O tempo entre costuras


Comentário de Suzana Iankilevich Golbert

O psicanalista trabalha, de uma maneira muito específica, com histórias. Numa análise, há um paciente-contador de histórias, que interage com seu analista. Ao escutarmos as histórias da vida de nossos pacientes, o modo como eles as sentem e nos contam, testemunhamos e participamos da criação “viva” de textos orais. A partir da nossa escuta e do conhecimento que temos do paciente, fazemos interpretações, com objetivo de ajudá-lo a pensar sobre si mesmo. Por isto, as histórias que escutamos costumam ter versões que se modificam à medida em que os pacientes repensam sobre suas experiências e descobrem novas abordagens e versões, capazes de ampliar o conhecimento acerca deles mesmos, das pesoas e do mundo. Neste trabalho de escutar histórias, tão próximo a uma construção, a história de vida de um paciente se apresenta como um texto aberto, em transformação.
 

 Os textos literários, diferentemente, se oferecem já elaborados para seus leitores e, junto com cada texto, vem um convite para que entremos na história, o que fazemos usando bem mais do que apenas o nosso intelecto. Assim, é um texto pronto, fechado, mas que se abre diante de nós. As histórias nos envolvem, nos emocionam. Entramos, temporariamente, num mundo que não é nosso, mas que sentimos como se fosse, pois nos identificamos.
 

Num belo artigo de 1908, “Escritores Criativos e Devaneios”, Freud escreveu sobre a capacidade do escritor de sonhar e inventar novas histórias e relacionou isto ao brincar infantil: Disse ele: “O escritor criativo faz o mesmo que a criança que brinca. Cria um mundo de fantasia que ele leva muito a sério, no qual ele investe uma grande quantidade de emoção, enquanto mantém uma separação nítida entre o mesmo e a realidade. A linguagem preserva essa relação entre o brincar infantil e a criação poética”. (p.150).
 

Sabemos que a leitura é um convite ao prazer, pois é uma atividade capaz de nos manter, por um tempo, relativamente afastados do mundo real, dos problemas cotidianos, à medida em que nos envolvemos com a história. Eis uma semelhança com o brincar infantil que Freud falara. Aqui, do ponto de vista do leitor que brinca e fantasia o que lê.
 

Para André Green, um importante psicanalista francês, que morreu recentemente, “uma obra literária é apreciada pelo efeito emocional que provoca no leitor, mais do que pela inteligência que dela emana, mesmo quando o escritor necessita de muita inteligência para produzir tal efeito”. (p.22).  E que éentão, “corretíssimo compararmos o texto literário com a fantasia, na medida em que na fantasia, mesclam-se intimamente os processos primários e os processos secundários, com os últimos moldando os primeiros.” (O desligamento, p.17).  Os processos primários são aqueles mais ligados ao prazer, mais primitivos e impulsivos e os processos secundários resultam de uma conciliação entre o prazer e a realidade e é onde podemos situar as palavras. Green diz também que “quanto mais forte o texto, mais marcado ele será, na aparição de uma ideia e de um afeto. A ideia é um enigma e o afeto é o fascínio do texto, na medida em que ele comove”. (Green, p.18).
 

Ao estudar relações entre a psicanálise e a literatura, Green comenta que mesmo que um analista tente ler um texto literário buscando uma escuta psicanalítica, tentando compreender um conteúdo mental, uma fantasia inconsciente, ele não escapa do destino geral dos leitores. Como qualquer leitor, o analista-leitor recebe a carga emocional que o escritor tencionava informar e reage emocionalmente ao texto que lê. Podemos pensar que a pessoa do analista sobrepõe-se ao pensar do analista. Ele explica: “(...) à medida que ele vai lendo, o leitor vê, i.e., representa para si mesmo o que é tratado pelo texto. Agora, o texto é que olha o leitor, pois o que ele vê nessa segunda visão, está sendo visto dentro dele, e não no texto.” (p. 23).  (...) “Estabelece-se uma cumplicidade ao nível da comunicação das fantasias inconscientes entre o escritor e o leitor, que formam um par”. (p.24). E assim, diz Green, de leitor-analista, ele se transforma em analisado do texto, pois sente e vive o conteúdo muito influenciado pelo seu próprio mundo interno.  

