Um método perigoso


Comentário de Viviane Sprinz Mondrzak

Psicanálise: um “método perigoso” no século XXI

 

O filme “Um método perigoso”, atualmente em cartaz na cidade, tem o poder de funcionar como detonador de uma reflexão sobre o método psicanalítico nos dias de hoje. Ao mesmo tempo, há 100 anos, Freud escrevia seus principais textos sobre a técnica da psicanálise com suas recomendações aqueles que pretendiam praticá-la. Portanto, a questão que se coloca é como anda este método? Seria ele perigoso? Em caso afirmativo, quais seriam os riscos e para quem?

A história da psicanálise coincide, no seu começo, com a história de Freud, seu criador e, portanto, com o contexto no qual Freud estava inserido. É uma história com várias passagens interessantes, com personagens controversos, onde a pesquisa sobre o funcionamento psíquico coincidia com a criação de um método de tratamento das neuroses.

Vemos retratados no filme algumas das principais preocupações de Freud principalmente no início, onde estava desenvolvendo uma nova disciplina com o agravante de trazer questões com alto poder de serem rechaçadas.  Para começar, o inconsciente. Ao contrário do mundo inconsciente dos poetas românticos, sede caótica das paixões, Freud apresenta um inconsciente organizado, com sua semântica própria, regido por  regras bem estabelecidas e, acima de tudo, determinando silenciosamente e fora do  controle consciente, nossa conduta. Nada fácil de ser aceito em qualquer época e ainda mais num mundo iluminista, onde a razão podia tudo. Como se isto não bastasse, havia a questão da sexualidade. Ao contrário do que se possa pensar, este assunto estava na pauta dos estudos científicos da época. Na segunda metade do século XIX, vários compêndios foram lançados classificando as várias “anomalias” sexuais. Então, porque a oposição à sexualidade freudiana? Possivelmente porque esta é uma sexualidade que está presente desde o início da vida humana, em seus vários formatos, oral, anal, fálico, fazendo parte do desenvolvimento da criança e determinando o surgimento ou não de uma neurose. Portanto, temos uma sexualidade infantil, acompanhada de fantasias incestuosas, que Freud chamou de polimorfa perversa, normal, rompendo a barreira com o patológico. Esta sexualidade sempre presente, constitutiva de quem nós somos e não aquela distante, dos compêndios de perversões, é bem mais difícil de ser aceita.

Assim, como fazer esta jovem disciplina, derivada direto da hipnose ter credibilidade científica senão procurar adequá-la aos padrões deterministas que regiam o status das ciências da época, que tinham a Física como modelo?  Qualquer ligação com misticismos  ou com o poder de sugestão da hipnose precisava ser evitado, com o risco da psicanálise focar associada à uma prática xamânica.

Da mesma forma, numa Viena antissemita, o fato dele próprio e seus seguidores iniciais serem todos judeus era uma preocupação para Freud, que não queria que a psicanálise fosse vista como algo “de judeus” com toda carga pejorativa implicada nesta afirmativa. Todos estes temores estavam presentes no breve mas intenso relacionamento de Freud com Jung. Escolhido inicialmente para ser seu sucessor, Jung  trazia uma oposição à importância da sexualidade e uma aproximação com misticismos impossíveis de serem equacionados naquele momento com a psicanálise. Há muitos detalhes deste conturbado relacionamento, que deixou marcas nos dois homens e no movimento psicanalítico e só podem ser compreendidas dentro do contexto daquele momento. Caso contrário corre-se o risco de fazer julgamentos apressados, escolher quem é o mocinho e quem é o vilão nesta história, o que tira de foco as principais questões envolvidas e cria polarizações empobrecedoras, ao invés de um movimento de apontar diferenças conciliáveis e irreconciliáveis. Aliás, este é um processo que vem se intensificando nos últimos anos, uma aproximação entre as duas correntes, na busca de um diálogo que procure ir além das circunstâncias do relacionamento Freud/Jung.

 

Mas é hora de voltarmos aos dias de hoje. Muitos mitos ainda cercam a psicanálise. Um deles é ter uma idéia dos analistas “freudianos” como seguindo Freud em todas suas idéias e defendendo-o como alguém intocável. Na verdade, a psicanálise é uma disciplina em constante evolução e estaríamos mais próximos da realidade se disséssemos que ela evolui a partir de Freud. Esta é inclusive uma das principais características do pensamento freudiano, um pensamento que foi se transformando ao longo dos seus anos de experiência, reformulando idéias, acrescentando novas visões.

