ifigência em Áulis + Agamenon


Comentário de Carlos Augusto Ferrari Filho

Sobre IFIGÊNIA em  ÁULIS + Agamenon: do mito à razão

 

Era uma noite fria. Não chuvosa, mas certamente úmida, como costumam ser as noites do inverno por aqui. Se deixássemos nossa fantasia nos convidar, pensaríamos em um bom vinho, uma companhia agradável, e, quem sabe, em uma conversa, que, e notem que agora a realidade já se impõe,  inevitavelmente desembocaria em troca de dicas sobre noções básicas de sobrevivência ao frio úmido, que nos congela a alma.   Na antesala de um teatro, acompanha-se a seguinte cena: duas mulheres chegam à bilheteria e uma delas fala em nome das duas. “Qual é o preço da entrada? Hoje tem debates, certo?” Essa cena nos remete a uma questão, qual é a importância do teatro? E mais ainda, para que serve, afinal, um debate quando se encerra uma apresentação teatral? A seguir apresentar-se-á breves reflexões,  quase que em forma de associação livre, a respeito do papel do teatro. Utiliza-se como objeto que nos foca o pensamento, o espetáculo produzido por Luciano Alabarse, Ifigênia em Aulis + Agamenon, que faz parte da parceria entre esse produtor e diretor teatral e a SPPA. Já há algum tempo, que nas suas montagens teatrais, nas sextas feiras, acontece um debate entre o Alabarse e um membro da SPPA logo após o espetáculo, quando, digamos, as emoções ainda estão ferindo os expectadores. 

 

Em  “Ifigênia em Áulis + Agamenon” Alabarse faz uma junção de três tragédias gregas. À  “Ifigênia em Áulis” (Eurípedes) , ele acrescenta, em sequencia,  uma cena de “As troianas” (Eurípedes) e parte de ‘Agamenon” (Ésquilo). Ifigenia em Aulis foi pela primeira vez apresentada em 405 A.C. em Atenas, em concurso de tragédias, importante festival cultural da época. As Troianas de Euripedes já tinha sido  apresentada ao público ateniense em 415 A.C., nas Dionisias Urbanas, enquanto que  “Agamenon” , de Ésquilo, tinha sido escrita em 458 A. C.  

 

O núcleo desta montagem é a história do encontro de Ifigênia com seu pai, o grande general  Agamenon, nas margens do Mediterrâneo, antes da partida do seu  exército para uma luta contra Tróia. Agamenon teria irritado os deuses, que como punição, impedem a partida dos barcos com a ausência de ventos.  A consulta ao oráculo informa que a condição para o retorno dos ventos é o sacrifício de Ifigênia em um altar à deusa Artemis.

 

Na primeira parte, tem-se um Agamenon atormentado, dividido entre o senso do dever e a dor frente à perspectiva do filicídio. Quando Ifigênia descobre a trama – Agamenon havia convidado a esposa  Clitemnestra e a filha para que viessem ao porto de Áulis, sob o pretexto de realizar o casamento entre Ifigenia e o grande guerreiro Aquiles - primeiro se desespera e depois conforma-se, entendendo que sua morte é um destino trágico mas necessário, segundo a visão dos deuses.  Clitemnestra revolta-se e tenta, de todas as formas, impedir, o que em sua visão tratava-se de um crime bárbaro, que se perpetraria devido a ambição e crueldade de Agamenon. Nessa primeira parte do espetáculo nos é permitido ver esses acontecimentos a partir do olhar dos distintos personagens, em uma dança entre as perspectivas do trágico (a vontade dos deuses) e do ético (as razões humanas).  A situação vai em um crescente emocional até que Ifigênia é levada para o sacrifício. Não há a confirmação fática de sua morte. Diz-se que, na ultima hora, Ifigenia teria sido poupada e que em seu lugar, Ártemis teria aceito o sacrifício de uma corça.

 

No segundo momento da peça, dez anos se passaram e nesta guerra, Agamenon comandou seu exército em uma grande e épica vitória. Em As Troianas é apresentado o ponto de vista das mulheres de Tróia, consideradas como despojos de guerra e que foram escravizadas. Helena tenta reaproximar-se de Menelau, seu ex-marido e rei de Esparta. Menelau é também irmão de Agamenon.  O desencadeante desta guerra tinha sido o sequestro da bela Helena pelos troianos. Na primeira parte da peça, Menelau lembra Agamenon sobre seus deveres como general. Mais do que lembrar, ele o força a não desistir da guerra no último minuto.

 

O terceiro momento conta o retorno de Agamenon e Cassandra. Eles são convidados por Egisto, para um banquete. Climnestra, que seduzira Egisto, tramava contra Agamenon.  Ele é assassinado por Climnestra, que assim completa sua vingança. Durante os dez anos que durou a guerra ela havia convivido com o seu ódio pela morte de Ifigênia.     

