Bodas de sangue


Comentário de Rui de Mesquita Annes

Foram quatro noites de apresentações da peça Bodas de Sangue, de Federico García Lorca, dirigida pelo renomado diretor Luciano Alabarse.

Dizem que arte é entretenimento. Ora, ao assistir ao espetáculo e aos debates que a ele se seguiram com colegas da SPPA, deduzimos que essa premissa, que resulta num dos ardis mais freqüentes no senso comum contemporâneo, qual seja, de que a capacidade crítica de nada serve à sensibilidade, foi exemplarmente contrariada pela montagem de Alabarse.

Os aplausos ao final mostraram a reação de prazer e emoção do público presente à apresentação de um texto tão denso e longo.

De que se trata a peça? De traição? De amor? De desejo? De separações? De morte?

Assim como na análise, Lorca nos leva por um percurso até um clímax que precede uma revelação – interpretação. A escuta do material do paciente pelo analista é também seguida de uma interpretação.

Com um pé na magia e outro na erudição - ou, como na análise, um pé nas fantasias do paciente/analista e outro na realidade/teoria -, nos movemos em uma atenção flutuante em que vão se esboçando de forma progressiva o simbolismo, as realidades interna e externa, os pensamentos...

Em seus debates, os colegas não pretenderam apresentar uma síntese conceitual da psicanálise, mas sim algumas ligações com a peça, fazendo alusões a Édipo, a processos de simbolização, pulsões, tentando compreender o não compreendido do conteúdo explícito e implícito do texto teatral. Também não foi o objetivo dos debatedores apresentar um “biografismo” conjectural, mesmo porque o criador da obra está implícito nela. Ele é quem faz a ligação entre mundo externo e interno e dá consistência ao imaginário, onde acontecem os fluxos e refluxos do desejo inconsciente.

Freud faz coro com a idéia de que na obra artística o sonho e as fantasias importam mais que o fato histórico em si. Ou, como disse Lorca, “a imaginação fixa e dá vida clara a fragmentos da realidade invisível em que se move o homem”.

O teatro, como o sonho, pertence à mesma ordem da realidade, a realidade que nós, psicanalistas, chamamos de “psíquica”. Ambas têm suas raízes em um terreno comum: o do desejo. No mundo dos atores, tão bem dirigidos por Alabarse, passamos todos pelo espectro das emoções, do amor. Passamos por angústias, perdemos o rumo e nos encontramos, e ficamos contentes por ter sobrevivido. Abandonamos nossa sorte às mãos do amor, dispostos a confusões, tragédias. Angustiados pelos obstáculos que se opõem à realização dos nossos desejos, nos entregamos à felicidade efêmera de haver triunfado. É o fim do espetáculo. É hora de acordar.

É assim que nos transformamos em joguetes desse teatro interno que, melhor que a magia, nos tira do mundo natural. Tudo isso nos faz pensar na jornada de um tratamento psicanalítico em que essa gama de sentimentos está presente.

Depois de tudo o que vimos e falamos, só nos resta cair no sonho que nos convoca para o Outro cenário em que Eros já nos espera.

De tudo, o que importa é que essa parceria da Psicanalítica com Luciano Alabarse/ García Lorca foi um sucesso, pois, além de assistir a uma excelente performance do grupo de atores, os presentes puderam exercitar a sensibilidade e o senso crítico, que tendem a se embotar, a perder a capacidade distintiva, com a repetição e o primarismo, tão comuns na atualidade.

Parabéns a todos.