A parte que falta


Comentário de Kátia Wagner Radke

                                                          A PARTE QUE FALTA  Autor: Shel Silverstein

Inicialmente, gostaria de agradecer à SPPA e à Maria Regina por este convite para participar desta atividade tão importante em nosso meio. Será um prazer poder compartilhar com vocês as idéias que me ocorreram sobre este magnífico livro.

Os escritores têm o talento e a capacidade de dizer muito, ás vezes , em poucas palavras. Silverstein consegue nos falar, de forma lúdica, sobre temas muito sérios: ciclos da vida, incompletude/ completude, temores...

Como penso na leitura como um encontro de uma dupla:leitor e obra, sinto que tive a felicidade de encontrar “A Parte que Falta”; um livro aberto que nos permite uma passeio por nossa imaginação, quase como um sonhar acordada. Para mim, este é um livro que trata sobre o existir humano: um percurso permeado por  encontros, desencontros, quedas, muros e por várias outras experiências que nos conduzem desde a infância até a velhice.

Começei lendo Silverstein em “A árvore generosa” (1964), o qual, por sinal,achei uma enorme generosidade do autor ter nos presenteado com tanta beleza e com tanta sensibilidade acerca da solidadriedade, às vezes tão esquecida por nós humanos.

Talvez tenha sido neste clima que eu tenha me encontrado com “A Parte que Falta”! Senti-me tocada e encantada com este livro. A Parte que falta me suscitou várias partes...

Uma delas, talvez a primeira que salta aos olhos, me parece ser aquela que o personagem transmite de imediato: a busca por algo que nos falta, por uma parte “que dê encaixe”, já que, por um lado, é natural e saudável, dentro de um espectro, que busquemos algo que nos falte.

No entanto, acho que este livro nos apresenta, também, esta busca por um outro viés: uma busca quase desesperada pela completude; a busca por uma parte que dê um “encaixe perfeito”.

Acompanhando o personagem, podemos ver que enquanto buscava a SUA parte faltante, pôde viver várias experiências emocionais: o calor do sol, a chuva refrescante, conversas com as minhocas, sentir o aroma das flores...Porém quando teve o encontro tão esperadoe sonhado com a sua parte “de encaixe perfeito” algo, talvez inesperado, aconteceu:ele já não podia mais conversar com as minhocas, nem sentir o aroma das flores e nem viver  todas aquelas emoções vividas quando sentia tanta falta...

E é aqui que eu gostaria de me deter um pouco mais: neste quase paradoxo entre o encontro perfeito e o desconforto dele proveniente. Por que será que este estado de completude, aparentemente, tão desejado, mostrou-se tão impeditivo que até mesmo o seu cantarolar deixou de ser possível?

O encontro do personagem com a parte que “deu um encaixe perfeito” parece ter lhe causado um “certo asfixiamento”: as palavras de seu, até então livre e solto cantarolar, passaram a sair truncadas, isto poderia ser uma expressão de seu estado “de sufocamento”? Talvez... Não estaria o excesso de presença do encaixe perfeito impedindo a existência de espaços necessários para a liberdade e autonomia de viver do personagem?

O encontro do personagem com a borboleta é descrita como “o melhor momento de todos”. esta afirmação me pôs a pensar...pq seria este o melhor momento de todos? Talvez o fato de a borboleta simbolizar a transformação, de ser portadora de uma metamorfose, ilustre em si uma potencialidade do vir a ser e, assim, de uma perepectiva de futuro... de vida, de liberdade! Deste modo, nos encontramos com a perspectiva de pensarmos “este melhor encontro” como um encontro transformador.

Talvez a possibilidade de tolerar a incompletudo, possa abrir espaço para transformá-la em pensamentos, atos criativos, arte... Precisamos de tempo para que esta metamorfose aconteça!

Vou me valer da psicanálise para pensar na falta e na tolerância diante da mesma, para podermos entendê-la como um dos itens potenciais capazes de colocar a mente em movimento. Movimento, este, que gera alternativas para transformação: pensamentos, fantasias, criação de símbolos que nos permitem tolerar a falta e a nossa incompletude.

Assim, por exemplo, o bebê, no início da vida, não tem recursos para prescindir da presença real de sua mãe ou substituto, pois não tem como mantê-la em sua mente na ausência da mesma, ou seja; ainda não dispõe de condições de tolerar a falta. Porém, aos poucos, espera-se que estes registros iniciais de presença, de cuidado e de vínculo entre mãe e bebê dêem lugar a uma crescente capacidade da criança de tolerar a falta, mediante a criação de uma reprentação (construção mental) da figura materna. Se assim acontecer, espera-se que a criança vá podendo crescer tolerando a incompletude eterna do estado de ser... humano!

Assim,podemos pensar que um quantum de busca pela completude seja inerente ao humano. No entanto,quando estamos diante de buscas desenfreadas, é possível que pensemos que estas revelem alguma impossibilidade do sujeito de tolerar a vida com as suas faltas e incompletudes inerentes.

Uma completude tipo “encaixe perfeito”(sem folga, sem espaços) pode nos levar a um estado de sufocamento, quem sabe, a relações do tipo “grude-aditivo” Talvez eu tenha traduzido um pouco deste modo, a trajetória do personagem: ficou completo “demais” que já não conseguia mais sentir o aroma das flores, não tinha mais tempo para conversar, nem cantarolar podia mais e deixou de poder desfrutar do “melhor momento de todos”: seu encontro com as borboletas! Estaria ele, então, impedido de novas transformações?

Fiquei pensando na nossa Cultura atual, onde as pessoas parecem estar em uma constante busca:busca pela beleza, pela juventude eterna, poder, pelo par perfeito...uma busca, por vezes, quase insaciável,uma eterna insatisfação com o já conseguido, o quê importa é o quê ainda não foi alcançado.

Para finalizar, lembrei-me de uma passagem do filme “ A Livraria”, em quê há uma passagem que é dito algo assim: entender tudo, deixa a mente preguiçosa.Penso eu: precisamos nos desacomodar,um tanto de inquietação é o combustível da vida, porém um excesso de combustível pode ser tão tóxico que impeça o livre viver.