Correspondência Sigmund Freud-Anna Freud


Comentário de Matias Strassburger

Quando se tem pela frente a leitura de um livro de correspondências, um dos sentimentos possíveis é de que teremos uma tarefa árdua, talvez algo enfadonha e pouco interessante, ainda mais em um livro de 500 páginas. As cartas pertencem ao universo de quem as escreve. Interessaria a um terceiro as motivações expressadas em palavras de cada um dos missivistas? Depende. Se essa troca de cartas foi realizada entre o pai da psicanálise e sua filha, também psicanalista e pensadora importante na área, a resposta pode ser: sim, não só interessa como pode ser uma leitura rica, instigante e esclarecedora das várias facetas da vida de ambos – desde a relação entre um pai e uma filha, como em todas as relações de pai e filha, com seus conflitos e ambivalências, passando pela tentativa do pai, aqui como analista, de tentar ajudar a filha a compreender melhor seu mundo interno, ou como colega preocupado com o destino da psicanálise através de discussões sobre a teoria, a técnica e as políticas institucionais.  

Talvez não houvesse a necessidade de outros motivos para transformar este livro em um livro que valesse a pena enfrentar seu volume de páginas. Mas, se precisássemos, certamente teríamos estímulo na descrição pormenorizada, muito bem escrita e utilizando a sensibilidade de Freud e Anna, dos movimentosfamiliares e do mundo da época, onde ambos estavam inseridos. Época repleta de acontecimentos, já que as cartas são trocadas entre 1904 e 1938: a Primeira Guerra, o fantasma do nazismo preparando os horrores que em breve viriam e os movimentos que a família Freud teve que empreender para manter-se, dentro do possível, unida e viva. As trocas de país, os amigos de sempre e os de última e necessária hora, a paixão pelos cães, a busca de uma normalidade, mesmo num período de completa anormalidade, surgem de forma transparente nas linhas e entrelinhas escritas e compartilhadas entre o pai e a filha.

Mas se ainda pairasse qualquer dúvida sobre o interesse na leitura deste seminal livro, poderíamos acrescentar ao rol das justificativas o gigantesco e minucioso trabalho realizado pela autora Ingeborg Meyer-Palmedo. A simples compilação e o ordenamento temporal das cartas já seriam suficientes para este livro tornar-se fonte de prazer e enriquecimento. Não satisfeita com isso, a autora, a cada detalhe descrito por Freud ou por Anna, redige uma nota de rodapé contextualizando o leitor em relação à época, às pessoas envolvidas, às regiões onde estavam os narradores, fazendo, na maior parte das vezes, comparações com outras fontes bibliográficas. Para essa tarefa, além de livros, socorre-se de outras cartas escritas por Freud e Anna para os mais diversos interlocutores, bem como de material inédito pesquisado pela autora. Todo esse esforço nos ajuda a transformar a leitura deste livro numa viagem pelo tempo, embarcados numa nave capitaneada porFreud e sua Annerl (que era como Freud a chamava), privando de sua intimidade e aprendendo sobre psicanálise, sobre o ser humano, sobre a família, sobre intolerância, sobre sobrevivência, enfim, sobre a vida.  Boa leitura!