A excêntrica família de Antônia


Comentário de Anette Blaya Luz

A primeira vez que assisti ao filme A excêntrica família de Antônia foi numa noite muito fria de inverno, com o ar condicionado da sala de cinema estragado ou desligado, ainda não sei qual dos dois. A platéia era formada por uns dois casais, mais duas pessoas sozinhas e um ou outro grupinho de dois ou três amigos. Enquanto esperava pelo início da projeção, fiquei pensando que aquela poderia ter sido uma péssima idéia, pois a noite convidava mais para ficar em casa na frente da lareira ou algo parecido. Qualquer coisa seria mais gostoso do que congelar ali. Descrevo essa sensação, pois, ao final do filme, eu estava surpresa de perceber que não tinha sentido frio, tamanho o envolvimento que me proporcionou. Saí do cinema gratificada e satisfeita por ter podido assistir àquele filme. Repleta. Pensei comigo o que havia nele de tão agradável ou intenso que me fazia sentir satisfeita daquela forma. Assim, quando o pessoal da Comissão de Divulgação da Soc. Psicanalítica de Porto Alegre me convidou para fazer um comentário sobre Antônia, fiquei entusiasmada com a tarefa.

Meu entusiasmo, no entanto, logo se transformou em apreensão, pois, ao revê-lo, mais uma vez, com o propósito de redigir esse comentário, dei-me conta da complexidade dos personagens e do enredo. Novamente me perguntei o que havia de tão intenso em Antônia, que me fazia apreciá-lo tanto. A primeira idéia que me ocorreu é a de que há de tudo nele. Há uma amostra do que há de mais forte e saudável, entremeado com o que há de mais louco e doentio dentro dos seres humanos. Pareceu-me uma verdadeira e genuína amostra da própria vida. Antônia nos brinda com questões como nascimento, morte, amor, ódio, suicídio, assassinato, fratricídio, abuso sexual-estupro ou simplesmente abuso de um ser humano por outro, relações sadomasoquistas, lésbicas, “platônicas”, pecados, o original e outros, a cena primária, chantagem, religião, castidade, a mãe solteira, o retardo mental e a genialidade, coragem, covardia, hipocrisia. Todos aspectos da vida humana. O mais chamativo, talvez, seja a maneira como esses temas difíceis são apresentados de forma tão direta e simples, sem a condenação que normalmente despertam. Tudo parece absolutamente normal. Tão absolutamente normal que chega a ser intrigante. Os próprios personagens apresentam uma profundidade emocional fascinante e extremamente tentadora para que se faça uma abordagem psicanalítica. Tome-se, por exemplo, a relação da Louca Madona e do Protestante, ou a obsessão de Letta por engravidar. Ou o que se poderia examinar e estudar sobre o deprimido filósofo Dedo Torto. Assim, perguntei-me “sobre o quê?” fazer meu comentário, já que as possibilidades eram inúmeras. Optei por Antônia, sua personalidade, ascendência e descendência, já que essa é a matéria prima de que é feita a psicanálise.

O início do filme parece nos colocar frente a duas alternativas de vida, que estão ali representadas por duas alternativas de morte. Há duas maneiras de se viver, assim como há duas maneiras de se morrer. Antônia e sua mãe morrem dentro do mesmo quarto e, suponho eu, até deitadas na mesma cama. Mas são mortes diferentes. Pode-se morrer suave e serenamente, ao alvorecer de um lindo dia, cercada por todos os seus entes mais queridos e tendo-se tempo de lançar um olhar terno de despedida sobre cada um deles e receber deles o mesmo adeus triste, porém tranqüilo, como fez Antônia. Ou, pode-se morrer atormentada e delirante, quase só, dentro do mesmo quarto, embora dessa vez escuro, repleto de teias de aranha e velas acesas. Ao invés de um olhar terno de adeus, uma crítica áspera e acusadora para sua filha que não via há muitos anos e por quem a moribunda esperou, para, só depois, morrer. Assim morreu a mãe de Antônia. Penso que o mundo interior de Antônia e de sua mãe fica bem simbolizado pelos dois cenários onde o milagre da morte acontece. Assim, o milagre da vida pode ocorrer dentro de um quarto-mente-coração quente, luminoso, habitado por bons objetos, como é o caso da existência de Antônia. A outra possibilidade é representada pelo cenário escuro, penumbroso e fúnebre. A cena da morte de Antônia é triste, mas não fúnebre, enquanto que a cena da morte de sua mãe é bastante lúgubre e fúnebre. O afeto carinhoso e melancólico que permeia a cena da morte de Antônia contrasta com o clima frio e distante do momento de despedida entre Antônia e sua mãe. Concluo que essas duas mortes são assim tão diferentes, porque as duas mulheres fizeram opções de como viver a vida muito diferentes também.