Mário Quintana dizia que “um bom poema é aquele que nos dá a impressão de que está lendo a gente ... e não a gente a ele”!

Isto é o que também salienta Thomas Ogden, um psicanalista de nossos dias, também escritor, ao começar um de seus livros com as seguintes palavras:

"Tarde demais para voltar atrás. Depois de ter lido as palavras iniciais deste livro, você já começou a entrar na perturbadora experiência de se ver transformado num sujeito que você ainda não conhece, mas mesmo assim reconhece. O leitor deste livro precisa criar uma voz com a qual falar (pensar) as palavras (pensmentos) nele contidas. Ler não é uma simpes questão de examinar, ponderar ou até pôr à prova as ideias e experiências apresentadas pelo escritor. Ler implica uma forma de encontro muito mais íntima. Você, leitor, precisa permitir que eu o ocupe – seus pensamentos, sua mente, já que não tenho outra voz para falar a ser não a sua. Se você pretende ler este livro, dá-se o direito de pensar meus pensamentos, enquanto eu preciso permitir tornar-me seus pensamentos. Assim, nenhum de nós será capaz de reinvidicar o pensamento como sua criação exclusiva”. 


O livro “O Tempo entre Costuras”, me pareceu estar de acordo com as impressões de Green sobre um bom texto literário, que deve unir uma boa história – o enigma da ideia – e produzir e transmitir muita emoção – o fascínio do texto. A história vai nos sendo apresentada obedecendo a uma cronologia, de Sira criança à Sira mulher adulta e nos convida a que nos identifiquemos com a personagem. Além da guerra interna, individual de Sira, por sua vida e seu crescimento, havia um mundo em guerra. A trama também nos envolve pela descrição de um período histórico de muitas dificuldades sócio-políticas, guerras, mortes, miséria, e nos convida a conhecer a história da Espanha e seu papel e posição também na II GM, especialmente pelo interessante fato de que personagens reais da história, como Rosalinda Fox e Beigbeder, principalmente, entre outros, são personagens do livro, o que imprime veracidade à trama e nos prende. Com isto, nos aproximamos, também, de algo que deve ter sido um desejo da escritora: a forma de transmitir ao seu leitor as emoções contidas em seu texto.

Desde o título, percebemos que Sira dividiu sua vida em períodos que acabaram por marcar um “antes de” e um “depois de”.   - E como se constrói a noção de tempo no psiquismo? A partir do registro  das experiências. O primeiro registro temporal é do período que decorre entre o sentir fome e o estar saciado, período que gera memórias de prazer e de desprazer e um funcionamento mental baseado na busca pelo prazer e na fuga ao que parece desprazeroso. A noção do tempo organiza o psiquismo. A mente desenvolve, a partir disto, o que chamamos de defesas psíquicas, que visam a manter o equilíbrio interno.
 

O título destaca um tempo “entre”. Neste “entre”, desenvolvem-se as tramas do romance: surge um fato novo, que desconserta a personagem, causando-lhe dúvidas, inseguranças e instabilidades que exigem novas respostas e posturas ainda por ela deesconhecidas. Um tempo “entre” que indica a presença de crises e a necessidade de encontrar saídas criativas, que visem retomar um equilíbrio interno. O tempo “entre” instaurado por rompimentos, em que a vida não seria mais como vinha sendo “antes” e cujo “depois” ainda seria uma incógnita. O tempo “entre” como o tempo de “cortes” de um tecido de história pessoal que passava a exigir consertos e costuras. E novas modelagens. As “costuras” simbolizariam, nesta linha de raciocínio, as elaborações de conflitos, com as aprendizagens e crescimentos a isto inerentes.