 

Outro mito que cerca a psicanálise diz respeito à sexualidade, quando fica associada exclusivamente à sexualidade genital, ao ato sexual. Esta sempre foi uma das questões mais difíceis de serem compreendidas, já que o conceito de sexualidade de Freud é muito mais amplo e não se resume a “falar sobre sexo”. Numa época de repressão sexual, como nos primórdios da psicanálise, a idéia de uma liberalização total dos desejos sexuais era um dos “perigos” associados ao tratamento psicanalítico, o que fica bem representado no filme através de Otto Gross, que defendia uma liberdade sexual sem limites. No entanto, Freud já deixava bem claro que não bastava recomendar mais atividade sexual aos pacientes, porque o importante eram as características das fantasias sexuais, que determinavam a necessidade de serem reprimidas. Freud ainda apontava que abrir mão da completa realização dos desejos era um dos preços a pagar pela civilização. Uma noção importante em qualquer época e que vai muito além dos desejos sexuais. Levar em conta o outro, abrir mão de todas as satisfações em nome de poder conviver em sociedade é um princípio fundamental, nem sempre fácil de ser atingido. Ainda hoje, onde há uma liberdade sexual incomparável a dos tempos de Freud, enfrentamos outros desafios e a necessidade permanente de negociar os limites que a realidade nos impõe. Portanto, a noção de abandonar os limites, sejam os sexuais ou qualquer outro, passa longe dos objetivos de uma psicanálise. Pelo contrário, o que se busca é uma melhor aceitação dos limites que a realidade impõe aos nossos desejos e expectativas e a busca por melhores negociações e possibilidades de obter satisfação dentro desta realidade. Um aumento na capacidade de reflexão e no potencial criativo de cada um necessita desta aceitação de limites.

Outro mito recorrente diz que numa psicanálise só se fala do passado, em busca das causas dos problemas, localizadas na infância. Apesar de se ter claro que as vivências infantis são estruturantes do psiquismo, muito se passou desde a visão determinista dos tempos de Freud e, hoje, trabalhamos com uma noção de causalidade complexa. Não se busca, como com frequencia aparece nos filmes e no imaginário popular, os traumas causadores dos sintomas. Sabemos que é impossível determinar com precisão o que causou o que, já que são redes complexas de fatores envolvidos e o que podemos é formular hipóteses. Além disto, a temporalidade do funcionamento psíquico não é a mesma do tempo lógico. Em qualquer assunto que se fale numa sessão analítica estão presentes aspectos do passado cronológico que continuam vivos e,muitas vezes, formando cistos de emoções que continuam a ser sentidas como foram no passado, como se não tivessem sentido a passagem do tempo.

Mas e os perigos do método psicanalítico conforme o título do filme?

Penso que um tratamento psicanalítico envolve intensamente duas pessoas e tem o potencial de provocar também intensas emoções. Para poder compreender estas emoções, não basta ao analista um conhecimento teórico, é preciso usar suas próprias emoções como instrumento de trabalho. O “perigo”, para paciente e analista, está presente se o analista não está preparado para esta tarefa. Esta preparação é específica e pressupõe mais do que muito estudo teórico e clínico, pressupõe que o analista se analise, experimente o método em si próprio para confirmar ao vivo a força dos processos inconscientes e tenha acesso a suas emoções, que fique com menos pontos cegos, áreas comprometidas que o impeçam de compreender seu paciente. O método torna-se “perigoso” se o analista não tem claramente estabelecido que está ali numa determinada função e que há uma assimetria necessária e inevitável já que o paciente está precisando de ajuda e coloca o analista na posição das pessoas importantes da sua vida que tiveram o papel de cuidadores. A exigência de análise para um analista não é, portanto apenas formal, é parte essencial da formação e implica um compromisso ético. No início da psicanálise, isto era apenas uma recomendação e, como o filme mostra dava margem a muitas atuações, com envolvimento sexual entre paciente e analista, o que hoje configuraria um problema de natureza ética. 

Mas, vale a pena correr o risco de estabelecer esta relação que é única e este diálogo que é também único, porque não pretende julgar nem direcionar o paciente, mas sim, auxilia-lo e encontrar suas próprias soluções e diminuir seu sofrimento psíquico. A psicanálise sempre teve noção de suas limitações e nunca pretendeu resolver todos os problemas e acabar com as dores e tristezas. Mas em tempos de velocidades e estímulos alucinantes, de busca de alívios rápidos e de algo que anestesia as angústias, é bom que se tenha uma área onde ainda o encontro humano e a reflexão sobre as emoções sigam vivos.

 

Viviane Sprinz Mondrzak