O estranho caso do cachorro morto


Comentário de Maria Cristina Garcia Vasconcellos

Ler um livro sempre é uma aventura, na medida em que conhecemos personagens, experimentamos sensações, vivemos situações que podem fazer parte de nossas vidas, ou mesmo outras que nos ficam apenas na imaginação. Às vezes, livros simples nos oferecem a oportunidade de entrarmos em contato com sentimentos e mesmo percepções que nos passam desapercebidas no cotidiano. Esse é o caso do "Estranho Caso do Cachorro Morto". É um livro de leitura agradável e fácil, que prende a atenção ao nos envolver com a história de Cristopher, seu personagem principal. Ele é um menino de 15 anos, com uma vida aparentemente tranqüila e que, de um momento para outro, se vê acusado do assassinato de Wellington, o cachorro de sua vizinha. É a partir desta situação que o livro se desenrola, alternando momentos em que Cristopher investiga o assassinato do cachorro, e surpreende-se ao deparar-se com fatos de sua vida, com outros momentos em que nos é apresentada a história da vida recente de Cristopher. Entretanto, permeando esta alternância de momentos, vamos acompanhando a maneira peculiar com que o personagem pensa e sente, como percebe as situações em que se vê envolvido, bem como a maneira como se relaciona com as pessoas com quem convive. A peculiaridade reside em que Cristopher é portador da Síndrome de Asperger, um dos chamados Transtornos Invasivos do Desenvolvimento. Estas são patologias em que há um severo prejuízo em áreas do desenvolvimento, como na capacidade de interagir com outras pessoas, na capacidade de comunicar-se ou há a presença de comportamentos ou interesses considerados estranhos pelos demais. O que caracteriza especificamente a Síndrome de Asperger é que muitas vezes a linguagem está preservada, assim como a capacidade cognitiva pode ser normal ou até elevada (são pessoas consideradas muito inteligentes, em áreas específicas), mas ocorre a dificuldade nos relacionamentos sociais, na compreensão das convenções sociais e da expresso afetiva das outras pessoas. Há uma baixa capacidade para empatizar e para compreender comportamentos não verbais. Estas características fazem com que, muitas vezes, a criança ou adulto portador da Síndrome de Asperger sejam reconhecidos em seu convívio social como pessoas diferentes, mais do que portadoras de uma patologia. É o caso de Cristopher, que necessita das rotinas para sentir-se tranquilo, tem dificuldades para compreender o que ocorre ao seu redor quando necessita comunicar-se com pessoas que não compreendem sua maneira de pensar. Está voltado mais para o "seu" mundo, na medida em que é o mundo em que sente-se tranquilo, em que pode compreender e controlar o que ocorre e assim preservar sua capacidade de pensar. Nesse seu mundo há o interesse especial, e a grande facilidade para lidar com os números, há esquemas montados dos quais pode se utilizar para enfrentar situações difíceis, e há a possibilidade de evitar o contato mais próximo com os outros, o que tanto o assusta. Desta maneira, a partir das situações que vão ocorrendo no transcorrer da história, vamos compreendendo com muita clareza, uma vez que estamos muito próximos do pensamento e dos afetos de Cristopher, as razões de sua "estranha" conduta. E penso que esta é a maior riqueza e aventura do livro, podermos acompanhar e compreender de uma maneira muito afetuosa a maneira como o personagem experimenta e pensa as situações que vai vivendo. Nos é possibilitado ir além da observação de sua conduta, da sua "diferença", da sua doença, para encontrarmos o menino assustado, que tem que lidar com situações muito difíceis. Com isto, somos levados a exercitar justamente aquilo que é difícil para o próprio Cristopher, a compreensão do humano que está para além do comportamento, que não é dito, mas apenas sentido, e que está presente em todos nós.