Alice no país das maravilhas


Comentário de Maria de Fátima Freitas

FILME: Alice no País das Maravilhas

Ficha técnica: de Lewis Carroll (1865), levado ao cinema por Tim Burton,

com Mia Wasikowska, no papel de Alice, e Jonnhy Depp vivendo o Chapeleiro

Louco.

Jornal SPPA - AGOSTO DE 2010

COMENTÁRIO: Maria de Fátima Freitas (Psicanalista e membro da SPPA)

 

O filme apresenta as dificuldades vividas por uma jovem (Alice) na transição da vida infantil para a vida adulta. Por meio dos animais falantes e dos personagens “malucos” existentes no conto, a personagem Alice vive os medos, as inseguranças e os questionamentos presentes no seu desenvolvimento pessoal. Seu pai, por sua vez, procura lhe trazer explicações, consolos e soluções.

O cineasta apresenta uma Alice adolescente, nos seus 19 anos, vivendo um confronto com a mãe e sofrendo a falta do pai, após a morte dele. Destaca-se o trecho em que a menina aparece indignada com a mãe pela cobrança do uso de espartilho e de meias de náilon no traje de festa. Diante dessa situação, Alice reclama a falta do pai, comentando que ele a compreenderia. Parece, também, estar mostrando sua vontade de ficar como outsider daquele mundo adulto.

Na sequência o filme mostra uma meninadespreparada para assumir uma relação adulta. Acaba descobrindo, por meio da irmã, que a festa é para comemorar seu noivado. Diante do altar e do suposto futuro marido, sua imaturidade floresce e acaba trazendo à tona seu mundo infantil. Com ele vêm todos os animais com quem conversa, brinca e se envolve no seu “mundo das maravilhas”. O Coelho Branco representa a fuga para o imaginário; seguindo-o, ela cai mais uma vez no buraco da árvore, por onde já tinha transitado em sua infância.

Em um primeiro momento, percebe-se a existência de um confronto entre quem era a Alice criança e quem é a Alice adolescente. Tal situação é muito bem representada pelo fato de não ter sido reconhecida por aqueles que habitavam seu mundo interno e pelo modo estranho com que ela enxergava tudo aquilo. Nesse ponto, parece estar em busca de sua identidade, dividida entre dois reinos: o branco (amor) e o vermelho (agressividade).

O clímax do filme ocorre no último diálogo, no qual surge o personagem Absolem, uma lagarta azul, que faz Alice se reconhecer como mulher, assumindo sua própria identidade. A cena simboliza a passagem da fase infantil para o desabrochar da fase adulta, na qual a lagarta, ainda no casulo, transforma-se em borboleta. A jovem deixa de ser Alice no País das Maravilhas e passa a associar seu nome ao de sua família.

O retorno de Alice ao mundo real passa a depender de uma última tarefa: vencer seus medos e suas angústias que, no filme, são representadas por um Dragão. A morte do Dragão representa a conquista da paz do seu mundo interno. Ao retornar do mundo de suas fantasias de menina, Alice assume o controle de seus desejos, enfrenta suas dificuldades e passa a cuidar de si mesma. Decide não se casar, enfrenta seu cunhado, compreende o sofrimento da tia e assume um lugar na empresa que era de seu pai, acreditando nos ideais dele.

Torna-se interessante questionar e comparar a realidade em que vivem atualmente os jovens entre 12 e 19 anos no mundo real e a proposta do filme sobre as angústias que giram em torno da aquisição da independência e da identidade. Desde muito cedo não estariam eles sendo estimulados ou pela mídia ou pelos pais ou pela turma a terem postura de “rapaz” e “moça”? Com carros, bebidas, academias, noitadas e moda, como se já fossem homens e mulheres prontos para enfrentar o mundo. Será que não estamos fabricando “Alices” ou “falsas” mulheres com a aparência de pessoas adultas? Será que estamos esquecendo que estes jovens ainda precisam ser acompanhados e escutados? Será que não nos damos conta que estes meninos e meninas precisam ter, acima de tudo, suas dificuldades e limitações compreendidas? Que precisam de atenção e afeto dos seus responsáveis ou dos seus pais para balizarem suas inseguranças e dúvidas? Onde andam nossas fantasias de criança para nos sensibilizarmos, nos identificarmos e podermos nos aproximar mais de nossos adolescentes?