 

Na visão trágica o herói enfrenta o seu destino. Não como se fosse uma marionete nas mãos dos deuses, mas como aquele que aceita o pesado fardo das responsabilidades impostas pelo seu papel frente às circunstâncias e os desafios da história. Nessa perspectiva, definir o destino humano é uma prerrogativa dos deuses. Tudo está previsto e, ao fim e ao cabo, os deuses  divertem-se com o desejo humano de almejar a glória e o poder divinos.   Em seus trabalhos sobre psicologia social, Freud propõe uma compreensão da transformação do pensamento humano, desde os seus primórdios, o pensamento mágico, até seu momento evolutivo contemporâneo, o pensamento científico. Ele ressalta que o processo civilizatório é uma penosa conquista humana, que só se torna possível, como subproduto da repressão instintiva. Nesta caminhada, a passagem do panteísmo para o monoteísmo de certa maneira espelha a evolução do mito à razão. “Há muito tempo atrás [o homem primitivo] formou uma concepção ideal de onipotência e onisciência que corporificou em seus deuses. A estes atribuía tudo que parecia inatingível aos seus desejos ou lhes era proibido. Pode-se dizer que esses deuses constituíam ideais culturais.” (p111) [1]  Segundo Freud é a proibição e privação dos desejos atávicos, como o incesto, o parricídio, o filicíio e o canibalismo, o elemento criador  do espaço para a subjetivação do sujeito. Retida essa força instintual, disponibiliza-se no psíquico as pré-condições  para a fundação de uma ética, das normas e leis, enfim, do social.

 

Por outro lado Freud demonstra também a semelhança entre a  visão de mundo do homem primitivo com o psiquismo infantil, que quanto mais rudimentar, mais se aproxima dessa lógica de pensamento. Ele lembra também que no inconsciente, mesmo no adulto, permanece viva e intacta a imposição dos desejos sobre o princípio da realidade. É na descrição do narcisismo como estrutura psíquica  que Freud detalha as relações desse representante do mundo infantil com o ego adulto. “Essa organização narcisista nunca é totalmente abandonada. Um ser humano permanece até certo ponto narcisista mesmo depois de ter encontrado objetos externos para sua libido.”(p.112)[2]  Ou seja, em cada um de nós, geração após geração, tem que ser enfrentado o  dilema do que fazer com nossos mitos narcisistas na difícil caminhada em direção à subjetivação de um sujeito psíquico capaz de pensar racionalmente. O que a psicanálise nos ensina é que cada um precisa encontrar o equilíbrio entre seus mitos e a sua razão, tarefa realizada através da infindável dialética entre o princípio do prazer e o princípio da realidade.

 

Através dos tempos, faça frio ou calor, não se apaga essa chama que nos faz procurar uma sala em busca do bom teatro, essa milenar e genial invenção humana que serve para ouvir, contar e falar sobre histórias importantes. Agamenon é um vilão ou é um herói? O que pensar sobre o sacrifício de Ifigênia? Aliás, o que pensar sobre o filicídio ou o parricídio, sobre o mal e o bem? Por que a determinação materna vista em Clitemnestra na defesa de Ifigenia, protesto que estava como que a gritar contra a ambição de Agamenon, não foi ouvido? E o que pensar sobre a guerra? A guerra é um fenômeno que transcende as vontades individuais? É um mal em si mesmo? Mas então, porque os generais vitoriosos voltam cobertos por medalhas e pela glória? Parece não ter fim essas indagações que surgem quando se pensa sobre a história contada naquela noite de inverno. Teatro faz pensar. Psicanálise se propõe a nos ajudar a pensar sobre aquilo que não se quer pensar, porque dói. Os debates após o teatro, quando as emoções ainda estão quentes, parece uma boa receita. Ajuda a compreender a vida.     

 

Desde um tempo imemorial, quando o homem reunia-se em volta da fogueira,  passando pela época dos festivais helênicos e chegando aos consultórios psicanalíticos, encontramo-nos com o homem contando suas histórias para alguém, envolvido na árdua tarefa de fazer entender-se e ser compreendido. Ou seja, contar e ouvir histórias, como acontece no teatro, é gênero de primeira necessidade. Olhado dessa forma pode-se entender melhor aqueles que, desafiando a intempérie, aguardavam em expectativa, a hora de assistir a encenação de uma tragédia grega, que passados mais de dois mil anos, permanece cada vez mais atual. Chamativo também a pergunta sobre se hoje tem debates. Já começa a chamar a atenção, primeiro passo para que possa vir a se incluir no imaginário daqueles que vão ao teatro, o fato de existirem debates após o teatro. Para nós da SPPA é uma satisfação e um prazer estar fazendo parte desse movimento que aproxima psicanálise e teatro.   

 

 


[1] FREUD,S.(1927). O Mal-Estar na Civilização. In:Edição Standard Brasileira  das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud.v.21.Rio de Janeiro:Imago,1972,p.75-171.

 

 

[2] FREUD,S.(1913). Totem e Tabu. In:Edição Standard Brasileira  das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud.v.13.Rio de Janeiro:Imago,1972,p.13-191.