O pano de fundo dessas duas alternativas de vida é a submissão da mulher ao homem e a relação sádica que pode se estabelecer entre ambos. O filme retrata a temática vista através das lentes de uma mulher. A preocupação da autora e diretora do filme, Marleen Gorris, é com o universo feminino, correndo o risco, em alguns momentos, de mostrar a mulher no papel de dominador sádico, exatamente o papel que deseja criticar no homem. Uma das cenas mais belas do filme mostra, quem sabe, a revanche feminina contra tantos séculos de submissão frente ao homem. Refiro-me à cena em que Antônia, de capa escura, bonita, altiva e exuberante desfila, seguida pelo submisso, desengonçado e grato Boca Mole, bem em frente ao fazendeiro Bar e seus filhos, enquanto esses trabalham na roça. A expressão de satisfação serena e segura de Antônia adquire significado frente ao olhar de carinhosa admiração do fazendeiro viúvo. é possível que, para Marleen Gorris, essa devesse ser a ordem natural das relações entre homens e mulheres. O universo masculino é oferecido ao espectador ora como cruel (Pitte, o irmão que violenta), fraco e estúpido (Boca Mole), deprimido e fóbico (Dedo Torto), garanhão e burro (o Adônis da motocicleta), gentil e submisso (Bar e Simom). Cabe salientar que, ao longo de todo o filme, não há nenhuma referência ao marido de Antônia. é quase como se ele não existisse, fosse nulo, ausente e, quem sabe, desnecessário.

Apesar de estarmos no limiar do século XXI e apesar de já terem ocorrido tantas mudanças, ainda vivemos em uma sociedade muito machista, e é contra a posição submissa da mulher neste sistema que a personagem principal se insurge. Por que ela se recusa a ter a vida igual à das mulheres comuns é bastante óbvio: ninguém saudável e inteligente gosta de ser maltratado. Antônia é saudável e inteligente, e isso a torna forte. Talvez por isso tenha conseguido sair daquele vilarejo vinte anos atrás, e, quem sabe, justamente o fato de ter ficado vinte anos longe dali a tenha tornado uma mulher mais forte e segura, capaz de voltar para casa e enfrentar todos os preconceitos machistas com a cabeça erguida e de “bem com a vida”. Há referências que ela, mesmo antes de ir embora daquele lugar, já era considerada uma rebelde-feminista. A caracterização da personagem está muito bem feita. A diretora foi feliz na escolha da atriz que interpreta Antônia. Uma mulher grande e forte, ao mesmo tempo que suave e feminina. Tem braços fortes como os de um homem para o trabalho e seios fartos simbolizando sua capacidade de acolher, cuidar, “amamentar” quem precisasse da sua proteção. Uma mulher de bem consigo mesma. Que outra opção teria? Ficar igual à mãe de Deedee? Minha interpretação é que a mãe de Antônia e a mãe de Deedee representam a mesma alternativa, qual seja, a eterna submissão a homens “cruéis”, adúlteros e que, por isso mesmo, foram condenados, pela escritora, à morte prematura. Essa opção feminina faz com que as mulheres obedeçam seus senhores masculinos e sejam por eles desrespeitadas e abusadas. A aceitação do papel de maltratadas dá aos homens mais força no papel de tiranos. Isso impede as mulheres de proteger suas filhas e de educar seus filhos para que esses tratem as mulheres de outra forma. Passam a vida guardando mágoas e revoltas. Morrem sós. A única possibilidade de expressarem sua dor e ódio dessa situação de medo e obediência é a loucura, exemplificada pela mãe de Antônia. Caso contrário, o silêncio e a devoção religiosa, opção da mãe de Deedee.

A possibilidade de ser Antônia uma mulher que está de bem consigo mesma é que lhe permite quebrar tabus e entrar com tranqüilidade no bar, até aquele momento exclusivo para homens. A personagem não se intimida com a recepção pouco calorosa do fazendeiro Dan e enfrenta-o de igual para igual. Danielle, a filha, parece estar acostumada a esse clima tenso que a postura de sua mãe desperta, pois, enquanto segue o diálogo áspero entre Dan e Antônia, Danielle boceja displicentemente, quase alheia ao que se passa ali.

