Machado de Assis e a retórica da ambiguidade em Dom Casmurro


Comentário de Manuel Pires dos Santos

Volume IX, Número 3, Novembro, 2002


MACHADO DE ASSIS E A RETÓRICA DA AMBIGÜIDADE EM DOM CASMURRO

Manuel Pires dos Santos*, Porto Alegre

É feita uma tentativa de compreensão de alguns aspectos do romance Dom Casmurro, de Machado de Assis, tendo a teoria psicanalítica como base. Busca-se compreender a trama romanesca a partir do fato de ser o relato de um autor/personagem, de caráter subjetivo, o que instaura, de imediato, uma ambigüidade que condiciona o relato e tem exatamente aí seu elemento estético fundamental. Destaca-se que uma leitura que considere esses fatos leva à conclusão que Bentinho, e não Capitu, é o personagem principal, sendo aquele tão rico e misterioso como esta.

Machado de Assis é o maior escritor da literatura brasileira de todos os tempos. Dom Casmurro é considerado sua obra principal e mais não é necessário acrescentar. Numa pesquisa de janeiro de 1999, A Folha de São Paulo mostra que Dom Casmurro é considerado o segundo melhor romance da literatura brasileira (alguns críticos o consideram o primeiro), vindo após Grande Sertão: Veredas. Como personagem feminina, Capitu parece despertar mais interesse que Diadorim. Talvez Grande Sertão seja melhor romance que Dom Casmurro, mas Guimarães Rosa tem altos e baixos em sua obra; já Machado não oscila assim, mostrando uma qualidade sempre homogênea em seus romances.

Dom Casmurro gera polêmicas. Há alguns anos atrás (Ilustrada, 1992), a partir de uma pergunta no vestibular de São Paulo, na qual foi sugerido que Capitu não traíra Bentinho, o escritor Oto Lara Rezende saiu, indignado, em defesa de Bentinho, dizendo que Capitu traíra, sim. Acendeu-se um debate que, de certo modo, continua, pois muito possivelmente os participantes sigam mantendo seu ponto de vista, uns achando que Capitu indiscutivelmente traiu, outros que não o fez, sendo vítima de um marido ciumento, o “Othelo” brasileiro.

Nossa idéia, sem tentar manter um ponto de vista neutro nessa polêmica, é que o romance tem precisamente aí, nessa ambigüidade, seu elemento estético de maior significação. Como bem lembrou um crítico (Caderno Mais,1999), há, no livro, dados que permitem tanto uma quanto outra conclusão. Se Capitu não traiu, poderia ter traído. Se Bento Santiago não imaginou tudo, poderia ter imaginado. A riqueza e densidade de ambas as personagens possibilitam que cada leitor faça sua leitura, tão legítima quanto qualquer outra. Podemos, portanto, como leitores, fazer nossa leitura preferencial, sem maior justificativa que nossa preferência apenas.

Ora, a teoria psicanalítica, desde seu surgimento, incluiu-se não só entre os instrumentos de interpretação do texto literário, pelo lado do leitor, como também, pelo lado do autor, somou-se àqueles elementos dentre os quais o criador da obra vai garimpar, consciente ou inconscientemente, a matéria-prima constitutiva da sua arte. Otto Maria Carpeaux (1968) afirma que “há poucos críticos literários que não empregam, pelo menos ocasionalmente, a psicanálise para interpretar as obras de arte. A literatura, por sua vez, começou a empregar a psicanálise para interpretar a vida. Sem a psicanálise não haveria literatura moderna, embora a influência nem sempre seja direta e admitida” (grifo nosso). Assim, recorre-se à psicanálise para escrever e para ler a obra literária. Dentro dessa tradição é que faremos uma tentativa de entendimento de alguns aspectos de Dom Casmurro.

Começamos com um posicionamento que julgamos impor-se: considerando o universo fechado do romance, aceitando sua verossimilhança com a realidade, conditio sine qua non de qualquer obra literária, vê-se que o relato é feito na primeira pessoa, é um autor/personagem que fala; ainda mais, no momento de seu relato, todos os outros personagens já morreram.

