Divertida Mente


Comentário de Ana Cristina Pandolfo

Assistir o filme “Divertida Mente” permite muitas leituras. Uma aventura desde a infância até a adolescência, passando pelas modificações e gradativo aumento da complexidade dos afetos inerentes ao crescimento. As emoções que acompanham a menina, desde o nascimento, iniciando pelas básicas alegria e tristeza, passam a ser acompanhadas pelo medo, “nojinho” e raiva. Riley, de 11 anos, vivia feliz com seus pais numa cidade do interior até que eles se mudam para uma grande cidade e esta mudança – a da saída da infância conhecida e protegida e entrada na adolescência - estranha, desconhecida… acarreta uma desacomodação no suposto equilíbrio mantido pela alegria.
 

O que fica marcado e que surpreende é a representação de algo que nossos tempos buscam banir de forma veemente: a aceitação e elaboração de perdas para que o crescimento ocorra.
 

Mais que aceitação de perdas, a necessidade de que a tristeza possa ser sentida. A dor da perda do lugar conhecido,  a dor da perda do corpo da infância, a dor da perda dos pais idealizados, a dor da perda das ilusões…
 

Vivemos num tempo sem tempo para estes sentimentos: chorar, estar de luto, separar-se, renunciar, sofrer… não compõem o enredo sugerido para nossas vidas, mas sim estampar capas de revistas sempre sorrindo, sempre com sucesso, sempre com imagens e lembranças felizes.
 

Vivemos num tempo em que a perda deve ser banida. A tristeza não pode tocar em nada, como no filme, em que inicialmente a tristeza era algo que “contaminava”. 

Aos poucos, contudo, o filme surpreende. Ele revela à alegria, que a vida não é pura e que a manutenção do maniqueísmo é artificial. Que as emoções são vividas em conjunto. E o mais tocante: que poder chorar uma perda abre aos poucos caminho para o novo. Precisamos nos dar a chance de ficar tristes, chateados, para que possamos encontrar caminhos novos, verdadeiros e criativos para após seguirmos adiante.