 Todos nós passamos por mudanças no decorrer da vida e, de acordo com a forma como as vivenciamos, dependerá nosso olhar sobre as coisas. É neste sentido que Green, assim como Mário Quintana, falam que um leitor “é lido” pelo texto que lê, pois vive-o e o sente de acordo com as emoções de seu mundo interno.
 

Voltando aos “tempos” de Sira: até o rompimento com Ramiro, era como se Sira tivesse vivido sempre sob a tutela de algum adulto: esteve aos cuidados de sua mãe, até encontrar Ignácio e programar com ele um casamento pacato e pouco ambicioso. A descoberta da sexualidade, experimentada timidamente por um também inexperiente e acomodado Ignácio, até que ela foi “fulminada” pela paixão por Ramiro, a quem se entregou por inteiro, abandonando os planos de casamento com Ignácio, a vida pacata à semelhança da vida sacrificada e modesta de sua mãe. Períodos – “tempos” - que podemos identificar como a infância e a adolescência, com os primórdios de uma vida adulta, ainda em ensaio. Entre uma etapa e outra, tempos e costuras, para emendar, dar coerência e consistência à personalidade e à história de vida de Sira. Costuras também simbólicas.

Na segunda fase, a do Ramiro-amante, ela seguia vivendo sob a dependência de outro, que fazia o papel de mais velho, o substituto do pai que ela não tivera, um adulto responsável por ela, pois designava a ele o controle de sua vida. A este tempo, sobreveio uma nova e fundamental ruptura: surgiu o Ramiro-traidor. Após esta grande crise, a necessidade de realizar nova costura interna, para proteger-se da dureza da vida. Fim de um período de idealizações e de festas. Fim de uma vida alienada às contingências externas. Assim, houve um necessário salto para a maturidade. As demandas da vida adulta entraram de forma abrupta, num golpe de susto.
 

Sira precisou realizar costuras cuja linha a ser utilizada deveria ter uma força proporcional à dor causada pela decepção sofrida. Também proporcional ao temor gerado pela perspectiva de um futuro em que estaria só, pela primeira vez na vida, para enfrentar e resolver as difíceis situações que se apresentavam. Comparo, aqui, a força do fio de linha à força das defesas psíquicas, responsáveis pela manutenção e estabilidade e saúde do ego.   Podemos dizer que Sira tinha, dentro dela, capacidade de produzir “boas linhas” para criar boas costuras.
 

As experiências da infância e da adolescência certamente, serviram de base para que Sira enfrentasse as novas dificuldades e costurasse as rupturas, pois a estrutura interna da pessoa, sua bagagem de vida, condiciona a forma de elaborar as situações traumáticas. Eu destaco um fator essencial, que é a identificação de Sira com a mulher que foi sua mãe. Sira teve um modelo de mulher com quem se identificar: uma mãe continente, decidida a cuidar da filha, sem o suporte do pai de Sira. Um modelo de firmeza de caráter. Mulher que trabalhava muito e que enfrentava os desafios da vida, aspectos que tão bem transmitiu à sua filha. O livro contém um forte elemento feminino.
 

Quando Sira se percebe só, num país estranho, após a traição e abandono de Ramiro, ela sente falta de sua mãe: o colo de mãe lhe teria sido um alento e lhe confortaria da sensação de estar desamparada. Mas ela não tinha como estar com sua mãe. Sucedeu-se, na história, um resgate interno de Sira para com sua mãe: a mãe que ela decepcionara, ao largar Ignácio, e abandonara, ao escolher a vida aventurosa com Ramiro e, também depois, quando saiu da Espanha, deixando-a sozinha com suas costuras.
 