Não temos, portanto, o testemunho “dos outros”. Temos somente a perspectiva subjetiva do autor, com toda a decorrência, portanto, do relato subjetivo. Apenas para comparar: em Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, no qual o relato também é feito na primeira pessoa, quando também todos, ou quase todos, estão mortos, não é o autor/personagem que descobre que Diadorim é mulher. Ao prepararem o corpo para o enterro, é feita a descoberta, pelos outros, e o autor/personagem só então fica sabendo. Temos o testemunho “dos outros”; sabemos então que Riobaldo não “viu” uma mulher em Diadorim para justificar, por exemplo, possíveis impulsos homossexuais; não ficamos apenas com a visão do autor como em Dom Casmurro.

Assim, o relato de Bento Santiago existe dentro de um universo pessoal, subjetivo, podendo ser colocado “em suspenso’, muito próximo do relato de um paciente, por exemplo. Capitu, portanto, é-nos apresentada segundo a visão de Bentinho, a Capitu que ele viu. Dessa forma, como lembra um crítico, “...o leitor não tem recursos para saber o que houve na realidade objetiva, pois apenas Bentinho nos conta a sua história, ou a sua versão de uma história que não conhecemos”. (Leite,1987).

Isso, de certo modo, define qual deve ser nossa perspectiva: o livro não gira em torno de Capitu, mas em torno de Bentinho, o narrador/personagem. Entendemos que, ao contar-nos a história de seu romance, mesmo sendo Capitu a principal figura do relato, é perfeitamente legítimo deduzirmos que Bentinho está falando, se não de si mesmo, de suas relações com ela e com os outros. O personagem central do romance, dessa forma, não é Capitu, mas Bento. Evidentemente, não queremos desmerecer Capitolina, a personagem feminina de maior profundidade psicológica da literatura brasileira (e, provavelmente, a mais estudada, também). Apenas que, entre o amante e o objeto amado, vemos mais riqueza no amante, uma vez que, nesse caso, o objeto amado é criação do amante.

Como personagem, Bento Santiago é tão ou mais rico que Capitu. Isso parece contradizer o que afirmamos linhas acima, sobre a riqueza da personagem. Mas não, é apenas uma opinião de leitor, e a riqueza de um personagem não diminui ou nega a riqueza de outro. Fiquemos, portanto, com Bento, o que não é pouco.

Bentinho nos dá uma imagem encantadora de Capitu. Não só porque a amou (e, imaginamos, ainda a ama, ao escrever), mas também porque, de tanto falar dela, quase nos esquecemos dele; ele esconde-se, por assim dizer, atrás de Capitu. Vemos mais a ela, menos a ele.

Um exercício de leitura do romance que inclua o referencial psicanalítico permite descobrir, no personagem que fala, elementos reveladores de seu mundo interno. A crítica que afirma que Capitu traiu ignora esse ângulo, sendo, portanto, no nosso entender, pré-freudiana. Uma leitura psicanalítica de Dom Casmurro nos leva, forçosamente, a observar mais Bentinho que Capitu.

A obra romanesca de Machado de Assis costuma ser dividida (Freitas, 2001) numa primeira fase – romântica – de Ressurreição (1872) até Iaiá Garcia (1878), também chamada de o ciclo da ambição – na qual a temática central é a da ascensão social e seu preço; e uma segunda fase – realista – de Memórias Póstumas (1881) até o fim, na qual Machado aprofunda o estudo psicológico dos personagens, descrevendo “o outro lado” do homem, seu lado obscuro, suas motivações inconscientes. Nesta, o estilo muda: torna-se argumentativo, crítico, ponderado, reflexivo; há o diálogo constante com o leitor e, principalmente, não há certeza no que é dito (Gomes, 1967). Os acontecimentos são poucos, os fatos são quase estáticos, não há, ou há muito pouco, movimento, que cede lugar à reflexão. A ênfase da narrativa não está nos fatos, mas nas motivações que levam a eles. Buscam-se os sentimentos, as paixões motivadoras. E não há, por isso, certezas. Não podemos ter certezas com o que povoa a alma humana. Machado instaura a retórica do preferível, do razoável, ao invés da certeza, do exato, como disse um autor (Perelman, apud Freitas {2001}). Instala-se a ambigüidade. Não se sabe mais o que é verdadeiro e o que é aparente. O relato passa a ser através da subjetividade do personagem/autor. Assim é Memória Póstumas, Dom Casmurro, Esaú e Jacó, Memorial de Aires. Mas onde tal subjetividade alcança seu momento máximo é em Dom Casmurro.