Fica bem evidente que Danielle tem a mais absoluta confiança em sua mãe, e ela e Antônia são amigas e próximas. Talvez próximas até demais. é bem possível que a homossexualidade de Danielle seja o reflexo do desejo da própria Antônia de rechaçar e não precisar dos homens. “Marido, para quê?” pergunta Antônia ao fazendeiro Bar, quando esse vem pedi-la em casamento. O constrangimento do fazendeiro contrasta com o olhar debochado de Danielle. é como se Danielle estivesse fazendo troça dele, já que a mãe era dela e não precisaria de homem nenhum para satisfazê-la, pois sua companhia bastava à mãe. Danielle testemunha e adota para si a posição de Antônia. Penso que o lado de Antônia que não está de bem com a vida explode na personalidade de sua filha, quando essa se mostra incapaz de estabelecer uma relação amorosa heterossexual madura. Tanto é que, quando Danielle quer ter um bebê, ela pede ajuda à sua mãe, que parece lhe perguntar, mais por descargo de consciência do que por convicção, se ela, Danielle, não gostaria de ter um marido. Danielle, com muita calma, diz que não. Que só quer a criança, não o marido. Antônia a apóia e, como ela própria não pode engravidar sua filha, embora, penso, poderia ter esse desejo, vão juntas à cidade em busca de um bom reprodutor. Aqui fica bem nítido o maltrato feminino aos homens e a crença onipotente de todos os homossexuais de que não precisam do sexo oposto.

A busca pelo pai-reprodutor é apresentada de maneira natural e quase óbvia, como se fosse livre de conflito, o que não me parece. A dúvida e a insegurança, reflexo do conflito, transparecem no tom de voz baixinho, quase cochichado, quando Danielle e sua mãe pedem a Letta que as ajude a encontrar um bom reprodutor. O olhar aflito, que Antônia tenta disfarçar, enquanto espera pela filha no jardim do hotel, também evidencia seu desconforto e inquietude. O clima de triunfo sobre os homens e sobre a realidade da necessidade desses fica evidente na cena em que Letta, Danielle e Antônia saem caminhando e rindo, enquanto deixam para trás, adormecido, o “garanhão” usado para a reprodução.

Antônia ajuda a filha a “derrotar” os homens, enquanto a mãe de Deedee não consegue proteger sua filha dos abusos que sofre por parte tanto do pai como do irmão, que inclusive a estuprava. Antônia pode entrar no Bar, enquanto a mãe de Deedee fica aguardando do lado de fora. Antônia traz sua filha para dentro do Bar de Olga, ensinando-lhe com isso, que ela, Danielle, tem direito àquilo. Deedee não só fica esperando com a mãe do lado de fora, como é exposta e humilhada pelo pai e irmão na frente dos demais fregueses. Danielle cresce rechaçando os homens, enquanto Deedee cresce com um ar de retardo mental, mas aceita um homem. é chamativo que Deedee, à medida que vai sendo bem tratada por Antônia e Danielle, se transforma ao longo do filme, perdendo um pouco de seu aspecto abobalhado, sendo, inclusive, homenageada pela pequena Sarah com uma poesia. Parece que Sarah descobre em Deedee o amor maternal que não está disponível em sua mãe Tereza. De fato os dois personagens mais “retardados” formam o casal mais “normal”, pois se gostam, são carinhosos um com o outro, são casados, criam juntos a prole e Deedee sofre muito com a morte do marido.

Talvez Deedee, tanto quanto Danielle, tenha compreendido sua mãe e, por isso mesmo, tenha preservado dentro dela uma boa imagem materna. Há duas cenas em que Deedee e sua mãe se olham carinhosamente nos olhos, como se ambas estivessem se comunicando em segredo. Refiro-me à cena de Deedee na Igreja com os óculos novos e à cena de seu casamento, quando sua mãe, vestida de preto, lança-lhe um olhar carinhoso e cúmplice. Parece que, mesmo à distância, a mãe torce por ela. Da mesma forma, Antônia e Danielle também se lançam olhares cúmplices e amorosos, quando passeiam pelo cemitério abraçadas e durante um almoço ao ar livre. Penso que as duas filhas, Danielle e Deedee, realizam o desejo de suas respectivas mães. O desejo da mãe de Deedee poderia ser o de um casamento mais feliz que o dela própria, e o desejo de Antônia de não precisar de um marido.