- De que resgate interno eu falo? O das coisas que aprendera quando estava junto com sua mãe e que havia deixado de lado, em sua vida com Ramiro. Um resgate de sua história e de aspectos identificatórios: Sira, que crescera entre costuras, descobriu-se, ela mesma, uma costureira talentosa. Ainda jovem, ela entregava as costuras na “casa dos ricos” e a descrição desta experiência que, no texto, parecia, a princípio, um detalhe banal, adquiriu, posteriormente, um novo significado: Sira aproveitou as lembranças e aprendizagens daquele tempo em que tudo observava, para compor o seu novo disfarce e, assim, conviver com o mundo dos “ricos”, vindo a costurar para as mulheres da sociedade e dos oficiais. Na costura encontrou sua salvação, seu disfarce e seu destino. Este é um exemplo de como, ao longo da vida a pessoa vai dando novos significados para suas vivências anteriores, o que pode mudar – e muitas vezes muda - a versão sobre a própria história. Aquilo que eu referi, no início, sobre o texto aberto e em transformação das histórias de vidas dos pacientes.
 

 E, à medida que a história transcorria, íamos descobrindo, talvez junto com a personagem, o seu desabrochar como ser humano, sua perspicácia, seu sentido de ocasião, sua capacidade de adaptação e aguçada inteligência. Características que a levaram a atuar como agente do serviço secreto inglês, tendo se arriscado muitas vezes, mas fornecido informações fundamentais para o destino da guerra.
 

Confesso que, neste momento da história do livro, eu comecei a ficar um pouco incrédula, achei muito difícil que alguém pudesse obter informações importantes tão “facilmente”, travar conhecimento com pessoas de tão alto cargo e cheguei a achar um pouco forçadas as situações. Poderia acontecer de uma mulher estar, por mero acaso, na mesma sala em que oficiais nazistas conspiravam, sem ser vista, sem nada lhe acontecer? Inverossímil, pensei. Cheguei a duvidar, então, da força do texto. Contra a minha vontade, pois eu torcia por ele, estava envolvida com a leitura. Aquelas situações seriam possíveis? Então, preocupada com este comentário que eu teria que fazer, lembrei-me que havia personagens reais mesclados à história. E fui pesquisar.
 

Encontrei informações sobre Rosalinda Fox, a amiga inglesa de Sira, que é uma pessoa que realmente existiu e cuja história confere com a do livro. Percebi que o que Sira viveu como espiã guarda muitas semelhanças com o que se descreve sobre a vida de Rosalinda. Diz-se que ela tinha a sorte de estar sempre no lugar certo, com as pessoas certas. Logo, não era como um conto de fadas, pensei, algo assim existiu, realmente – que alívio! Enquanto eu lia, eu torcia pelo livro. Mérito para María Dueñas.
 

Há algumas curiosidades sobre a pessoa de Rosalinda Fox.  Sua vida foi recheada de fatos surpreendentes. Um deles me chamou especial atenção: apesar dela ter sido desenganada e informada que morreria muito cedo, devido à tuberculose bovina que contraíra, ela, efetivamente, só veio a falecer em 2004, aos 96 anos de idade! A verdadeira história de uma verdadeira mulher da – e de - resistência. Rosalinda escreveu um livro em que conta sua vidaNele, ela cita um provérbio japonês que diz: “uma mulher não viveu, a menos que tenha sido amada e odiada, invejada e falada”.  (“A woman has not lived, unless she has been loved and hated, envied and talked about”. - “The grass and the asphalt”).  Uma filosofia coerente com sua história de vida. E com a história de nossa personagem Sira, que vai se tornando, a cada experiência, maior, mais forte e corajosa. E que, ao final do romance, é dona de uma identidade consistente, dona de sua vida, de seu destino e de seus desejos. Deixa claro aos homens que é uma mulher livre, inteligente e decidida. Ela enfrenta, confronta, e é ela quem escolhe o rumo de sua vida. Vida, aliás, cujo desfecho a autora deixa por nossa conta, algo que nos mantém “presos” à leitura e envolvidos com o livro por mais algum tempo. Parece que ao final, María Dueñas nos convida a fazermos como Sira: a costurarmos por nós mesmos.
 

Referências

  1. DUEÑAS, Maria. O Tempo entre Costuras. Planeta, 2013.
  2. Green, André. O Desligamento. Imago, 1994.
  3. Ogden, Thomas. Os sujeitos da Psicanálise, 1996, Casa do Psicólogo.
  4. Quintana, Mário. A vaca e o Hipogrifo. L&PM ed.