Aqui, o relato se dá na velhice do autor, quando todos os envolvidos estão mortos. Não há testemunhas. E o tempo, podemos acrescentar, é outro fator a distorcer os fatos: a memória pode ser traiçoeira. “Não, não, a minha memória não é boa. Ao contrário, é comparável a alguém que tivesse vivido por hospedarias, sem guardar delas nem caras nem nomes, e somente raras circunstâncias” (Dom Camurro, cap LIX). Esse, o clima narrativo de Dom Casmurro: memórias (com suas possíveis distorções) de vivências (totalmente subjetivas).

Pois bem, de que trata Dom Casmurro? Em termos factuais, isto é, ‘o que acontece’, é possível um resumo rápido: trata-se do relato da vida amorosa de Bento Santiago, desde a infância/adolescência, de onde o acompanha Capitu, até o fim de seu casamento, após suspeitar – depois, ter certeza – da traição dela com seu amigo Escobar. Separam-se, Capitu vai para a Europa com o filho e lá morre; o filho, após ver o pai ainda uma vez, viaja novamente para o exterior e morre. Com o tempo, o solitário Bento transforma-se no casmurro do título e decide escrever o livro, para tentar, talvez, entender melhor o que aconteceu.

Mas os fatos, como já dissemos, são de pouca importância. é o mundo das vivências de Bentinho que desfila diante de nós.

Para quem o lê – o ouve – com o espírito leve – ou menos crítico – fica o relato da traição da mulher que tanto amou desde a infância. Ou seja, o romance é o relato de uma traição. Ou dupla traição, já que há também o amigo traidor. E a explicação para tal fato fica na má índole da traidora. é o ponto de vista do narrador, que se pergunta no final: “O resto é saber se a Capitu da praia da Glória (Capitu adulta e adúltera) já estava dentro da de Matacavalos, (Capitu criança) ou se esta foi mudada naquela por efeito de algum caso incidente” (cap.CXLVIII). Convenhamos, é uma leitura muito limitante. O melhor é optar, no mínimo, pela dúvida. Poderia ter traído.

Uma leitura outra, menos imediata para os fatos, pode revelar o mundo do personagem que narra, o narrador por trás do fato narrado, Bentinho por trás de Capitu. O autor que repudia sua mulher e nega sua paternidade. Aqui, o desejo, depois de ter chegado à velhice, de relatar os fatos para entender o que houve, sugere um desejo de reparação, um sentimento de culpa. No capítulo II, dá-nos uma justificativa para escrever o livro, que parece-nos reveladora. Depois de velho e só, deseja “atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência”. Para isso, manda reconstruir, no bairro do Engenho Novo, a antiga casa de infância da rua de Matacavalos, com a mesma arquitetura por dentro (alcovas, varandas, salas) e por fora (flores, legumes, chacrinha). Mas não atinge seu objetivo: “não consegui recompor nem o que foi nem o que fui”, “falto eu mesmo e essa lacuna é tudo”. Então, “os bustos na parede” (projeções de seus objetos internos?) lhe sugerem que pegasse na pena e contasse algo dos tempos idos, para ter a ilusão dessa restauração. Ou seja, Bento vai “em busca de um tempo perdido”, quer reconstruir algo. Quer reparar algo. Já todos estão mortos, perdidos, só ele sobreviveu. Podemos supor que está triste, além de só. Evocar pela escrita seus mortos é uma forma de reencontrá-los e refazer sua relação com eles. é um homem culpado e triste o que vemos, em que pese o tom de tranqüilidade que exibe, como se fosse movido apenas pelo tédio: “Ora, como tudo cansa, esta monotonia acabou por exaurir-me também. Quis variar, e lembrou-me escrever um livro.” Pensou no que escrever, “jurisprudência, filosofia e política” , uma “história dos subúrbios”, mas nada o agradou. Ao ouvir os bustos na parede decide contar os fatos passados. Vai à procura das “inquietas sombras” que tem dentro de si mesmo, como no Fausto de Goethe, a quem cita nessa passagem. “Desse modo, viverei o que vivi”, ou seja, queria re-viver o que viveu (cap. II).