A desconfiança e o medo de Antônia frente aos homens, apesar de toda a sua luta para não temê-los, aparece. Mas aparece naquilo que os homens poderiam ser menos perigosos. Antônia não teme a força nem a violência masculina. Ela os enfrenta de igual para igual, de espingarda em punho. O que Antônia teme nos homens é o seu amor por eles. Amor que pode despertar desejo e dependência. Essa é a fraqueza da personagem, que fica concreta na conduta homossexual de sua filha. No momento em que Antônia concorda em ter relações com o fazendeiro, ela explica que, após todos esses anos, tem andado carente, mas em seguida coloca regras para se defender do medo de se descobrir mais carente do que gostaria. Estipula que os encontros amorosos não podem ser dentro de sua casa ou da dele e que a freqüência seria uma vez por semana, mas a doce sensibilidade do fazendeiro a desarma e tranqüiliza. Assim concordam em seguir o ritmo de seus corações. Ritmo esse representado por uma cena muito bonita e poética, quando Bar, dirigindo um trator, leva Antônia na garupa, cabelos soltos, expressão de alegria em seu rosto. Danielle fica para trás, abraçada à filha Tereza, acenando adeus.

Seguindo a linha de raciocínio que estou propondo, podemos encontrar um detalhe que, a meu ver, é bastante elucidativo. Como psicanalista sigo a cadeia associativa do enredo, i.é., a ordem seqüencial em que a trama é apresentada. Nota-se o seguinte: após a cena que acabo de descrever, acontece a cena de Letta, grávida, com dois filhos, pedindo asilo e encontrando-o não só em Antonia, mas, principalmente, no capelão disponível para o amor. Logo a seguir ocorre a cena na escola, onde aparece a extrema inteligência de Tereza e quando Antônia diz a Danielle: “Sinto dizer que sua filha não é normal.” A seguir, fica evidente o enamoramento de Danielle por Lara, a professora de Tereza. A cena seguinte mostra Danielle ansiosa, aguardando a chegada de Lara em sua casa para dar aulas a Tereza. A criança se mostra irritada com a impaciência da mãe e, em seguida, há uma cena em que se evidencia como Tereza e Dedo Torto cada vez se entendem e se aproximam mais um do outro.

A mim parece que Letta poderia estar simbolizando o abandono de Danielle, pois perdera seu par, Antônia, que se anima a ter um envolvimento mais efetivo com o fazendeiro Bar. Tereza, a filha de Danielle, de fato não é normal, pois minha hipótese diz que, na fantasia, é como se Tereza fosse filha de Danielle e Antônia. Danielle precisa encontrar um novo par. Lara, que passa a cuidar mais de perto da educação de Tereza, é o alvo ideal para substituir Antônia no coração de Danielle. Assim, é Tereza quem sente o abandono e não mais Danielle. Tereza, por sua vez, busca em Dedo Torto conforto e companhia. Dedo Torto é o representante paterno para Tereza e parece que também para Danielle. Mas de fato ele não é um pai. Inclusive a eleição de seu nome, Dedo Torto pode ser entendida como uma alusão ao homem castrado, ou sem um dedo-pênis forte e potente. Seu dedo-pênis é torto. é apresentado como sendo assexuado, toda a libido investida no intelecto. Ele é consultado quando Danielle quer ter uma criança, tanto quanto é consultado quando Tereza está decidindo levar ou não sua gravidez a termo. Embora consultado e admirado por sua inteligência e sabedoria, são sempre as mulheres quem decidem. A submissão masculina fica evidente no olhar tenso e aflito de Simom, enquanto aguarda que Tereza decida sobre o futuro da criança, como se ele não tivesse direito de opinar. Essa seqüência provoca em mim um certo mal-estar, que vem juntar-se àquela sensação intrigante, à que me referi no princípio, de que tudo é normal demais. Todo o filme é apresentado de forma tão bonita e poética, os cenários são belíssimos, a fotografia é encantadora e tudo é “naturalmente normal”, aceito quase sem crítica. é assim que o espectador é seduzido a não pensar e só se encantar. é uma proposta com características perversas, e talvez isso explique o mal-estar.

