A face do filho de Deus


Comentário de Juarez Guedes Cruz

Se conseguimos
transcender esse
temor egoísta, nos
colocamos em
outra perspectiva

JUAREZ GUEDES CRUZ*

De vez em quando, deveríamos sair às ruas a aplaudir os organizadores do Porto Alegre em Cena. Agradecer-lhes pela oportunidade de pensarmos com mais delicadeza e transparência. Senti vontade de fazer isso após ter assistido a Sobre o Conceito da Face no Filho de Deus, pelo grupo teatral italiano Socìetas Raffaello Sanzio. Em um espetáculo com uma hora de duração, é escancarado o relacionamento de um homem de trinta e poucos anos com seu pai idoso e demente. Estarrecidos, assistimos ao sacrifício de um filho que, quando se aprontava para sair de casa, é retido para trocar as fraldas do genitor. Este se limita, enquanto é cuidado, a lamentar sua impotência para conter as fezes. O ritual se repete mais duas vezes e ocupa toda a primeira metade da peça teatral. O rapaz acaba desistindo da tarefa após a terceira e inútil tentativa de assear o pai. Desconsolado, encosta-se na imagem gigantesca de um rosto do Cristo, que se encontra no fundo do palco e retira-se. Deixa o velho só, enquanto o mesmo inunda o leito com mais fezes contidas em uma vasilha que se encontra sobre seu criado-mudo. Depois de sujar a cama, o velho senta-se a chorar e crianças entram no palco. Retiram dezenas de granadas das mochilas que carregam e as lançam, decididas, no rosto do Cristo. Na cena final, na medida em que a face de Jesus vai sendo rasgada, surge a frase “Tu és o meu Pastor”, logo seguida de outra: “Tu NÃO és o meu pastor”.
A leitura mais óbvia que a montagem nos oferece é aquela expressa pelo pensamento “espero que uma misericordiosa parada cardíaca me poupe da desgraça de uma velhice demente”. Mas se conseguimos transcender esse temor egoísta, nos colocamos em outra perspectiva. Mais abrangente e que nos diz respeito a todos. Refiro-me à mensagem que o texto expressa na sequência final: “Tu NÃO és o meu pastor”. Estamos fartos dessa imagem de obediência cega a um Deus que submete o filho. Que defeca desgraças e guarda para o futuro um repertório escatológico de novos tormentos ao lado do leito. O que a representação nos mostra é que não podemos, passivamente, atribuir a um Deus Pai nosso destino. Nossas felicidades ou infelicidades. Nada a ver com acreditar ou não em Deus. Independentemente de sua existência, o fato, como nos ensina Sartre, é que estamos irremediavelmente condenados à liberdade. É difícil, mas precisamos aceitar isso.
Por essa razão, é tão auspiciosa, em tempos de violência (retratada pelos meninos e meninas que lançam granadas no rosto do filho que se sacrificou em nome do pai, como se essa fosse a solução), a presença de um líder como esse papa Francisco. Com sua mensagem pacífica e humana de um Deus que não é o pai que submete o filho defecando regras. Mas um pai que perdoa e aceita. Que compreende que a Igreja está fadada ao fracasso se continuar condenando o homossexualismo, o aborto, os métodos contraceptivos.
Só esperamos que o papa Francisco firme um testamento em vida, desaconselhando que, depois de sua morte, o canonizem. Que ele nos declare que não é um santo. Apenas um magnífico homem de bem.

*Médico

Zero Hora - Postado por Editoria de Opinião, às 0:03