Meu nome não é Johnny: Evento Direito e Psicanálise IV Encontro


Comentário de Nyvia Sousa

Boa noite a todos, em primeiro lugar gostaria de agradecer a Regina Guimarães e a Vivian Day por me convidarem para esta atividade conjunta, chamada Direito e Psicanálise, entre a OAB/SPPA para debater este filme tão eletrizante que é o Meu nome não é Johnny.

Gostaria de parabenizar aos organizadores pela escolha do filme, que muito bem se encaixa na proposta de debatermos aspectos tanto jurídicos quanto psicanalíticos.
De tantos pontos de vista possíveis acabamos selecionando algum ou alguns que mais nos chamam a atenção, seja por nosso interesse pessoal, claramente manifesto em nossas opiniões, ou mesmo por outros, nem tão conscientes assim.

Uma frase abre o filme. João Estrela está cumprindo medida de segurança no que parece ser um manicômio judiciário, e recebe um cartão de natal, com a seguinte frase de Marguerite Youcenar:
“O verdadeiro lugar de nascimento é aquele em que lançamos pela primeira vez um olhar inteligente sobre nós mesmos...”

Esta frase me impacta e ao longo do filme, que agora revejo no laptop em casa numa manhã ensolarada de domingo, ressoa na minha mente. O filme inicia com João, um gurizinho, nascido em um ambiente com muito amor, alegria e conforto material. No meio de tantas facilidades que, superficialmente, nos faz pensar em um desfecho positivo para a vida deste menino.

Porém, sinto falta desde do início do olhar cuidadoso, que impõe os limites e ensina a tirarmos proveito no enfrentamento das adversidades. Como dizia um conhecido psicanalista, Bion, é na frustração que se cria o pensamento, é na falta que aprendemos a raciocinar, que aprendemos com a experiência.

No texto o Futuro de uma ilusão, Freud escreve que faz parte do curso de nosso desenvolvimento que uma certa coerção externa aos impulsos se faça necessária, até que possa ter sido gradualmente internalizada, vindo a fazer parte do indivíduo como um código moral interno, uma herança do processo de aculturação dos impulsos, por assim dizer.

Nas coisas aparentemente pequenas do dia a dia, os pequenos delitos, as mínimas infrações passam desapercebidos, não há limites nem regras a serem cumpridas. Na falta deste outro olhar, João surfa, corre, anda de skate pela vida, aparentemente sem percalços ou obstáculos.

Na primeira dificuldade real, a doença do pai e a separação do casal parental, João não tem parceria para a dor e o luto. A mãe sai de cena literalmente, o pai doente e ainda mais enfraquecido em sua debilidade física não é parceiro no enfrentamento do sofrimento.

João se entrega as drogas de corpo, alma e braços abertos, com uma ingenuidade quase pueril. E daí segue o baile... Os bailes, festas, noitadas, regadas a droga, muita droga e puro rock’n roll, daí para frente nós sabemos, vimos e revimos juntos nesta noite.

Algumas vezes, poucas vezes, e de modo muito pálido ou enfraquecido aparece um olhar mais atento que questiona sua conduta. Um amigo que segue outro caminho e lhe questiona sobre a vida que está levando, ou mesmo o João aconselhando em vão um cliente, o psiquiatra viciado, a manerar no vício, no mais parece que nada se passa. Não importa o quão explosiva é sua conduta, afinal é sempre gol do flamengo no Maraca...

Quando todo o esquema é deflagrado e João se vê em cana, uma nova cena se descortina. É na privação da liberdade, e especialmente na ausência da droga e de todos os excessos, que João por caracteríticas suas de carisma e autenticidade, que sempre lhe acompanharam, resquícios da mesma criação que não lhe protegeu do vício e do crime, capta para si o olhar da Juíza Marilena Soares, ao lhe dizer explicítamente e quebrando o protocolo do juri.

A cocaína era minha excelência. Fiz tudo isso sozinho. Meu nome não é Johnny, eu não sou bandido, meu nome é João Estrela... Eu nunca soube o que dentro e o que é fora da lei, na minha vida as coisas foram acontecendo...

Esta cena se complementa com seguinte na qual a juíza finaliza o veredito e lê para si mesma, colocando abaixo a tese da promotoria. Em suas palavras:
A questão é: O direito é uma ciência exata, alguma coisa como uma equação derivada do código penal? Evidências mais flagrante mais atenuante e então se determina uma sentença... Fica difícil imaginar um punhado de pessoas com problemas graves de dependência conseguirem no crime a estabilidade que jamais conseguiram em suas vidas.

Então para encerrar retomo a frase de Youcenar, que ao final do filme ficamos sabendo que fora transcrita por Marilena, para dizer que o olhar, a que me refiro agora, tem muito mais de afeto, de cuidado do que de inteligência, de racionalidade, ou de exatidão para usar o termo da juíza, e não é o olhar que lançamos sobre nós mesmos, e sim um olhar que é lançado sobre nós através do outro, tema tão central na psicanálise contemporânea.

O olhar que transforma o bandido Johnny de responsável por estrutura organizada de sociedade criminosa, em João Guilherme, um traficante sim, mas também um doente que é internado em um hospital de custódia.

Daí em diante concordo com a trilha sonora, que ressoa com um refrão ao fundo - It’s a long way -

Uma longa e sinuosa estrada como na música dos Beatles, onde Caetano se inspirou para compor esta outra, em direção a verdadeira recuperação e a retomada da vida para João Guilherme Estrela.

Termino minha fala com uma frase da juíza Marilena Soares, que resume o filme que acabamos de assistir:

João Guilherme é a prova viva de que é viável recuperar as pessoas. É o atestado de que a nossa luta não é em vão.
Tanto a nossa como psicanalistas, quanto a de vocês como juristas. Obrigada.