Ainda, seguindo a cadeia associativa do enredo filmado pela diretora, não posso deixar de tecer algum comentário sobre o conjunto de relações sexuais, cenas primárias conforme o jargão psicanalítico, que aparecem nas cenas seguintes. Nota-se aqui que a proposta perversa segue, pois a relação homossexual é apresentada aos olhos do espectador como se não tivesse nada de diferente das demais cenas amorosas. é uma seqüência muito bonita que começa com Danielle e Lara na cama, logo depois Antônia e Bar, seguidos por Boca Mole e Deedee e Letta e o Capelão. A música vai aumentando, enquanto os vários casais vão desfilando suas relações sexuais frente aos nossos olhos, cada vez com mais rapidez e volume, à medida que o clímax orgástico se aproxima. Nesse ponto surge Tereza criança, esfregando os olhos e se queixando que não pode dormir. De fato o coito dos pais e a consciência da cena primária é uma causa importante de angústia nas crianças. é um momento de solidão, que a pequena Tereza resolve chupando o dedo, o que, em termos psicanalíticos, entendemos como refugiando-se no auto-erotismo. Cabe comentar que é nessa altura da trama que o casal platônico Louca Madona e o Protestante morrem. Afinal é na relação amorosa carnal que o amor platônico, consciente ou não, se desmancha, pois a verdadeira aproximação nunca pode acontecer nessas situações.

Até esse momento do filme, a Louca Madona e o Protestante haviam aparecido sempre seguindo uma cena em que os personagens principais da trama estão buscando uma aproximação uns com os outros. A primeira ocorrência desse par acontece logo após a cena em que Antônia leva Danielle para conhecer Dedo Torto. Mais tarde surgem novamente, depois que a narradora comenta a paixão de Deedee e Boca Mole e, posteriormente, quando há o assinalamento de que os corações de Dedo Torto e de Tereza se entrelaçam. Há ainda mais uma lua cheia na qual a Louca uiva antes de morrer, que é justamente quando Antônia se entrega ao fazendeiro Bar.

É fácil de se entender o que vem logo a seguir: uma cena de todos à mesa, confraternizando e o anoitecer, ao meu ver, significando a vida e seu renovar. Na verdade é da relação sexual que a vida pode renascer.

E renasce. Tereza cresce, torna-se uma adolescente e é estuprada por Pitt. Antônia, e não Danielle, pois, ao meu ver, Antônia é quem tem a força masculina, sai para vingar sua neta. Mas ela não mata Pitt. Amaldiçoa-o. Isso mostra sua força interior. Sua raiva explode no nível simbólico. E depois... chora. é o único momento do filme em que Antônia chora e chora no seu refúgio de amor ao lado de Bar. Ali e só ali parece seguro poder chorar, sofrer e amar. Os aspectos mais femininos de Antônia só podem aparecer ali, longe de sua casa e família.

Concluindo este breve exercício hipotético, quero retomar a expressão que utilizei no início, quando descrevi Antônia como uma mulher que está de bem com a vida. Penso que de fato ela está de bem com a vida e, por isso mesmo, pode cumprir com desenvoltura quase todas as suas atribuições. Mas há algo que não pode ser plenamente vivenciado no dia a dia, sua feminilidade, pois talvez isso a enfraquecesse. Os aspectos mais conflituados de Antônia podem estar representados na personalidade de sua filha. Posso também fazer a hipótese que os aspectos não resolvidos de Danielle aparecem em sua filha Tereza. Quem sabe se Danielle pudesse ter experimentado mais conscientemente o ressentimento que, suponho, ela tenha de sua mãe Antônia, por tê-la seduzido e depois a trocado por Bar, quem sabe sua filha Tereza poderia ser mais maternal. Tereza não pode ser uma mãe muito afetiva, mas Tereza aproximou-se mais do representante paterno, Dedo Torto, que nutria um carinho verdadeiro por ela. Os interesses científicos e filosóficos permitiram que estabelecessem uma relação paterno-filial muito estreita. Minha hipótese é que isso contribuiu bastante para que Tereza pudesse, melhor que sua mãe e avó, escolher um bom pai para Sarah.

Mas, apesar de todos os conflitos que penso terem os personagens, é importante ressaltar que eles mesmo propõem saídas. Notem que, quando o caminho afetivo para a soluções dessas problemáticas está bloqueado, sempre sobra a alternativa sublimatória, o caminho para as artes, tanto é que Danielle é uma pintora, Tereza, uma musicista e Sarah, uma escritora. Disto tudo é que a vida é feita e acho que por isso não tive tempo de sentir frio quando assisti à A excêntrica família de Antônia, que, talvez, não tenha nada de muito excêntrico no final das contas.

Anette Blaya Luz
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