplo,  ser leitores de primeiro nível, semânticos ou de segundo nível, semióticos ou estéticos como quer Humberto Eco. Assim espectadores da tragédia, presos a piedade  e ao terror, padecer  das paixões,   e delas, nos redimirem,   saindo liberados da experiência trágica ou  nos distanciar da paixão representada/  através do estranhamento quase brecheteniano, e dele nos desprender, não por estarmos a experimenta-lo, mas por  apreciá-lo   como é representado. Talvez sempre estejamos trilhando os dois.

E se me permitir ser engolfado e sugado pelos personagens,  envolvido  no desenho da trama, atormentado pelos seus caminhos e descaminhos  que trazem o “por detrás” esse destino imposto  pelos oráculos, - tipo existir em face do destino- intermediários  dos deuses,  narrativas sagradas, mitos  que tentam explicar o mundo, debaixo de  forças sobrenaturais,  pode-se  então, identificado com  eles, vê-los  como protagonistas  das ações.

E por aí a questionar, por exemplo, que tipo  é este  Sr.Agamemnon?

Que pai é esse que, narcisicamente espera o apoio e a gloria do povo  mesmo que para isso mate sua filha?

A impotência frente à calmaria,  que representação teria em si esta estagnação marítima, que  se transforma na cruel violência do filicidio, racionalizada por uma expectativa da malta!  Seria uma reversão psicótica enrustida pelo desejo do povo que margeia o ilimitado cume febril do poder? Que Estado é esse se não um estado mental colocado no Estado, ou o Estado absorvido pelo seu mental estado? Sua identidade  como  general infligiria uma desorganização sobre   si, sujeito, pai de sua filha? Que impulso o leva a matar uma mulher e buscar outra, se uma  é sua filha, e a outra é a mulher que deixou seu irmão sem mulher! Que trama é essa?  Só o poder, um ego ideal grandioso que suprime  sua condição paterna de forma tão cruel? Seria isso?

Cabe trazer que Sófocles, um dos três grandes tragediógrafos do ciclo épico, (Eurípides e Ésquilo) em Antígona, coloca como excludentes, num problema sem solução o sistema familiar  e o sistema político sobre os quais se estabelecera a sociedade grega. Seria também por aí  o  que constatamos nessa trama? Não obstante, o chamado autoconhecimento  vai vagarosamente se afastando do sagrado,implacável e imutável, para o caráter terreno dos homens construindo o sujeito que caminha os tempos.

De chofre, deparamo-nos com o  tema  filicídio, infanticídio, narcisismo, onde as pulsões e  fantasias  se expressam entre amores e ódios.

Lá do fundo do teatro, alguém insistiria questionando se  em verdade seriam mesmo  os indivíduos seres  autônomos  ouse seriam representantes de  uma estrutura que já segue suas proprias leis.  Se  Althuser estiver por aqui responderá, sim! Lacan que  não está por aqui, nos falaria do desejo alienado no grande Outro,sujeito do sujeito, e assinalaria o ” cerne inumano” da humanidade na sua monstruosidade latente, dando como exemplo Auschwitz,no que Ifigênia  fica uma pequena gota irremediável da destrutividade humana.. De qualquer forma, outra , vê-se na tragedia o oráculo,mentor do ‘destino’, a determinar aquilo que é negado, por redemoinhos mentais, e que na transgeracionalidade podem solidificar  projeções  da mente, que não suporta a   autoria como também os produtos retro fabricados pela cultura. Chamo-me  Deinaite     porque  pai e mãe, decidiram juntar em  mim, dia e noite, (completo, sem dúvida)na fonética chique dos Guardiões do Mundo.  Tragédia possível.  Amiúde  “deuses domiciliares “impõem seus própios mitos, não diferentes dos ícones gregos.

