Crepúsculo


Comentário de Marli Bergel

O mito do vampiro em novas roupagens

 

Que atração exerce a lenda dos vampiros que nos acompanha há séculos através da literatura, do cinema e televisão? Atualmente ela encanta o público adolescente através da saga Crepúsculo, de Stephenie Meyer.

Historicamente, consta que, séculos atrás, instalou-se uma “histeria coletiva” no leste europeu, após boatos de que um ou dois mortos teriam voltado para beber o sangue dos vivos. Famílias inteiras mobilizaram-se em uma “caça aos vampiros” desenterrando seus mortos para decapitá-los, queimá-los ou cravar-lhes estacas.

Através da ficção o “morto-vivo” transforma-se em personagem, o vampiro. Uma das obras de maior sucesso foi “Drácula”, de Bram Stocker. Depois, muitos livros sobre a lenda do vampiro surgiram e foram adaptados ao cinema. Ao longo dos tempos, o personagem foi se transformando na imaginação dos autores e de seus leitores, adquirindo novas roupagens, de acordo com a cultura de cada época.

Assim, o mito permanece vivo no imaginário popular. Apesar das transformações a fantasia de imortalidade segue presente. Na saga Crepúsculo, além de imortais, os personagens são mais jovens e bonitos, mais fortes e velozes, qualidades que conservarão eternamente, enquanto que nós, humanos, “pobres mortais”, as perdemos com o tempo.

O fascínio que “Crepúsculo” exerce sobre os adolescentes pode ter relação com as intensas mudanças corporais sofridas. Apesar de indicarem a força da vida e o acesso à sexualidade, que pode originar outro ser vivo, também apontam para a passagem do tempo. O mito evidencia a realidade da morte e a necessidade de negá-la. E as gerações, uma após a outra, o recriam, numa tentativa de administrar a idéia da morte.

Nas diversas versões do mito, está presente o conflito do ser humano com a sexualidade. A aproximação entre vampiro e vítima apresenta-se sempre num clima de sedução e excitação junto à sensação de sinistro. Na adolescência, os jovens precisam separar-se de seus pais, buscam maior convivência com grupos de semelhantes, apaixonam-se e precisam lidar com seus sentimentos, excitação e temores em relação à sua sexualidade. Presentes na saga, estes ingredientes, ao tomar a forma de “fantástico, sinistro, incomum”, encobrem (e descobrem) a natureza inconsciente dos conflitos. Capturam o adolescente porque o auxiliam a enfrentar sua nova realidade corporal, social e amorosa.

Temos em “Crepúsculo” a divisão entre vampiros bons e maus. Os bons evitam beber o sangue dos humanos, num esforço tremendo para controlar seus impulsos. Os maus apenas dão vazão aos seus desejos. Maniqueísmo comum na literatura, onde nos identificamos com os dois lados, e geralmente torcemos pelo bem, numa tentativa de lidar com nossos impulsos.  

Um dos valores da ficção é que nela tudo é possível. Já a vida real impõe limites, às vezes difíceis de serem administrados. Uma possibilidade saudável de lidar com eles é nos deliciarmos com a ficção, sabendo que, após o término da leitura, é a vida real que nos espera. No entanto, naqueles momentos de ilusão recuperamos forças para lidar com a realidade.

 

Psicanalista Marli Bergel, membro da Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre (SPPA)