E ao contar – e reviver o que viveu – revela-se ao leitor. Sem, evidentemente, esgotar a análise do personagem, podemos, auxiliando-nos também da crítica machadiana, destacar alguns pontos. A primeira hipótese que salta à vista é sua submissão à mãe. Bentinho adolescente não ousa jamais, mesmo arriscando-se a perder Capitu, enfrentar sua mãe e rejeitar seja sua ida, seja depois sua permanência no seminário. D. Glória (a mãe) é que aos poucos vai desistindo da idéia (sob influência de Capitu) e o amigo Escobar é que decide a situação, com a sugestão de arranjarem quem o substitua na carreira de padre.

Bentinho apenas concorda: “Sim, parece que é isso; realmente, a promessa cumpre-se, não se perdendo o padre.” Submetido à mãe, sem a presença do pai, morto quando contava quatro anos apenas, em pleno período edípico, quais eram seus modelos masculinos? Tio Cosme, “era gordo e pesado, tinha a respiração curta e os olhos dorminhocos” (cap. VI), pessoa sem destaque, também submetido a D. Glória. José Dias, o agregado, era um empregado, dedicado, certamente, mas não passava de um serviçal. Além disso, mentiroso, pois arvorara-se em médico para agregar-se à família. Não há figuras masculinas marcantes. D. Glória reina soberana e impositiva. Os homens que circulam na família lhe são servis: aos já citados, acrescente-se o padre e o próprio pai de Capitu, o Pádua. Os homens são fracos e/ou ausentes na infância de Bentinho. Só Escobar, o amigo que surge no seminário, vem apresentar elementos masculinos significativos, e com ele Bentinho estabelece um vínculo forte, como se buscasse, desesperadamente, uma figura masculina digna do nome para identificar-se. D. Glória traçara previamente o destino do filho: seria padre, o que significa estar destinado ao celibato, a não ter vida sexual.(Freitas, 2001). Bentinho, já francamente apaixonado por Capitu, não parece ter forças sequer para tentar mudar seu destino. A própria D. Glória, lá pelas tantas, fica dividida quanto à decisão, esperando que o amor do filho por Capitu o “levasse a não ficar lá, nem por Deus, nem pelo diabo”. (cap. LXXX) Nem assim Bentinho age.

Sempre indeciso e passivo, é o exato inverso de Capitu, que é decidida, ativa, inteligente. Conquista D. Glória, “começou a fazer-se-lhe necessária. Pouco a pouco veio-lhe a persuasão de que a pequena me faria feliz.” (cap. LXXX), e, com isso, facilita a saída de Bentinho do seminário. Uma conquista sua e de Escobar. Durante todo o desenrolar dessa situação, Bentinho foi apenas um expectador. Capitu constrói o destino dela e o dele, ao mesmo tempo. Ele apenas contempla.