Mas se  me levar  pelas mãos do enredo, identificado ou contra-identificados com os  personagens,  agora com arroubos da  profissão dita impossível,  psicanalista, se assim  me  permitir anunciar, posso   como exercício, pensar o que pensa a mente de Eurípides dentro de um esconderijo qualquer. Para tal penso o que penso que este devotado escritor pensou o que é uma ousadia, seus objetos internos, como nós, desejosos discípulos  do Dr. Freud, chamamos a  esse  mundo que temos aqui por dentro, pessoas , traços de pessoas, emoções, emoções presas ao traumático esse estado  de tragédia, autor e sujeito dela, ele  escavado numa encosta ática, debaixo do gênero da época  que exigia  motivos mitológicos,  com o curso  -culpa e castigo-  ambivalências e dissociações  compartidas entre Menelau e Agamemnon, e os  terceiros incluídos afora os excluídos, o lado feminino  solapado e destruído numa mãe ingênua ou participante a espera da vingança, por sua fantasia filicida, Helena uma mulher raptada pelo seu próprio desejo à Paris ou submetida ou a mentira subalterna concentrada em Aulis, engendrando uma interessante interrogação ao tema fidelidade. E Ifigênia amassada à tirania de uma parte psicótica , passa a estar identificada com o agressor seu pai quase na síndrome de Estocolmo. Cassandra outra  amante que Eurípides cria ou descreve como, tema que muito lhe ocupa, mulher morta por uma mulher traída mas por sua vez também amante. Então engodos e poderes traições e por de trás uma, Artemis  a protagonizar, como deusa mulher maior, que faz  girar a engrenagem, para assoprar as velas das   embarcações engolfando  toda uma construção traumática, que se seqüência por ações e não por elaborações debaixo de um viés do poder  feminino travestida por partes masculinas que  usam e abusam de sua virilidade trôpega.

Que luta interna ou que desafogo caro Sr.Euripides ao deslanchar todo esse magnífico cortejo no envelope da trama por onde  as pulsões  redigem cartas humanas, me percebo intrometido e pretensioso e quem sabe pouco ético a utilizar de suposições  do seu íntimo e de suas e necessidades sem seu consentir. Só os séculos me redimem deste impróprio!!!

Confusão criativa no intrapsíquico, identificações  conflituosas, papeis onde o gênero masculino e feminino se digladiam, sem paz,.. sei lá o que se pode mais  exercitar do espetáculo,de força e qualidade,  que  faz  ressaltar  que, se isso tudo não trilhasse pungentemente  os conflitos humanos, criado e recriado, se destituído deles, “marmoteariamos” num  plano liso e vazio, evitação parva das  rugosidades e turbulências,  para ingressar  na patologia do “normal”.

Não se criaria  a trama, o texto, o  teatro, a tragédia, potencial estado do viver, mas  ao contrário, por  essa  mobilidade psíquica estamos neste espaço, reinventado para que 2. 500 anos depois, atualizado e peneirado pela astúcia  e conhecimento de um diretor de teatro, dentro da  mesma essência dos templos da Grécia clássica, talvez  mais ajustados ou desajustados como queiram, pela cultura  contemporânea,  nas suas  instituições,   sócio, políticas, filosóficas e religiosas  e com seus  avanços admiráveis avanços científicos.

O  campo do contemporâneo traz uma realidade onde o crivo do limite e da impotência para alguns, os mais iluminados, galga contornos diferentes até porque Freud com seu acesso dinâmico ao inconsciente, como tantos  outros  gênios de suas áreas,  ganharam as lutas e produziram efeitos,  nasceram  e se fizeram compulsoriamente mais próximos,  efetivos, plásticos e tocando a  fragilidade e robustecendo o conhecimento, oferecendo por consequencia então mais recursos protetores,  para o corpo e alma,  abrindo outros espaços  para dissipar  tragédias.

No entanto  mesmo  sem Eurípides, Sófocles, .... e todos os criadores geniais,  a tragédia segue sempre,  explicita ou não, sem  palavra e  imagem , sem o nada que  a denuncie na falência da  extensão do simbólico e expondo a dura crosta do real. O  inalcançável  desconhecido está conosco.

Um agradecimento a todos e muito especialmente a Luciano que consegue produzir o ontem e o hoje, de maneira elogiável