A Vertigem dos Animais Antes do Abate


Comentário de Jair Knijnik

Recentemente assisti a peça A Vertigem dos Animais Antes do Abate, Texto do grego Dimítris Dimitríadis, autor contemporâneo nunca encenado no Brasil, e dirigido pelo nosso Luciano Alabarse, gaúcho, amigo da SPPA e um estudioso e entusiasta das tragédias gregas.  Ao final da peça, que é cheia de cenas de sexo, relações incestuosas e nú frontal. Luciano Alabarse e eu subimos ao palco e durante algum tempo trocamos idéias e impressões sobre a peça, esquentado pelas contribuições e perguntas do público.

Para se ter uma idéia sobre a peça, resumidamente, correndo sempre o risco de não ser fidedigno, trata-se de dois amigos, Filus e Nilos, que tem um relacionamento de cunho provavelmente homossexual, em que Nilos se apaixona por uma mulher com quem decide casar. O amigo deixado, vaticina que se ele casar com aquela mulher tão mais velha, no início serão felizes, mas com o tempo tudo degenerará em relações incestuosas: irmão transando com irmão, pai com filha, mãe com filho, nascimento de filhos do incesto, culminando em assassinatos, suicídios, marido matando a mulher e depois emasculando-se e sendo morto. A peça transcorre exatamente neste ritmo e, como uma profecia, se realiza ipsis literis. Há, na boa tradição das tragédias, uma função importante do coro, que vai comentando e se divertindo com o destino dos homens.

É sempre um desafio comentar uma peça de teatro logo após assisti-la, pois a peça é uma experiência estética e emocional complexa e estamos ainda impactados, mas necessitamos entrar num outro clima, em outra “vibe”, através do exercício intelectual e do pensamento científico.

Procurei fazer essa transição através de uma brincadeira. Disse ao Luciano Alabarse e ao público que eu tinha a plena noção de que era possível comentar a peça de diferentes vértices. Um sociólogo, um historiador, um dramaturgo e mesmo um outro psicanalista provavelmente comentariam-na de um modo diferente, mas que no fundo eu tinha um sonho, um desejo de poder fazer um comentário definitivo, que não deixasse nada de fora, que englobasse tudo de tal forma que não sobrasse nada para alguém dizer. Mas se assim eu tentasse ou procedesse, isso representaria um excesso de Hybris de minha parte. Hybrisé um termo grego que significa querer se igualar aos deuses, ou ainda, por ampliação de sentido, a desmesura, e isso poderia implicar que eu fosse condenado pelo destino a minha própria destruição; um fim trágico como Nilos, que se emasculou e foi assassinado pelo coro, ou também como Édipo, que se cegou. Dito isso, optei por uma posição mais modesta, reconhecendo meus limites e a necessidade de também ouvir os outros.

A peça, no meu ponto de vista, representa um verdadeiro embate entre as forças civilizatórias e des-civilizatórias. Por um lado o amor, que implica respeito e preocupação com o outro, aceitação das diferenças, e por outro um desejo totalizante e destrutivo, que coisifica o outro, de modo a que nos sintamos autorizados a passar por cima dele com nossos instintos, com menos conflito.

Freud em totem e Tabu, seguindo Darwin, propõe um momento mítico da fundação da civilização: um pai narcisista que queria tudo para si é confrontado e assassinado pelos filhos, que também queriam satisfações. O assassinado do pai amado e odiado é que traz o sentimento de culpa, que contribui para que os irmãos não continuassem (e eles não continuam?) eternamente se matando. Associaram-se, a marca de Eros, construindo os vínculos familiares e sociais e, para que isso fosse possível, estabeleceram alguns regramentos ou limites fundamentais: o tabu do incesto e a proibição do parricídio. Isto que pode ter sido vivido ancestralmente, repete-se em cada ser humano, nem sempre de um modo concreto, mas através de um conjunto de fantasias e desejos. Cada pai e cada mãe sabe do esforço de educar o filho, de introduzi-lo na ordem familiar e social, e cada pai e cada mãe sabe a dor da renúncia instintiva. Isto traz uma certa infelicidade, um certo mal estar, pois para mantermos nossos relacionamentos e ganharmos segurança, abrimos mão de parte de nossa liberdade e do livre escoamento de nossos instintos. A capacidade de representação, de mediatização, de simbolização, ou de abstração deste drama humano, é que traz o desenvolvimento. A diferença entre “destruir o time do adversário” num evento esportivo, e uma guerra onde se destrói concretamente o povo do outro lado é gritante. No primeiro caso, nos abraçamos no final; no outro, juntamos os corpos inertes de nossos filhos. Aliás, este foi o destino da prole de Nilos e Militza, o casal desmesurado da peça.

Poderíamos também falar da lei do pai, que nos protege desse desejo totalizante que nos colocaria na loucura e no desamparo primordial. Ansiamos pelo pai protetor. Mas isso já é outra história e, para ser coerente com minha brincadeira inicial, deixo incompleto, em parte porque não conseguiria completar, em parte para me dirigir a você leitor, para que siga pensando com suas idéias.

 

Jair Knijnik

Psicanalista SPPA