Capitu traiu? é impossível evitar essa questão, já que é assunto certo nas discussões sobre o romance. O elemento central da certeza de Bentinho quanto à traição é a semelhança de seu filho com Escobar. Mas só ele dá importância ao fato. Além do mais, a mãe da amiga Sancha (que depois se torna esposa de Escobar) era parecida com Capitu, afirma Gurgel, pai de Sancha, acrescentando que também várias pessoas assim pensavam. Ou seja, pode haver semelhanças assim, casuais. E ficamos somente com a versão do narrador, Bentinho. Quais os fatos sobre a traição de Capitu? Nenhum. Bento só nos apresenta indícios, hipóteses. Há suspeitas, sugestões, interpretações, mas não fatos. Ao longo do livro, vemos que a própria Capitu assinala a semelhança entre os olhos do filho e os do amigo. Se tivesse traído, faria isso? Vemos também que, em uma ocasião, Escobar vai à casa de Bento quando ele não está (o episódio das libras). Noutra ocasião, ao voltar mais cedo do teatro, onde Capitu deixara de ir à última hora por se sentir doente, Bento encontra Escobar chegando à sua casa. Noutro momento, Bento acha que sua mãe está mais fria com eles e com Escobar. Tais dados vão sendo colocados ao longo do livro, não relacionados entre si, mas de forma que sutilmente sugerem ao leitor a suspeita do narrador a respeito de Capitu. Mas não são fatos concretos, podem não passar de suspeitas de um ciumento. Ao ser confrontada com a suspeita do marido, Capitu reage indignada. Em nenhum momento aceita seus argumentos. Em dado momento, Bento interpreta o olhar de Capitu como uma confissão: “Palavra que estive a pique de crer que era vítima de uma grande ilusão, uma fantasmagoria de alucinado; mas a entrada repentina de Ezequiel, gritando: – ‘Mamãe!, Mamãe!, é hora da missa!’, restituiu-me à consciência da realidade. Capitu e eu, involuntariamente, olhamos para a fotografia de Escobar, e depois um para o outro. Desta vez a confusão dela fez-se confissão pura. Este era aquele; havia por força alguma fotografia de Escobar pequeno que seria o nosso pequeno Ezequiel. De boca, porém, não confessou nada; repetiu as últimas palavras, puxou do filho e saíram para a missa” (cap. CXXXIX) . “A confusão dela fez-se confissão pura” é interpretação de Bentinho. Podemos pensar que ele viu assim. Há algo mais subjetivo (ou projetivo) que a interpretação de um olhar?

Um dado interessante do romance é que as suspeitas de Bentinho se acentuam após a morte do amigo. Num sábado, todos reunidos na casa de Escobar, Bentinho, ao olhar Sancha, sente que “os olhos de Sancha não convidavam a expressões fraternais, pareciam quentes e intimativos” (cap. CXVIII). Mais de uma vez se olham naquela noite e Bentinho é tomado pelo desejo da mulher do amigo, adivinhando que ela o deseja também. Conta que ao chegar em casa combateu “sinceramente os impulsos que trazia do Flamengo; rejeitei a figura da mulher do meu amigo, e chamei-me desleal.”(idem) No dia seguinte, Escobar morre afogado. No enterro, Bentinho tem a atenção despertada pelo olhar que Capitu dá ao morto: “os olhos de Capitu fitaram o defunto, quais os da viúva, sem o pranto nem palavras desta, mas grandes e abertos, como a vaga do mar lá fora, como se quisesse tragar também o nadador da manhã” (cap.CXXIII). Não seria projeção? Bentinho, culpado, atribuindo a Capitu o olhar de desejo que tivera por Sancha? Bentinho, ao se sentir traindo o morto, vê-lo como traidor? Escobar, de traído a traidor, Capitu, de traída a traidora. E sempre a interpretação dos olhares. O olhar de Bentinho, o olhar de Sancha, o olhar de Capitu, o olhar do filho, que é o olhar de Escobar. Escobar, morto, acusa Bentinho através dos olhos de Ezequiel. Além disso, numa outra forma de entender o ciúme de Bento, podemos suspeitar de um vínculo homossexual inconsciente entre ele e Escobar. Havia desde o início da amizade uma admiração muito grande por Escobar. Bentinho sentia-se fortemente vinculado ao amigo, que tinha total ascendência sobre ele. “A alma da gente, como sabes, é uma casa assim disposta, não raro com janelas para todos os lados, muita luz e ar puro. Também as há fechadas e escuras, sem janelas, ou com poucas e gradeadas, à semelhança de conventos e prisões. (...) Não sei o que era a minha. Eu não era ainda casmurro, nem dom casmurro; o receio é que me tolhia a franqueza, mas como as portas não tinham chaves nem fechaduras, bastava empurrá-las, e Escobar empurrou-as e entrou. Cá o achei dentro, cá ficou, até que...” (cap. LVI). Em uma ocasião, no seminário, um padre e alguns alunos acharam estranha a efusão entre os dois, o que os fez ouvir uma censura: “A modéstia, disse-nos, não consente esses gestos excessivos; podem estimar-se com moderação”. E na véspera da morte de Escobar, este mostrou seus músculos a Bento, pedindo-lhe que os apalpasse. Bento justifica-se que o fez com o pensamento nos braços de Sancha...

