Juno: Em Defesa de uma certa normalidade na adolescência


Comentário de Luciane Falcão

O filme Juno tem sido objeto de múltiplas discussões sobre a adolescência. Ouvem-se e lêem-se críticas que o acusam de mostrar uma adolescente fora de padrão por demonstrar certos discernimentos que não encontraríamos nesses jovens. Gostaria de propor alguns pontos à reflexão daqueles que, como nós, trabalham e convivem com eles.
No mundo atual, os adultos vêm rotulando os adolescentes como seres em permanente tumulto e chegam ao cúmulo de denominar seus próprios filhos de “aborrecentes”. Mas que pais ou educadores são esses que só os percebem como problema? Será que um adolescente não pode ser razoável nas suas decisões, ter discernimento do que lhe é permitido ou não, pensar, sofrer e, isso feito, tomar alguma decisão coerente?
Tenho me deparado com um bombardeio de generalizações sobre os adolescentes, que penso estar servindo para cenário de outras questões. Existem, sim, adolescentes com dificuldades e patologias importantes e graves distúrbios de condutas, assim como existem crianças e adultos doentes. Mas passamos agora a considerar que o normal é a patologia?
Penso que não estamos sendo capazes de reconhecer e valorizar todo o potencial dos adolescentes para serem criativos, ponderados e capazes de estabelecer bons vínculos, mesmo vivendo um período psíquico de seu desenvolvimento que lhes exige muitos rearranjos.
Em psicanálise, dizemos que o ser humano tem potencial para a vida, a criatividade e a ligação, mas também para o desligamento e a destruição. E pensamos que há a necessidade de estas duas forças entrarem num acordo para que a vida possa seguir relativamente harmoniosa. Quando nos deparamos com patologias graves, nos ocorre o potencial para a destruição e, ao contrário, no caso de um desenvolvimento adequado, pensamos no potencial para a ligação, para a vida.
Mas será que, no mundo de hoje, a pulsão de morte e de destruição está se apoderando de tudo, inclusive da mente dos adultos, que não podem ver um adolescente sem julgá-lo doente? A criança detém um extraordinário potencial de vitalidade e de adaptabilidade às circunstâncias reais, potencial que o adulto já perdeu. Com vigor incomum, ela é capaz de lidar com as vicissitudes mais exigentes por ser animada pela força da ligadura, do amor pela vida. O adolescente vivenciou todas essas potencialidades na infância. É, contudo, na adolescência que toma consciência de não ser o que os adultos desejaram que ele fosse. Ele deverá, então, fazer um luto e encontrar um meio de viver em sociedade. Na grande maioria dos casos, ele cumpre essa tarefa de iniciação. Mas penso que, se encontrar a sua frente adultos que perderam tudo isso, o problema maior não será somente dele e, sim, de quem não pôde ver nesse adolescente um indivíduo capaz de criar, de se desenvolver e de tomar decisões. Ou seja, o problema concerne somente ao adolescente?
*Texto publicado no jornal Zero Hora em 03/04/2008