A Forma da Água


Comentário de Ana Cristina Pandolfo

 

Assim, aplaudimos o filme por levantar a pergunta: Existe alguma forma para o amor? 

Minha inquietação contudo se dá pela metáfora: a água, que não tem forma e que poeticamente, ao se moldar a qualquer superfície, ao penetrar em qualquer fenda, nos convoca a sair da rigidez de conceitos fechados.

Vivemos numa época em que precisamos de parâmetros; recebemos na clínica psicanalítica pacientes soltos, perdidos, com crises de identidade, fazendo emergir a angústia.

Testemunhamos perdas de limites em redes sociais,  ausência de respeito na política,  confusão de valores.

O "líquido" tende a sugerir caos, perda de referências.

Proponho que saiamos do antagonismo entre a rigidez e o liquido e pensemos na ideia do liquido amniótico, primeira água que conhecemos, que nunca está solto, mas contido pelo útero, que flexível, acompanha o desenvolvimento do feto.

O colo de uma mãe tem forma? Não. Ele se molda, se encaixa, contém e ampara.

E um abraço?

E a escuta atenta de um amigo?

E um beijo apaixonado?

São formas que se moldam e oferecem continência, apresentando um limite necessário, nos salvando da queda livre  dos nossos tempos caóticos e propiciando momentos em que possamos criar saídas e soluções que não passem pela fuga e desistência. 

Precisamos reconhecer o outro e compreender que a base da luta contra o preconceito é justamente aceitação da alteridade, do não eu, e não a triste bandeira do "pode tudo" que leva ao sentimento de abandono e descaso.

Assim, a forma da água como complementar a estruturas flexíveis, poderia inspirar inclusive novos modelos de instituições públicas salvando-as da caduquice mofada e medieval.

 

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