Mesmo levando-se em conta a narrativa possivelmente suspeita de Bentinho, Capitu permanece uma personagem ambígua. E essa ambigüidade a torna a personagem mais interessante e misteriosa de nossa literatura. Tanto pode ser a “cigana oblíqua e dissimulada” como a amada possuidora dos “olhos de ressaca”. Tinha uma feminilidade marcante: “Capitu era mulher por dentro e por fora, mulher à direita e à esquerda, mulher por todos os lados, e desde os pés à cabeça” (cap. LXXXIII); “Capitu era Capitu, isto é, uma criatura mui particular, mais mulher do que eu era homem” (cap. XXXI). Os olhos de Capitu e sua relação com o mar dão bem uma tese. Seus braços, idem (aliás, os braços femininos são um fetiche machadiano, aparecem em várias de suas obras, sempre provocantes. Ver, por exemplo, o conto “A missa do galo”). Capitu era mais mulher que Bentinho homem. Talvez por saber-se menos homem, sentiu-se ameaçado e depois traído. Por ser menos homem, não conseguiu ser pai, rejeitando o próprio filho.

Por fim, algum elemento biográfico. “Machado de Assis não era apenas ciumento, mas ciumentíssimo, a ponto de não permitir que a mulher apertasse a mão aos amigos mais íntimos, até quase ao final da vida” (Gomes, 1967), em que pese sua mulher (Carolina) nunca ter-lhe dado pretexto para tal. Machado era mulato, a mulher, branca (como Othelo e Desdêmona, lembra-se um autor {idem}). O ciúme, portanto, não era para ele apenas um tema literário interessante, mas algo que tinha presente em sua vida, vivia-o.

E, ao que parece, no fim da vida o autor transforma-se no personagem. Eugênio Gomes cita um biógrafo de Machado: “Machado de Assis, depois que lhe morreu a mulher, viveu em completo isolamento. ... Daquela casa saía e entrava diariamente um homem que não conhecia os vizinhos, que se esquivava aos cumprimentos, com receio que lhe dirigissem a palavra” (Gomes, 1967) E acrescenta: “Deram-lhe a alcunha de Bruxo do Cosme Velho e está visto que mereceria também a de Dom Casmurro... Aparentemente o autor imitava a personagem mas a verdade é que eram muito parecidos um com o outro” (Gomes, 1967). Mas isso é tema para outro encontro.

Summary

An attempt to understand some aspects of the novel Dom Casmurro by Machado de Assis is made based on the psychoanalytic theory. The author tries to understand the plot of the novel taking into consideration that he is dealing with a subjective story whose narrator is an author/character. This duplicity immediately establishes the ambiguity that sets the conditions to the development of the story, and which constitutes its fundamental aesthetic element. It is important to emphasize that an interpretation that considers these facts leads to the conclusion that Bentinho, and not Capitu, is the main character, since he is as full of possibilities and mystery as she is. 


Resumen

Se hace un intento de comprensión en algunos aspectos de la novela Dom Casmurro, de Machado de Assis, teniendo la teoría psicoanalítica como base. Se procura comprender la trama novelesca a partir del hecho de que sea el relato de un autor/personaje, de carácter subjetivo, por lo que se instaura, de inmediato, una ambigüedad que condiciona el relato y está exactamente ahí su elemento estético fundamental. Se destaca que una lectura, que considere esos hechos, lleva a la conclusión de que Bentinho, y no Capitu, es el personaje principal, siendo aquél tan rico y misterioso como ésta.

Referências

Carpeaux, O.M. (1968). As revoltas modernistas na literatura. Rio de Janeiro: Ediouro.
Caderno Mais. (1999). Folha de São Paulo, 3 /1/99.
Folha Ilustrada. (1992). Folha de São Paulo, 16/1/92.
Freitas, L.A. (2001). Freud e Machado de Assis. Rio de Janeiro: Mauad.
Gomes, E. (1967). O enigma de Capitu.Rio de Janeiro: José Olympio.
Leite, D.M. (1987). Psicologia e Literatura. São Paulo: Hucitec/Unesp.
Machado de Assis (1899). Dom Casmurro. São Paulo: Três, 1986.

Recebido em 06/07/2002
Aceito em 02/10/2002

Manuel J. Pires dos Santos
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